Crítica quinzenal Juliana Cunha

A TERRÍVEL CONSCIÊNCIA DA MORTE

Farnese de Andrade
Tudo continua sempre, 1974
Oratória, cálice de cristal e cabeças de boneca de porcelana, 81 x 45 x 22 cm.
Coleção Particular de Charles Cosac
Fonte: ArtArte

Tudo continua sempre é o título da assustadora assemblage de Farnese de Andrade (1926-1996). Nela, um oratório é maculado pela terrificante presença de bonecas de porcelana decepadas. Elas não possuem olhos, têm o topo da cabeça voltado para baixo e estão enfileiradas na vertical, em escala decrescente, sobre um antiquado cálice ovoide de cristal.

O assombro pela imagem que o artista produz evidencia o questionamento sobre o título: qual âmbito, na esfera da vida, tem sua continuidade ininterrupta? A morte surge em nossos lábios, e o antigo ditado sobre ser ela nossa única certeza é sussurrado pela obra. O próprio Farnese, que muitas vezes utilizava bonecas em seu trabalho – criaturas que emulam a vida, mas não a têm –, comenta seu incômodo com a efemeridade de nossa existência.

Eu não quero de forma alguma fabricar um ser humano. Eu não sei se no fundo é uma negação da criatura humana como ser atual, no sentido de evolução, ou no sentido da fragilidade do ser humano que está exposta, vamos dizer, na morte, né? É inevitável. […] Eu acho uma espécie de crueldade mesmo. Da minha parte, acho uma crueldade colocar uma criatura no mundo. É impossível, não há possibilidade nenhuma de felicidade. Se você tem a consciência da morte, você não pode ser feliz. (FARNESE, 2010, transcrição de filme)

Não há diferença quanto à mortalidade do homem em nenhuma das eras: morremos todos. Tudo continua sempre, pois a única coisa eterna em nós é o fim contínuo de todos e de tudo. Tudo continua sempre morrendo. Nascemos por crueldade, por pulsão erótica não controlada, e morremos por causa de uma força atemporal e superior à singela existência humana. Bebemos da morte desde bebês, a partir do primeiro suspiro de vida. O trabalho de Farnese carrega o fardo dessa vida perdida, da memória do fim. Revela de uma maneira concisa e aterrorizante um futuro intransponível. Como uma grande vagina aberta, de um cristal precioso, somos suas bonecas paridas em direção ao céu, em uma jornada que nos leva, invariavelmente, para a morte.

Barnett Newman
Broken Obelisk, 1963-69
Aço, 749,9 x 318,8 x 318,8 cm.
MoMA
Fonte: MoMA

É a inevitabilidade do fim força miraculosa pertencente ao universo do divino, ao campo da religião, como um segredo resguardado dentro de um oratório. Se o obelisco invertido de Barnett Newman aponta para baixo, para o homem, e manda para os deuses a mensagem de que “estamos aqui”, Farnese de Andrade, com suas cabeças empilhadas, repõe o obelisco voltado para o céu, para a eternidade, e diz “iremos todos para aí”. Contudo, ao contrário da melancolia que a imagem do artista brasileiro poderia causar, a obra nos atinge com uma voracidade mórbida e cruel, evoca aquilo que está escondido, enterrado e nós não queremos ver. Mais incomoda do que entristece.

A dissonância entre sua produção e a linguagem construtiva adotada por muitos artistas brasileiros do período levou pesquisadores a buscarem soluções teóricas para sua incorporação na história da arte brasileira. O vínculo entre a obra e a triste vida de Farnese foi amplamente explorado, mas é algo a ser repensado, pois encerra a latente questão universal tratada pelo artista em um dado biográfico.

Ainda em vida Farnese pôde ver sua obra em inúmeras exposições coletivas. Na Bienal de São Paulo de 1961, 1963, 1965, 1967 e em 1978, em uma sala especial; na 34ª Bienal de Veneza (1968) como representante nacional; em Tradição e ruptura (1984), junto com Lygia Clark, e também em Configura 2, na Alemanha (1995), sendo o único brasileiro com sala individual.

Mas a falta de discípulos e a inegável atração da crítica de arte do período pelas questões construtivas, sobretudo com a popularidade da arte concreta e neoconcreta, jogou para as sombras o trabalho altamente potente de Farnese de Andrade. De fato, a felicidade messiânica da reconstrução do mundo não coabita com a consciência da ininterrupta atividade da morte.


REFERÊNCIAS

COSAC, Charles (Org.). Farnese. Objetos. São Paulo: Cosac & Naif, 2005.

FARNESE, caixas montagens objetos. Direção: Olívio Tavares de Araújo. Produção: Juarez Dagoberto Costa. CDI. Documentário, 15’09’’. Disponível em:

https://www.youtube.com/watch?v=7PGRHbOAvvc. Último acesso em 2018.

SANTANA, Rafael Eduardo. Entre o estranho e o familiar: os objetos de Farnese de Andrade. Revista Concinnitas, Vol. 02, nº 19, 2011. P. 21-35.


Juliana Cunha é escritora de terror, mestre em artes pelo PPGARTES / UERJ e bacharel em história da arte pela mesma universidade. Seu campo de estudo engloba as questões da subjetividade, da morte, do maligno e do sombrio em distintas manifestações artísticas

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