Andressa Rocha Crítica quinzenal

Contradição Antropofágica

A arte moderna começa com a ruptura do espaço organizado a partir da perspectiva e segue como uma constante interrogação sobre a natureza da relação quadro/realidade. A importação de um projeto de modernidade ressalta uma dinâmica colonial que desconsidera os contextos divergentes onde as produções artísticas são desenvolvidas. O subdesenvolvimento social significa culturalmente a procura por uma caracterização nacional, pensada em relação dialógica e dialética com o que se pressupõe universal.

A antropofagia surge como uma teoria definida a partir da relação que se estabelece com o que está fora. Propõe-se a desierarquização e uma alternativa à colonização histórica através de um movimento que determina como base a valorização das matrizes fundadoras do país que foram negadas. Há uma ruptura com a perspectiva idealizada e romântica do “bom selvagem”, domesticado em consonância com valores europeus. O ritual antropófago, anteriormente julgado pelo olhar do colonizador, aqui é retomado na tentativa de legitimação do contexto local. A identidade nacional é definida, portanto, através de uma auto-descrição de sua cultura marcada pelo signo da multiplicidade.

Na obra de Tarsila do Amaral, artista nascida como herdeira de escravos na oligarquia rural, o colonialismo aparece como permanente tensão. Abaporu funda a ideia de nação com temas e formas nacionalistas. Dessa maneira, o sentido da visão e a psicofisiologia estão em questão. Trata-se, por conseguinte, de uma construção imagética que indicia o discurso, tendo em vista que o Brasil enquanto nação funda-se na relação com a natureza e com o simbólico e define-se por um mito e uma estrutura econômica, na qual está implícito o problema do saber colonizado.

Observa-se, portanto, que as alteridades são reafirmadas, no entanto o processo de mitificação e/ou exploração permanece. É interessante atentar também nos pequenos detalhes ao analisar a inserção de Abaporu no contexto no qual ele foi (re)produzido: no Manifesto assinado por Oswald de Andrade em 1928 – apenas 40 anos após a oficial abolição da escravidão no país – e publicado na Revista de Antropofagia, o desenho de Tarsila aparece com a seguinte legenda: “De um quadro que figurará na sua próxima exposição de Junho na galeria Percier, em Paris”.

Entende-se, desse modo, que a relação colônia-metrópole permanece vigente e mais do que uma produção em nome da tomada de posição crítica de seu país, Abaporu é uma obra realizada para um público não-brasileiro (lê-se europeu) que mantém o exotismo na formação imagética do país.  Na pintura célebre de Tarsila, o olhar colonizador não se dissolve. Apesar do caráter ideológico desenvolvido na elaboração do discurso moderno por excelência – a afirmação da identidade nacional – o lugar do indígena ou do negro não foi pensado dentro dessa sociedade fora de uma lógica de subalternidade. Tal como Amanda Carneiro afirma,

A forma plástica do trabalho da pintora não esteve dissociada do processo social do qual fez parte, e a prevalência de esforços interpretativos que operam nesse escopo formal camuflam debates de raça interseccionados à já refletida dimensão de classe, que, indissociáveis, são tão caros ao modernismo brasileiro.¹

Verifica-se, por conseguinte, uma arte de negociações cujo objetivo é a manutenção da produção epistemológica e sua consequente inclusão no sistema de arte dos centros hegemônicos, os quais percebem no Outro apenas a possibilidade de atualização plástico-formal.

Referências Bibliográficas

¹CARNEIRO, Amanda. Tarsila do Amaral: descendente direta de Brás Cubas, p.78. In: Tarsila Popular. São Paulo: Museu de Arte de São Paulo, 2019.

AZEVEDO, Beatriz. Antropofagia: palimpsesto selvagem. Dissertação de mestrado apresentada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo: Catálogo USP, 2012.


Andressa Rocha
É bacharel em História da Arte pela Escola de Belas Artes da UFRJ, crítica de arte e arte-educadora. Desenvolve pesquisa acerca da presença do legado antropofágico no fim do projeto moderno e a continuidade e inflexão diferencial na obra de artistas afrobrasileiros

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