Crítica quinzenal Juliana Cunha

DESEJO DO ETERNO E DO EFÊMERO

A “Dança Macabra” ou “Dança da Morte” foi um tema desenvolvido no final da idade média e início do renascimento, entre os séculos XIV e XV. Ele trouxe à luz um julgamento moral da sociedade através de representações que explicitavam a eficácia intransponível da Morte. Um assustador convite é feito por tal personagem: todos os seres vivos, sem exceção, são obrigados a dançarem a coreografia macabra de seu próprio fim.

As drásticas mudanças ocorridas na sociedade europeia ao final da idade média foram fundamentais para a popularização desse tema. A associação entre os males vividos e a chegada dos quatro cavaleiros do apocalipse, anunciadores do fim do mundo, gerou um clima de terror que rompeu as barreiras da psique e se materializou nas artes.

Além disso, em todas as suas manifestações, a dança macabra revela um estado altamente crítico da vida medieval. Revela a maneira torturante encontrada pela igreja para manifestar seu “desejo incontestável de restabelecimento da ordem, para disciplinar a sociedade” (GIMENEZ, 2011, p, 46).

Entre os homens, a possibilidade da morte sem os ritos religiosos e o consequente castigo eterno pelos pecados cometidos dilatou a reflexão sobre a antiga maneira de viver. Como dito por Georges Duby “A obra de arte maior do século XIV não é a catedral nem o palácio, mas o túmulo e suas várias manifestações” (DUBY, 1988, p. 146).

Lidava-se com duas temporalidades paradoxalmente atraentes e repulsivas. De um lado, ansiava-se por um tempo proposto e representado na própria arquitetura da igreja. Almejava-se a imutabilidade do eterno, a recompensa pela beleza da alma pura e a felicidade da santidade, apenas possíveis após a morte. Era justamente esse desejo que munia o homem de temor pela brevidade da existência humana. 

Hans Holbein
A dama nobre
Xilogravura
Fonte: The Project Gutenberg EBook of Der Totentanz

Entretanto, é também por causa da efemeridade que a vida devia ser aproveitada em toda sua extensão. Traída pela carne, a humanidade, além do paraíso futuro, gemia pelo descobrimento daquilo que era terreno, pelo prazer do presente. Assim, se o controle do desejo não se concretizava pela esperança no bem futuro, era necessário reforçar as consequências do gozo terreno. O inferno aparece, então, como uma possibilidade constante para o erro da humanidade. A morte é a memória de que a escolha equivocada tem resultados catastróficos.

Por esse motivo não é incomum encontrarmos imagens nas quais a morte, em sua forma esquelética, puxa criaturas para dançar em momentos de claro envolvimento com a felicidade terrena. A própria música é uma forma de deleite humano, e a dança, a execução do gozo em nossos corpos. Assim, há imagens nas quais homens e mulheres se defrontam com a morte enquanto exercem atividades lucrativas, como mercadores, em pleno prazer sexual, quando em casais, ou traindo a confiança divina, como monges e freiras

Hans Holbein
O vendedor ambulante
Xilogravura
Fonte: The Project Gutenberg EBook of Der Totentanz

A dança da morte revela uma crise, condição de um período de conturbação cultural, social e filosófica. Crise inerente ao ser humano, pois este é, em si, o meio termo. Não é nem Deus, nem Diabo; nem certo, nem errado; nem do céu, nem do inferno. Diante do medo da morte, revela-se a indecisão da humanidade, que deseja, ao mesmo tempo, o eterno e o efêmero.


REFERÊNCIAS

BASCHET, Jérôme. Introdução: a imagem-objeto. In: L’image. Fonctions et usages des imagens dans l’Occident médieval. Paris: Le Léopard d’Or, 1996, p. 7-26.

GIMENEZ, José Carlos. Danças Macabras: Uma crítica Social na Baixa Idade Média. Revista Brasileira de História das Religiões. ANPUH, Ano IV, n. 11, 2011. Disponível em: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/RbhrAnpuh/article/view/30398. Último acesso em: 3 de fev. de 2017.

MORREALE, Marguerita. Danza General de La Muerte. Revista de literatura medieval, 1991, n. 3, p. 9-50. Disponível em: https://ebuah.uah.es/dspace/handle/10017/5192. Último acesso em: 3 de fev. de 2017.

PEREIRA, Jacqueline da Silva Nunes. Um Estudo da Dança Macabra por Meio das Imagens. Londrina: Anais: II Encontro Nacional de Estudos da Imagem, 2009, p. 12-14. Disponível em:

http://www.uel.br/eventos/eneimagem/anais/trabalhos/pdf/Pereira,%20Jacqueline%20da%20silva.pdf. Último acesso em: 3 de fev. de 2017.

RUST, Leandro Duarte. Jacques Le Goff e as Representações do Tempo na Idade Média. Fênix – Revista de História e Estudos Culturais. Vol. 5, ano V, nº 2, 2008. Disponível em: https://www.revistafenix.pro.br/revistafenix/article/view/40. Último acesso em: 3 de fev. de 2017.


Juliana Cunha é escritora de terror, mestre em artes pelo PPGARTES / UERJ e bacharel em história da arte pela mesma universidade. Seu campo de estudo engloba as questões da subjetividade, da morte, do maligno e do sombrio em distintas manifestações artísticas

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