Andressa Rocha Crítica quinzenal

Vazante

Distanciando-se de certo modo daquilo que se espera da linguagem plástico-visual produzida por um corpo racializado, a britânica Jadé Fadojutimi (1993) oferece outras possibilidades de formalização em uma pesquisa que intersecciona questões tão caras como identidade e memória. Nesse sentido, pode-se afirmar que é a partir da pintura que a artista realiza sua investigação, desenvolvendo um repertório indissociável de sua experiência de estar no mundo.

De acordo com Jadé, sua pintura advém da necessidade de apresentar aquilo que a língua não dá conta¹. Dessa maneira, a experiência indescritível é mediada pela matéria convocada no fazer pictórico. Na obra My fissured glow (2020), aspectos como a cor e o gesto despendidos são oriundos de um procedimento intuitivo, o qual é permeado por vazios que constituem áreas de respiro. No ambiente elaborado pela artista, a geometria não se coloca tendo em vista que não há qualquer promessa de estabilidade. Fadojutimi apresenta assim uma obra que se faz não apenas no, mas como espaço. 

Jadé Fadojutimi. My fissured glow, 2020.

My fissured glow, portanto, apresenta elementos centrais da pesquisa desenvolvida pela artista mais jovem a integrar o acervo da Tate – uma das instituições mais relevantes no cenário artístico cuja coleção, não por acaso, é também formada por obras doadas por sujeitos vinculados à escravidão. Tal como o site das galerias afirma, “não é possível separá-las da história de escravidão colonial da qual, em parte, derivam sua existência”². A inserção de Jadé, por conseguinte, evidencia a importância de seu trabalho e, sobretudo, a contradição que permeia tais processos legitimadores engendrados em arcabouços coloniais.


Referências Bibliográficas 

¹Love Magazine. Painting the indescribable: Jade Fadojutimi. Disponível em https://isabellaroseceleste.com/LOVE-MAGAZINE-PAINTING-THE-INDESCRIBABLE-JADE-FADOJUTIMI. Acessado em 3 novembro, 2020.

² Em The Tate Galleries and Slavery, a instituição afirma que “[…]it is therefore not possible to separate the Tate galleries from the history of colonial slavery from which in part they derive their existence”. Disponível em https://www.tate.org.uk/about-us/history-tate/tate-galleries-and-slavery. Acessado em 3 novembro, 2020.


Andressa Rocha
É bacharel em História da Arte pela Escola de Belas Artes da UFRJ, crítica de arte e arte-educadora. Desenvolve pesquisa acerca da presença do legado antropofágico no fim do projeto moderno e a continuidade e inflexão diferencial na obra de artistas afrobrasileiros.

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