Andressa Rocha Crítica quinzenal

Colonialismo e Arte Abstrata

A exposição Cubism and Abstract Art (Cubismo e Arte Abstrata), organizada por Alfred Barr e realizada de 2 de março a 19 de abril de 1936, constitui um marco na história da arte ocidental e fez parte de um ambicioso projeto político de transferência do centro artístico para Nova Iorque, promovendo uma genealogia cujo ápice seria o expressionismo abstrato. Trata-se de uma construção epistemológica hegeliana, pautada em uma compreensão de história da arte a partir de uma linha evolutiva e que já vinha se conformando institucionalmente a partir de exposições como Abstract Painting in America 1934-1935 (Pintura Abstrata na América 1934-1935), apresentada de 12 de fevereiro a 22 de março de 1935 no Whitney Museum.

Whitney Museum. Catálogo da exposição Abstract Painting in America, 1935.

Nesse contexto, Barr, então diretor do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA NY), desenvolve seu famoso diagrama, no qual ele identifica duas correntes principais oriundas do impressionismo e responsáveis pelo estabelecimento da chamada arte abstrata: a primeira vincularia-se a um legado de Seurat e, sobretudo, de Cézanne, passando pelo cubismo e pelos movimentos construtivistas desenvolvidos principalmente na Rússia, e constituiria assim uma tradição cézanneana-cubista-geométrica, orientada por Apolo, Pitágoras e Descartes; a segunda corrente encontraria nas produções de Gauguin um importante referencial, passando do fauvismo de Matisse ao expressionismo abstrato do pré-guerra das pinturas de Kandinsky e reaparecendo nas obras de alguns artistas abstratos associados ao dadaísmo e ao surrealismo. Tal corrente seria, por conseguinte, de uma tradição gauguiniana-expressionista-não-geométrica e orientada por Dionísio, Plotino e Rousseau.

Alfred Barr. Cubism and Abstract Art, 1936.

Não por acaso, Barr conclui seu texto no catálogo afirmando que a tradição gauguiniana-expressionista-não-geométrica dominará em algum tempo a tradição cézanneana-cubista-geométrica, argumento baseado no que o autor chama de uma tendência à elaboração de formas não-geométricas, identificada em obras de artistas como Alexander Calder, Hans Arp, Joan Miró e Henry Moore, entre outros. É possível afirmar que a exposição, a qual apresentou quase 400 obras, teve como objetivo instruir os públicos de arte que se formavam e legitimar historicamente a relevância da arte moderna. O MoMA, por sua vez, reitera que a narrativa elaborada por seu primeiro diretor continua orientando o modo que o museu apresenta o modernismo até hoje¹. Não obstante, a prática discursiva adotada por Barr e tornada diretriz de um dos museus mais importantes do mundo em questões concernentes à arte moderna baseia-se em uma dialética de exaustão e reação entre estilos essencialmente formalista.

Percebe-se, portanto, que a historicização da arte moderna articulada por críticos estadunidenses evidencia o desenvolvimento de uma cultura teórica que instrumentaliza aquilo que se encontra fora da curva, ou melhor, fora do eixo Europa-Estados Unidos e que, por isso, não possui carga valorativa como objeto em si. A escultura negra, tal como foi categorizada por Barr no diagrama, aparece na medida em que foi reduzida a seu aspecto plástico-visual por artistas europeus de movimentos de vanguarda como o cubismo. Cabe salientar que ao contrário dos movimentos artísticos que compõem o esquema, a escultura negra não apresenta localidade ou qualquer informação referente ao ano de sua elaboração; ela simplesmente existe como um dado que não pode ser obliterado em virtude de sua influência formal.

Tal como afirma Adriano Pedrosa, “a disciplina da história da arte é o aparato mais poderoso e duradouro do imperialismo e da colonização” e ela encontra no cânone sua condição estrutural. O diagrama proposto por Barr retoma e de certa maneira atualiza os pares dicotômicos wölfflinianos, inserindo-se em uma sintaxe moderna forjada nos centros hegemônicos — Europa e, posteriormente, Estados Unidos — que se baseia na formulação da universalidade, na história linear teleológica e na proposital obliteração da colonialidade que a perpassa. Nessa conjuntura, ressalta-se a obra Colonialism and Abstract Art (Colonialismo e Arte Abstrata), desenvolvida em 2019 pelo artista conceitual afro-estadunidense Hank Willis Thomas. Thomas retorna ao diagrama tornado cânone em uma proposição que promove mudanças substanciais: em sua versão, um arco temporal de 1870 a 1970 apresenta o projeto colonial (com ênfase nas conexões entre a Bélgica e o Congo), sua relação com o capital e os eventos sociopolíticos de independência que possibilitaram os estudos pós-coloniais, articulando-os a movimentos artísticos. Trata-se de um trabalho que evidencia as ramificações do colonialismo e a problemática de uma concepção de história da arte única e dissociada das dinâmicas sociais que a engendram.

Hank Willis Thomas. Colonialism and Abstract Art, 2019.

Referências Bibliográficas

¹Na página sobre a exposição, o texto da instituição pontua que “This groundbreaking exhibition was key to establishing the pedigree for modern art proposed by Museum of Modern Art Founding Director Alfred H. Barr, Jr.—a narrative that continues to shape the Museum’s presentation of modernism to this day”. Disponível em https://www.moma.org/calendar/exhibitions/2748. Acessado em 10 setembro, 2020.

BARR Jr, Alfred H. Cubism and Abstract Art. New York: The Museum of Modern Art, 1936. Disponível em https://assets.moma.org/documents/moma_catalogue_2748_300086869.pdf. Acessado em 10 setembro, 2020.

PEDROSA, Adriano. History, Histórias, p.30. In: Pedrosa, Adriano; Toledo, Tomás [org.]. Histórias afro-atlânticas: [vol.1] catálogo. São Paulo: MASP e Instituto Tomie Ohtake, 2018.


Andressa Rocha
É bacharel em História da Arte pela Escola de Belas Artes da UFRJ, crítica de arte e arte-educadora. Desenvolve pesquisa acerca da presença do legado antropofágico no fim do projeto moderno e a continuidade e inflexão diferencial na obra de artistas afrobrasileiros

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