Crítica quinzenal Gabriel Fampa

GODZILLA: TOKYO S.O.S (parte 1: cidade leve)

Noite escura, sem estrelas, rua deserta. Calçadas de concreto puro banhadas por edifícios de média escala. Todos eles com a grandeza mais ou menos semelhante de oito andares. São estruturas que dispõem de luzes internas que iluminam inúmeros apartamentos (enquanto outros permanecem no escuro). Nessa cidade que vemos, a multiplicidade de prédios, a presença de letreiros luminosos e a abundância de carros estacionados nos induz a acreditar que temos, diante de nós, o centro residencial de uma zona com alto grau de tecnologia e urbanização. Um dos outdoors, azul e branco, dá pistas de que essa localidade está situada no Japão. Mas algo está errado. Essa cidade, mesmo à noite, parece estática demais.

Estamos assistindo Godzilla: Tokyo S.O.S., filme japonês de 2003, e agora temos certeza: algo nos é estranho nessa cidade que observamos. O que significa, afinal, parecer estática demais? Podem os carros estar parados mais do que o normal? Podem os prédios se encontrar estranhamente inertes? Podem os apartamentos expirar ar de um vazio mais vazio do que o de costume? Não há tempo para respostas: o chão treme; Godzilla, esperado nessa área, caminha próximo de onde estamos localizados. E oculto ao redor, espreita um outro monstro colossal. Uma batalha entre os dois é esperada.

Além dos passos gigantes, há somente silêncio, uma inquietante tranquilidade aqui – em Tóquio –, uma espécie de vácuo indefinido.

Ouvimos, entretanto, murmúrios de vozes caladas? Há mesmo pessoas dentro desses apartamentos iluminados? Identificamos nas janelas silhuetas de cortinas, de mesas e de lustres. Sombras, mas nenhum movimento. Ninguém espreita nas janelas, ninguém é seduzido pelo desastre, ninguém se coloca em risco para ver a prova. Talvez, os prédios estejam de fato vazios, evacuados às pressas sem que houvesse tempo para que as luzes fossem desligadas. Nesse caso, a cidade é de Godzilla e de seu inimigo, é um campo de batalha esvaziado.

Mas, não podemos deixar de considerar que alguns cidadãos de Tóquio, descrentes de que esses seres insólitos se aproximariam de fato (ou de que sequer existem) permaneceram em casa. Ou ainda, talvez cressem que dentro de seus lares estariam em segurança, por entre paredes de concreto e janelas revestidas de cortinas. Talvez os apartamentos iluminados estejam, de fato, vazios e os escuros, esses sim, repletos de pessoas torcendo despercebimento. Talvez, ainda, não tenha realmente havido tempo para evacuação e a cidade inteira esteja, na verdade, repleta de cidadãos escondidos em breu e que nunca aparecem a nossa vista.

Quanto a nós, observamos de espaços abertos, sem medo; flutuamos pela cidade como seres sem peso; vemos de corte em corte. Vigiamos e testemunhamos.

A sensação de que está tudo estático demais nessa Tóquio que assistimos, entretanto, não se aquieta diante da constatação de que assistimos a uma cidade possivelmente evacuada, ou a uma multidão escondida e petrificada. O fixo está para além do vácuo, e o vácuo para além da fuga ou do medo.

Diante de nós, o vento não se contorce por entre as folhas das árvores levando folhagem seca e flores mortas. Semáforos não oscilam entre o verde e o vermelho. Luzes de postes não piscam em curto. Carros estão abandonados na rua (alguns de portas abertas, outros atirados contra uma parede), mas não se avista nenhum motorista em retirada atrasada. Não há cachorros, nem gatos, nem pássaros, nem insetos. Não há pessoas correndo, nem corpos estendidos ou rastejando. Não há sangue escorrendo. O céu é breu: não há estrelas, nem nuvens passantes. O lixo não voa carregado pelo vento; jornais de dia anterior não passeiam pela cidade ficando presos em vãos.

E o que se escuta são passos monstruosos de Godzilla, e só. Não há latidos. Não há trovões. Não há gritos. Quantos desses carros colididos não estariam com seus alarmes disparados em qualquer outra cidade? Quantos encanamentos subterrâneos rompidos não berrariam som de água em jato? Quantas fiações cortadas não ameaçariam ruído de eletricidade exaltada? O movimento e o som característicos urbanos, aqueles que dependem ou não da ação humana, não são vistos nem ouvidos em Tóquio. Tudo aqui está fixo.

E ainda que tudo esteja fixo, nada tem peso. Não é preciso tocar para sentir a leveza. Até mesmo um desses prédios, supõe-se que boie em uma piscina.

Finalmente, Godzilla se aproxima suficientemente de nós para que o vejamos mais de perto. Os passos estrondosos já não são mais som sem corpo, índices distantes de dimensão inimaginável, mas barulhos que acompanham uma monstruosidade que se sustenta em estatura irreal. Avistar Godzilla reafirma aquilo que está nos inquietando desde o princípio: há algo estranho nessa cidade. E não é somente sua singular fixidez ou sua indisfarçada leveza.

Talvez, se pudéssemos olhar um pouco mais de perto, saberíamos exatamente o que é isso na Tóquio de Godzilla: Tokyo S.O.S. que nos aflige. Mas nós, que assistimos a esse monstro se locomover pela cidade, nunca estamos verdadeiramente perto de algum objeto. Nossa perspectiva nunca se dá de dentro de um apartamento, ao lado de um carro, próximo a um semáforo: há sempre considerável distância entre nós e qualquer objeto ou construção dessa cidade. Vemos, mas sem entrever.

Momentos em que nos aproximamos um pouco mais de carros e árvores, porém, têm efeito inusitado: mesmo de perto, esses objetos dessa específica Tóquio continuam se configurando como pequenos; ou melhor, quanto mais próximo deles, menor eles nos parecem. Quem sabe, se nos aproximarmos o suficiente de um semáforo, ele se reduza ao tamanho de um brinquedo em nossas mãos? Esses semáforos, de corpo tão fino e frágil nas ruas, parecem que vão quebrar ao sopro. As árvores, talvez conseguíssemos arrancá-las da terra com pinças. Os prédios, talvez nem mesmo coubéssemos neles.

Aliás, se todos esses objetos e estruturas da cidade são mesmo menores quanto mais vistos de perto, como isso recai sobre a grandeza desse ser gigante? Em termos de escala, Godzilla vive em meio a um paradoxo difícil de descrever. Ele é enorme, é verdade, mas apenas considerando-se a volatilidade da grandeza de tudo nesse lugar estranho em que estamos. Isso não quer dizer, entretanto, que seu tamanho varie: sua estatura é, ao contrário, sempre a mesma. Ou seja, pisar em Tóquio como ente gigante de algum modo faz incorporar na criatura traços das características peculiares da cidade.

A batalha começa, e as bestas, forças desconhecidas, entram em confronto.

Há, acima de tudo, uma peculiar carência de densidade na cidade. Ou talvez de contraste. Quem sabe seja de profundidade? Do que quer que seja a carência, nos afeta o olhar e nos contrai a mente. Tudo aqui se dá à vista. Onde estão os becos escuros, o abjeto, o podre? Onde está o fedor dessa cidade? Mesmo que esteja atrás de nós, desconfiamos de não existe. Só existe o que vemos, de corte em corte.

Mas quando Godzilla é jogado contra um prédio por seu inimigo, toda construção na qual tomba explode. Pedaços de concreto viajam pelos ares com leveza e uma bola de fogo irrompe do chão, seguida de fumaça cinza e densa. Há, desconfiamos, uma reação exagerada das estruturas dessa cidade quando tocadas. Há uma força oculta, uma fatalidade latente, uma explosão implícita em cada prédio, em cada espaço. Assim nos parece. Desses choques, desprende em queda livre a esquisita materialidade que compõe Tóquio. Há mesmo algo estranho nessa cidade: é como se, na pluralidade daquilo que a compõe, ela fosse por inteira constituída de uma mesma e única matéria frágil e leve que rompe à batida.

E agora, prédios desmoronam por completo e a cidade inteira, em seu silêncio, em sua estaticidade, em sua leveza, em sua pequenez, em sua falta de densidade, em sua una materialidade que voa pelos ares, lembra uma única bomba, uma vasta estrutura construída para incorporar e reagir ao próprio desastre distribuído pelos corpos extraordinários que pisam nela.

Leveza: https://tinyurl.com/735th3bn


FAMPA

Gabriel Fampa é graduado em Ciências Sociais pelo IFCS e mestre em Linguagens Visuais pela Escola de Belas Artes (UFRJ), tendo integrado o programa de formação Práticas Artísticas Contemporâneas da EAV / Parque Lage. Vive e produz no Rio de Janeiro.

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