Crítica quinzenal Pietro De Biase

O TUTANO DO HUMANO

Para Rafa, meu amor, meu Sol de Maiakóvski

“E o homem desenha o tempo na exatidão do sonho”

Amilcar de Castro 

Uma das possíveis interpretações da palavra “encruzilhada” é indecisão, contradição. A indecisão sobre escrever ou não este texto soma-se a uma miríade de incertezas sobre a sua profusão, que atinge este que vos escreve. No ano de 2021, festeja-se o aniversário de 90 anos do poeta Augusto de Campos com uma mostra na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. Simultaneamente, o centenário do nascimento de Amílcar de Castro (1920-2002) é comemorado com uma retrospectiva no Museu Brasileiro da Escultura e Ecologia (MuBE) na mesma cidade. Ambos tributários do pensar construtivo, o primeiro se filiou ao movimento da poesia concretista, enquanto o segundo assinou o Manifesto Neoconcreto. 

A retrospectiva de Castro no MuBE relampeja o espírito da aventura geométrica do artista mineiro. Partindo de um raciocínio estrutural e de um domínio ímpar da técnica, o artista reafirma sua potência lírica ao construir espaços insólitos a partir dos gestos de corte e de dobra. A superfície de ferro é golpeada uma só vez. É por esse gesto que o espaço se remodela para incorporar suas fissuras, desbravando a tridimensionalidade. Por se tratar de um material de tamanha resistência, o corte e a dobra devem operar com exatidão clínica para não comprometer a estrutura da peça. O resultado se dá na marcação de planos bem definidos e na unicidade da escultura, um efeito que a solda não foi capaz de premiar. Como o próprio artista descreveu “pra que a placa que dobra e vira asa nunca esqueça seu começo”. Um procedimento de alto risco, pois irreversível. Ou como definiu Ferreira Gullar: “como quem esperasse um milagre, já que o acerto deve ser instântaneo”, que seria o aparecimento, a conquista, dessa nova dimensão.

Amilcar de Castro (imagem: Marcos Vinicius Arruda Camargo)

As digressões à Idade do Ferro do artista mineiro permitem o encontro de sua obra com uma nova dimensão, o tempo. A ferrugem e a corrosão na superfície do aço editam perenemente o trabalho e concedem ao olhar os sulcos da passagem do tempo. O tempo pressupõe pausa e espera para “abrir um espaço ao amanhecer na matéria bruta”. Na linguagem de Amílcar, o envelhecimento da matéria se pressupõe como algo a ser depurado a olho nu, como em ato sacramental, pelo e para o público.

Amilcar de Castro (foto: Instituto Amilcar de Castro)

Igualmente sob uma solenidade engajada com o público, se situa a obra de Augusto de Campos. Inquieto e renitente ao classicismo da poesia, o artista desenvolveu uma linguagem visual alicerçada na autonomia da palavra. Não mais como figurante de uma estrofe linear, mas como signo gráfico independente. Seus versos, ou melhor, “não versos” ignoram a linearidade da poesia tradicional, para experimentar, como Amílcar, o espaço a partir da própria estrutura do poema.

Uma construção aferrada ao rigor da novidade da forma e a uma crítica contundente à fartura industrial. Produziu trabalhos com “Cidade” (1963), onde o poeta ironiza o tonitruante ritmo da urbe, aglutinando, numa única linha, fragmentos de palavras e gerando significados como “atrocidade”, “caducidade”, “causticidade”, “ferocidade”, culminando em “onivoracidade” – a que tudo devora. Ou em “Mercado” (2002) em que “tudo à venda / nenhum poema”. Em Campos, o núcleo poético é reorganizado não mais pelo encadeamento sucessivo e linear de versos, mas por um sistema de relações e equilíbrios entre significante e significado. 

Augusto de Campos, Mercado, 2002

A cruzada anti-canônica alvitrada por Campos contra as convenções da poesia encerra por escorar, como em Amílcar, o seu compromisso com a perspicácia do olhar do público. Muito embora, a estrutura dos poemas e as teorizações possam se mostrar, por vezes, impenetráveis. O arco concreto empunhado pelo poeta nem sempre é de fácil fruição. No centro dessa encruzilhada, opondo gozo e confronto, habita um estudo laborioso da matéria prima mais valiosa e essencial à qualquer literatura: a palavra. Onde mais seria possível reinventar senão diante da inviabilidade de uma encruzilhada?

Augusto de Campos, Amortemor, 1970

Avessos a facilidades, Campos e Castro alcançaram seus próprios milagres. A partir de gestos incisivos, ambos viabilizaram o inviável. O “aço do açúcar” como declarou o poeta em seus “Não poemas”(2003).  Ao que Amílcar teria respondido: “é pleno mistério”.

Longe de repaginar a história da arte brasileira ao preterir as distinções conceituais e teleológicas entre as vanguardas concretas e neoconcretas, este texto propõe um diálogo na encruzilhada. Uma dialética da coerência, pois tanto nas obras de Castro como de Campos, se nota uma fidelidade ao grão incorruptível da arte, um compromisso com a não linearidade do gesto e do espaço. Em Amilcar, por meio do corte e da dobra nas chapas de aço e em Augusto, a partir da dessacralização das palavras.

No texto “Agrestes”(1985), João Cabral de Melo Neto conclamou a obra de Campos como “distinta liga de aço”, capaz de “lavar-se da que existia”. A ode do poeta da educação pela pedra à poesia de Augusto pela sua solidão e improbabilidade revela-se igualmente aderente ao trabalho de Castro. Palavra e silêncio assumem uma unidade inseparável, complementar, precípua ao poema enquanto forma. O léxico do artista mineiro se refugia na potência lírica de sua matéria prima – “a comunhão do opaco com o espaço dos astros, redimindo a matéria pesada na intenção de voar.” Confrange a cartografia tradicional da arte, transcendendo a espaços até então irrealizáveis. Como o tempo; as encruzilhadas. E também os milagres.


pietro

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio

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