Clara Machado Crítica quinzenal

O inferno íntimo de Clarice Rosadas

O ateliê de Clarice Rosadas é um grande acúmulo de camadas. Camadas de telas pela parede que sobem até onde o corpo alcança, camadas de papéis acumulados em cadernos também acumulados uns sobre os outros, rolos de fita crepe empilhados que formam espirais instáveis. Na mesa e nas paredes, camadas e manchas de tinta, fragmentos de trabalhos que transbordam para o espaço e deixam ali sua memória, o rastro da sua presença.

Também suas imagens são assim, compostas por camadas e rastros. Um elemento recorrente no trabalho de Clarice é a fita crepe, que a artista usa para coletar elementos de outros lugares (textos de livros, fragmentos de trabalhos ou marcas produzidas por ela) e transpor para o papel. Nessa operação, Clarice cola a fita em uma superfície, pressiona os dedos sobre ela e a retira, mantendo o pigmento grudado no verso da fita, para depois a colar em outra superfície. Assim, a fita ao mesmo tempo revela e interdita a imagem. O elemento que torna possível a presença daqueles rastros é também responsável pelo seu apagamento, pois a imagem coletada pela cola da fita jaz por baixo da sua superfície, velada e fragmentada. Nisso, instaura-se uma dualidade entre o ímpeto de revelar e esconder, uma relação entre interdição e desejo: é preciso olhar de perto, ser tomado pela vontade de arrancar a ponta da fita com a unha, abrir a imagem e penetrar seu segredo.  

Na série Inferno, Clarice coleta fragmentos de texto da Divina Comédia de Dante e de Entre Quatro Paredes de Sartre. Os traços em preto ou vermelho terroso vão manchando a superfície, marcas da uma mão que se inscreve, furiosa ou delicada, no papel. Além da escrita coletada dos livros há uma segunda escrita que acontece como inscrição, puro movimento do corpo. Uma escrita-risco, instável, que suja, se infiltra. No fim tudo se mistura em camadas, palavra e traço são uma coisa só. Tudo é rastro de um corpo em contato com outro corpo. Escrever é tocar. Clarice toca esse inferno, o escreve/inscreve. Mais ainda, se escreve/inscreve nele, nos dá a ver seu embate apaixonado com aquele outro corpo, o papel.

Quando cedemos ao desejo de olhar de perto, de abrir e penetrar as imagens, ler aquelas letras meio apagadas, somos tragados para um inferno íntimo, táctil. Tudo é toque. Vemos as marcas de impressão digital da artista no papel ou guardadas sob a superfície da fita, lemos o texto que aparece na imagem como um sussurro, “vem, entra”.

E você entra, porque já não tem mais escolha.


Clara Machado
Rio de Janeiro, 1994 . Artista visual e poeta. Mestranda em Processos Artísticos Contemporâneos pelo PPGARTES-UERJ, graduada em Artes Visuais pela UERJ. Realizou intercâmbio no curso de Artes Visuais da Universidade IUAV de Veneza, Itália. Em 2019 participou do curso de acompanhamento Imersões Poéticas, da Escola Sem Sítio. Realizou diversos cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e participou de exposições nacionais e internacionais. Autora do livro Ferrugem, editora Urutau.
Sua pesquisa artística e teórica gira em torno dos vestígios e do corpo, atravessada por questões como a morte, a memória e o erotismo

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