Crítica quinzenal Vanessa Tangerini

Arte e feminismos: Coletivas latino-americanas (pt.1)

Hoje iniciaremos uma seleção, que continuará nas próximas publicações, onde apresentaremos coletivas latino-americanas atuantes no campo das artes e/ou da cultural visual, focalizando em diferentes abordagens e estratégias de ativismo feminista.

  1. Mujeres Creando (Bolívia, 1992):

Criada em 1992, trata-se de uma coletiva anarco-feminista encabeçada pela ativista-militante-psicóloga e comunicadora María Galindo e pela ativista-poeta-cantautora-escritora e grafiteira aymara-boliviana Julieta Paredes. O grupo surge com a necessidade de construir um espaço para a luta feminista em um contexto de enfraquecimento das forças populares frente ao crescimento e aceitação do modelo neoliberal.

As ativistas acreditam que, em uma sociedade conservadora e machista, a arte deve ser feminista e desdobrar-se no espaço público. Por isto, tomarão o espaço público e urbano como lugar para o seu acionar e irão intervir-lo, sobretudo, através do grafite que, em alguns casos, virá acompanhado de ações performáticas reivindicatórias.

O grupo se baseia na concepção de um feminismo não racista e não elitista, que busca criar novos espaços para a luta das mulheres indígenas e os corpos não hegemônicos, questionando, desde já, os discursos privilegiados que separam o público do privado e o trabalho manual do trabalho intelectual. As suas grafiteadas e ações apresentam fortes críticas ao patriarcado, ao colonialismo, ao neoliberalismo e ao feminismo euro-centrado. São também conhecidas por adotar, em 2006, o conceito de despatriarcalizar.

Mujeres Creando, No se puede descolonizar sin despatriarcalizar, 2010.

Em 2010 participaram da exposição Principio Potosí no Museu Reina Sofía (Madrid, Espanha) e em 2014 da exposição Exhibición Acción Urgente na Fundação Proa (Buenos Aires, Argentina). Sua atividade se estende à publicação de um periódico, chamado Mujer Pública, à publicação de livros (poesia, teoria feministas e teoria da sexualidade) e à produção audiovisual, entre outros.

Mujeres Creando. Ação realizada em maio de 2020 em frente ao Palácio de Governo da cidade de La Paz denunciando a situação das mulheres bolivianas no contexto de quarentena.

Site oficial: http://mujerescreando.org/

  1. Mujeres Públicas (Argentina, 2003):

Criado em 2003 por Lorena Bossi, Fernanda Carrizo e Magdalena Pagano, o grupo se autodenomina como “Grupo Feminista de Ativismo Visual”, buscando cruzar artes visuais e ativismo político.

Sua primeira intervenção, com o cartaz Todos con la misma aguja, foi realizada em 2003 durante os protestos ao redor do dia 8 de março. Ao instalar a peça gráfica (de fácil reprodução) no espaço urbano da cidade, o grupo levantava uma discussão sobre a ilegalidade do aborto, antecipando uma reivindicação que alcançaria, entre os anos 2018 e 2019, proporções inimagináveis.

Mujeres públicas, Todos con la misma aguja, 2003. Ação gráfica/cartaz.

Desde então, o grupo irá trabalhar com ações gráficas (cartazes e panfletos), intervenções urbanas, objetos múltiples e ações in situ buscando, sobretudo, desnaturalizar discursos sexistas.

No projeto Heteronorma (2003) irão subverter a ordem do discurso heteronormativo intervindo nos espaços publicitários que compõem a visualidade do espaço urbano. Ocuparão os outdoors e muros da cidade com perguntas como: “Você é heterossexual? As pessoas no seu trabalho sabem disso? Você tem medo de ser demitido?” ou “O que você opina sobre a adoção pelos heterossexuais?”.

A coletiva irá buscar interpelar ainda mais os transeuntes ao distribuir panfletos com uma pesquisa sobre a “Comunidade Heterossexual Argentina”.

Mujeres públicas, Projeto Heteronorma, 2003. Ação gráfica/cartaz.

Durante a sua trajetória, a coletiva irá participar em diversas exposições nacionais e internacionais, assim como em eventos teóricos. Ademais, buscando estender a sua luta em espaço e tempo, todo o material gráfico produzido pelo grupo é disponibilizado on-line para a sua apropriação e/ou reedição por parte de outros sujeitos ou coletivos.

Site oficial: http://www.mujerespublicas.com.ar/


Vanessa Tangerini é carioca e suburbana. Ex-aluna do Pedro II e da EBA (UFRJ). Cursa a Licenciatura em Curadoria e Historia da Arte na Universidad del Museo Social Argentino em Buenos Aires, Argentina. Atualmente desenvolve sua pesquisa na área de Curadoria e Educação.

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