Clara Machado Crítica quinzenal

CONDOMÍNIO

O ovo, “casa dos infinitos tamanhos, palimpsesto eterno da palavra, da gestação, dos processos do assombro”, diz Mariana Par. Vemos duas pilhas de caixas de ovos feitas de concreto sendo erguidas uma ao lado da outra. A caixa de ovo, invólucro do invólucro, se multiplica no limite da gravidade, até onde a artista é capaz de empilhá-las. Cuidadosamente as empilha.

cuidado

Pegar o ovo na mão, “cuidado”. A caixa de ovo, “cuidado”. Empilhar as caixas, “cuidado”.

Então vem a queda, desastre anunciado.

OVO – CASA (condomínio de casas). É frequente no trabalho de Mariana Par a contaminação entre o dentro e o fora da casa. No trabalho Sala de estar, Mariana leva móveis e elementos domésticos para a rua junto a outras pessoas (amigos, passantes), enquanto em Barricada a artista constrói uma barricada de móveis na sala da própria casa. Duplo ímpeto de abertura e destruição, levar a casa pra rua e a rua pra casa, guardar os ovos-casas em suas casas-caixas até o ponto do desabamento.

O acúmulo leva ao desastre, as casas caem. Destruir a coluna infinita de Brancusi

CASA-CASCA

Essa forma absoluta do ovo aguarda a destruição.

Como que cedendo ao desejo de abrir a caixa-casca de concreto para nos revelar seu interior, Mariana nos dá um objeto de concreto com um ovo cravado em sua superfície. Camada sob camada. Contraste entre a delicadeza frágil e lisa da casca do ovo e a rigidez áspera do concreto.

cuidado

Depois, um líquido branco escorre pelo o objeto – vem de cima, uma cascata leitosa da cor do ovo, se mistura com a superfície do ovo, se infiltra na aspereza do concreto.

cuidado

Uma mão entra no quadro segurando um martelo e rompe a brancura do ovo.

O dentro impossível do ovo é esperado e intuído como abrigo, mas quando sai ele vem como sujeira líquida e erótica. O amarelo brilha indecente sobre o branco, segue viscoso o caminho áspero da superfície de concreto.

Destruir/abrir a casa-casca.

ESCORRIMENTO

Contenção impossível.

Um rodo apoiado na quina da parede branca contém um amontoado de britas que repousam como que empurradas para o canto pelo rodo. Um líquido branco como a parede, como o ovo, escorre pela quina. Começa fino, quase imperceptível, encharca as pedras ainda barradas pelo rodo, começa a aumentar o fluxo, escorre pela parede, por cima do rodo, empoça o chão, atravessa a barreira de contenção, o chão molhado de branco, as pedras, o rodo.

cuidado

Mariana opera deslocamentos (escorrimentos) entre os elementos com que trabalha. A casa é também caixa e casca e ovo, que é também branco e líquido e dentro, e a casa é dentro e é fora. Cuidado – cuidar. Cuidado – atenção. Sua destruição é erótica, nos convida ao prazer de quebrar o ovo, de derramar o líquido, de desabar a casa. A cada queda, um novo significante escorre, se infiltra.

E tudo volta sempre ao mesmo lugar                                                          que já não é o mesmo lugar

quebrado

O V O                                                                                  V O                  V O V O V O                                

            V O V                          O V          O V                  O         V         O                         V         O V O V O

                          O V O V O V           O V           O V O V                 O V                                 O V

Texto escrito a partir do vídeo de Mariana Par feito como resultado da residência Refresco, em 2020. Disponível em: https://vimeo.com/527425279


Clara Machado
Rio de Janeiro, 1994 . Artista visual e poeta. Mestranda em Processos Artísticos Contemporâneos pelo PPGARTES-UERJ, graduada em Artes Visuais pela UERJ. Realizou intercâmbio no curso de Artes Visuais da Universidade IUAV de Veneza, Itália. Em 2019 participou do curso de acompanhamento Imersões Poéticas, da Escola Sem Sítio. Realizou diversos cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e participou de exposições nacionais e internacionais. Autora do livro Ferrugem, editora Urutau.
Sua pesquisa artística e teórica gira em torno dos vestígios e do corpo, atravessada por questões como a morte, a memória e o erotismo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: