Andressa Rocha Crítica quinzenal

Direito à opacidade

125. A visibilidade é uma armadilha e a representação é um beco sem saída¹.

O filósofo e poeta martinicano Édouard Glissant, no capítulo intitulado Pela opacidade da publicação Poéticas da Relação (1990), afirma que o direito à opacidade “não é o fechamento em uma autarquia impenetrável, mas a subsistência em uma singularidade não redutível. Opacidades podem coexistir, confluir, tramando os tecidos cuja verdadeira compreensão levaria à textura de certa trama e não à natureza dos componentes”. Nesse sentido, a opacidade conceituada pelo autor seria um modo de relacionalidade baseado não na compreensão, mas no “gesto do dar-com” engendrado na possibilidade de uma existência que recusa a redutibilidade.

Tal como a artista e teórica Jota Mombaça afirma acerca do mencionado texto glissantiano, “como afirmação de uma poética relacional, a opacidade engendra um território ético generativo de diferenças que se manifestam fora do cativeiro da compreensão, mais além do cercado do inteligível, à sombra dos regimes de representação e registros de representatividade”. Trata-se, por conseguinte, de pensar estratégias de como romper a coreografia de violência que invisibiliza sujeitos raciais submetidos a um empobrecimento ontológico em virtude de uma inadequação ao projeto de modernidade instituído, ao mesmo tempo em que os tematiza, tornando-os figuras centrais de um aparato de vigilância e hiper-visibilidade.

É justamente a partir desse campo discursivo que se insere a pesquisa da artista canadense Kapwani Kiwanga. Em Glow #8 (2019), ela apresenta um monólito em forma geométrica permeado por uma luz de led. A proximidade com a escala humana não é fortuita, assim como a utilização do quartzito preto: a condição estática da obra é fundamental na reflexão acerca dos regimes de visibilidade estruturados pelo significante racial. A instalação dialoga também com as tecnologias de vigilância da escravidão transatlântica, sobretudo a chamada lei das lanternas implementada na cidade de Nova Iorque durante o século XVIII.

Kapwani Kiwanga. Glow #8, 2019.

Em abril de 1731, foi aprovada uma lei que visava regulamentar a circulação após o pôr do sol de quaisquer pessoas racializadas acima da idade de quatorze anos. Caso elas não estivessem acompanhadas por uma pessoa branca ou não carregassem uma lanterna, tal comportamento era considerado uma transgressão passível de açoites públicos. Kapwani Kiwanga, portanto, evidencia como tecnologias de visibilidade instituídas durante a escravidão com o objetivo de rastrear a negritude como propriedade sobrevivem e atualizam-se na vigilância contemporânea que estabelece os mesmos sujeitos como alvo.

Referências Bibliográficas

¹MATTIUZZI, Musa Michelle; MOMBAÇA, Jota. Carta à leitora preta do fim dos tempos, p.23. In: SILVA, Denise Ferreira da. A Dívida Impagável. São Paulo: Oficina de Imaginação Política e Living Commons, 2019.

GLISSANT, Édouard. Pela opacidade. São Paulo: Revista Criação & Crítica n.1, 53-55, 2008. Disponível em http://www.revistas.usp.br/criacaoecritica/article/view/64102. Acessado em 01 outubro, 2020.

MOMBAÇA, Jota. A plantação cognitiva, p.11-12, 2020. Disponível em https://masp.org.br/uploads/temp/temp-QYyC0FPJZWoJ7Xs8Dgp6.pdf. Acessado em 01 outubro, 2020.


Andressa Rocha
É bacharel em História da Arte pela Escola de Belas Artes da UFRJ, crítica de arte e arte-educadora. Desenvolve pesquisa acerca da presença do legado antropofágico no fim do projeto moderno e a continuidade e inflexão diferencial na obra de artistas afrobrasileiros

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