Carta Pública - Revista Desvio

A Desvio é feita por pessoas: carta aberta da equipe.

Todos que conhecem a Revista Desvio a pelo menos alguns meses já ouviu a nossa máxima: a Revista Desvio é um projeto de amor feito por voluntários. E isto é constantemente informado porque essa é a nossa realidade. Não somos um instituto, não somos um museu, não temos dinheiro, não recebemos salário e não temos qualquer fundo permanente. Ações como o Apoia-se geram em média R$400,00 que são divididos por membros com extrema necessidade, que perderam seus empregos e estão em situação de vulnerabilidade durante a pandemia. Além dessa ação, ganhamos nosso primeiro edital da Lei Aldir Blanc, que foi usado para pagar dívidas advindas da Desvio. Sim, ela gera gastos para seus membros, mas nunca gerou lucro.

O distanciamento ocasionado pela internet permite ações violentas por aqueles que apenas observam a Desvio e seus membros, mas desconhecem como o projeto realmente funciona e tem funcionado até então. Para algumas pessoas, não somos pessoas como elas. Há alguns anos passamos por situações que beiram o absurdo, e guardamos todos os casos para nós, sem expor ninguém, com o intuito de continuar tocando o projeto da melhor maneira possível.

Gostaríamos de exemplificar o porquê essas problemáticas não são de agora. Tivemos pessoas que abandonaram projetos no meio do caminho, nos obrigando a ter um trabalho dobrado (sempre afirmamos também que, se você não faz, alguém vai ter que fazer, o comprometimento ao tocar projetos voluntários é essencial, caso contrário, o projeto é abandonado). Recebemos muitos e-mails cobrando uma data de publicação da revista, e essa questão é bastante complicada, posto que nós temos um calendário fechado, com previsão de lançamento para o final do primeiro e do segundo semestre do ano. Entretanto, em todas as edições, enviamos os arquivos para aceite da revisão e os autores nos retornam fora o prazo. Parece pouco, mas, se um autor atrasa, a diagramação atrasa e a publicação da revista também. Por consequência, recebemos e-mails de críticas perguntando por que a edição ainda não foi publicada. Em muitas ocasiões, a equipe de design se desdobra para conseguir postar no prazo estipulado, mas não é justo a equipe voluntária ter que se submeter a isso por erro que não nos compete. Torna-se então um ciclo vicioso em que alguns autores atrasam, outros cobram, e nós, no meio, tentamos resolver a situação da melhor forma possível.

Falta também empatia e discernimento. Recebemos críticas extremamente duras com questões absurdas, desde reclamações por não abrirmos mais espaço para textos livres – mesmo a Desvio deixando bem claro que é uma revista acadêmica -, passando por reclamações de não aceitarmos uma quantidade maior de imagens nos textos, sendo que em alguns casos são enviadas um número além do permitido por outras publicações, seja elas impressas ou online. Há também reclamações da avaliação do artigo, onde a opinião do avaliador não é apenas contestada, mas a capacidade do avaliador é colocada a prova, além de textos que são enviados de maneira incorreta pelos autores e eles reclamam por não permitirmos o envio do artigo correto fora do prazo, entre outros. Esses são alguns pequenos exemplos, mas já passamos por situações piores, já fomos literalmente ofendidos, no entanto, continuamos.

Nos perguntamos quase todos os dias se essas mesmas pessoas fazem isso com revistas acadêmicas de renome. Sabemos que não somos “ninguém”, somos estudantes lutando para ter alguma coisa, igual você aí do outro lado que lê esse texto. Mas respeito e empatia têm que ser oferecido, independentemente do nome. Para nós, a gota d’água foi agora, porque não acreditamos que seria possível passar por ainda mais absurdos, mas sempre é. A oficina de produção, curadoria e montagem, ofertada gratuitamente para o público, foi um sucesso. Recebemos muito elogios, muito carinho e apoio, ficamos extremamente gratos. Mas, infelizmente, as problemáticas acabam ganhando destaque. Explicamos tudo no formulário, respondemos dúvidas, tentamos ao máximo ser transparentes e justos, mas sofremos um minúsculo linchamento virtual, completamente desnecessário.

E pior, por questões que estavam claras. Tentamos responder de maneira educada, mas cansamos. Sem dúvida, esse é o ponto desta carta aberta: relatar o nosso cansaço. Ter uma postura pedagógica não nos torna saco de pancadas de pessoas que não se atentaram corretamente aos detalhes, que não acompanham nossas redes para saber das novidades. Não somos “empregados” de ninguém, mais uma vez, a Desvio é um projeto voluntário, não temos obrigações com ninguém, não prestamos um serviço. Poderíamos inclusive, ignorar determinados comentários, mas, por respeito ao nosso público, sempre respondemos a todos. Mas se o público não nos respeita, não temos condições de exercer essa reciprocidade.

Mais uma vez, aqui do outro lado, temos pessoas. Pessoas que leem certar críticas e ficam abismadas com a crueldade dos outros. Pessoas que não se calarão mais. Com isso, informamos que:

  1. Comentários ofensivos e que contestam nossa idoneidade não serão aceitos.
  2. Comentários violentos não serão aceitos.
  3. Não exerceremos reciprocidade de educação com pessoas que não são recíprocas conosco, não somos sacos de pancada, somos pessoas.

Nosso trabalho custa dinheiro, e nos não somos remunerados por ele. Não aceitaremos mais, além de não sermos remunerados, sermos humilhados. Agradecemos a todos que nos apoiam e apoiaram até aqui, e solicitamos que, antes de realizar qualquer tipo de comentário ofensivo, sem empatia, impaciente ou cobrando alguma coisa, lembrem-se que somos voluntários e estamos em um esquema de trabalho gratuito, que não prestamos um serviço a ninguém, e estamos aqui por um projeto de amor. Se esforçar ao máximo para comunicar-se conosco da maneira mais bacana possível é sim uma obrigação.

Como uma querida amiga comentou conosco uma vez: é necessário “saber diferenciar o que é museu hegemônico financiado por grupos bilionários e o que é um grupo de estudantes fudid@s tentando construir alguma coisa relevante”. Não nos confunda e nos respeite. Obrigada.

3 comentários

  1. parabéns pelo trabalho e parabéns pela sensibilidade de compartilhar as angústias e expectativas. Não recuem, se precisar desenhem!!! para facilitar o entendimento

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