Crítica quinzenal Gabriel Fampa

GODZILLA: TOKYO S.O.S (parte 2: do mar, do espaço / oceano sideral)

Persistimos, acompanhamos Godzilla ainda um pouco mais. Se antes falávamos sobre essa cidade-maquete que se sustenta fragilmente sobre terra, Tokyo, hoje olhamos para cima, para imensidão e obscuridade do espaço. Hoje, vemos as estrelas como inúmeras janelas de luz de maior ou menor intensidade. Hoje, observamos constelações. Mistério.

Deitados com olhar para o abismo frente ao corpo, o brilho de uma estrela em especial nos chama atenção. Ela aparenta estar ganhando tamanho no mar sideral. Sua dimensão ganha escopo e seu brilho intensidade. É um fenômeno singular, certamente. Ao adquirir dimensão suficiente, fica claro: essa estrela não cresce, ela se movimenta; e se movimenta em nossa direção com assustadora velocidade.

Ela carrega uma estrutura escura dentro de si e tem algo de uma natureza acidentada, como um meteorito cristal; algo de natureza remota, em cujo núcleo brilha luz suave; e algo de natureza solitária, sendo sua única referência métrica ela mesma, colocando-se como sua própria e solitária medida espacial. É um astro que não integra nenhum agrupamento sideral, que não está em relação gravitacional com nada que seja semelhante a ele. Ou ainda, se faz parte de algum tipo de constelação, é, por si só, todo os elementos dela: carrega, dentro de si, uma espécie de multiplicidade expressa na irregularidade de sua forma e na capacidade de transitar como bem entende no vácuo, de se espalhar instantaneamente por onde deseja.

A estrela, afinal, não é estrela. Trata-se de um corpo vivo, orgânico, imbricado em cristais vagantes no espaço. Que belo brilho emana de seu interior, que sedutora luz amarelada a sofrer refração por entre os sólidos em suas costas. Essa estrela, de fato, não é estrela: é corpo; corpo hostil, pois destrói naves espaciais humanas que orbitam o planeta Terra; corpo marcial, pois sua agressividade é conduzida por meio de técnicas magistrais de destruição. E agora que o vemos em sua verdadeira e colossal dimensão, notamos: assemelha-se, e muito, a Godzilla, com exceção de que tem estatura superior a dele e carrega os enormes sólidos esbranquiçados nas costas, sendo portador, assim, da beleza mineral. 

Apesar das sutis diferenças, que estranha, de fato, a afinidade física entre esse corpo espacial e o de Godzilla. Essa semelhança, aliás, faz o nome: SpaceGodzilla, assim é batizado por nós, humanos, essa criatura que veio do espaço. A ciência conclui que trata-se de uma espécie de organismo imaginado pelos cosmos a partir de Godzilla: devido a batalhas e ferimentos na Terra, as células dele se desprenderam de seu corpo e flutuaram até o espaço, aonde foram engolidas por um buraco negro. Passado algum processo misterioso de radiação nessa trajetória, SpaceGodzilla teria sido expelido desse buraco como resultado quase alquímico de determinada reação. Assim se explica a semelhança, afinal: um foi criado a partir do outro.

Em termos de origem, sabemos que Godzilla, na forma como o conhecemos, foi gerado nas águas do Pacífico. A radiação do uso de armas nucleares na Segunda Guerra desencadeou a sequência de mutações que deu origem a sua condição colossal. Agora, ele emerge esporadicamente da orla de Tokyo como uma montanha se elevaria das águas em direção à terra. Quando seu corpo se mostra, parece vir no despertar de um sono profundo; é como se toda vez que irrompesse do oceano, trouxesse consigo algo de imemorial e primitivo, algo de pura força adormecida em acordar. Essa percepção de interrupção do sono milenar nos amedronta em particular, afinal, sabemos que há uma perturbação implícita em todo despertar. Tememos, ainda, sua aparência e sua estatura como a continuidade da imensidão marítima. Só nos cabe imaginar o poder de sua força e o peso de seus punhos como extensão da potência e do vigor das ondas que rompem rochedos e pedregulhos de massa inapreensível.

SpaceGodzilla nos é apresentado em uma relação de espelhamento com Godzilla. Um é feito a partir da imagem do outro. Por imagem, referimo-nos não apenas à equivalência fisionômica: são semelhantes em aparência, mas também em gênese. Ambos têm origem e acordam de um tipo específico de desconhecido: do mar e do espaço sideral. E se há relação de espalhamento entre as duas criaturas, por indução, compreendemos que a infinidade espacial é permeada pelo mesmo tipo de relação com a vastidão marítima: um espelha algo do outro. Esse algo seria, justamente, a particularidade do desconhecido desses ambientes: aquele pertencente às regiões abissais. Esse termo, abissal, não tem aqui apenas o sentido do profundo, mas, também, do longínquo, do insabido, do hostil, do obscuro, do estranho, do oculto e do amedrontador. Abissal é, afinal, a impossibilidade da dimensão precisa e da pontuação geográfica por nós, cujo breu é (e , historicamente, tem sido) a silhueta do pesadelo e o atiçador da imaginação humana. O espaço, parece-nos, reflete o enigma do mar e vice-versa; há uma relação íntima entre a densidade invisível do primeiro e o vazio exposto do segundo.

Esse enigma é permeado por certo anonimato em constante devir, estampado na superfície azul ondulada e no oco preto estrelado. Ou, talvez, seja permeado por um tipo de identidade homogênea e inexpressiviade angustiante daquilo cuja escala escapa aos limites da visão e da compreensão. Essa mesma inexpressividade está nos olhos dos monstros. Cruzar os olhos com os de Godzilla nos traz como retorno uma monumentalidade intransponível. Olhar o mar e o espaço é ansiar, em um misto de desejo e aversão, para que algo saia lá de dentro, das profundezas, ao nosso encontro. Godzilla e SpaceGodzilla vêm como respostas a esses anseios, como retorno constante da nossa atração com a ideia da destruição. O medo que eles despertam é intensificado por tocar e responder à íntima pulsão pela vivência do pesadelo. 

SpaceGodzilla, retornando às similaridades, não é uma cópia material impecável de Godzilla. O que diz isso sobre a condição de reflexividade entre os dois? Seria SpaceGodzilla uma imagem imperfeita, o ofício falho da transcrição? O mais notável ponto de diferenciação entre esses dois seres são os cristais nas costas daquele que vêm do espaço. Em vez do que negar o duplo, porém, esses minerais reafirmam a cópia: ao rejeitar a réplica material perfeita, faz-se paridade com o que faz Godzilla quem é: o peso de sua origem; as marcas da profundeza específica em seu corpo. Os minerais são o elemento do desconhecido particular de SpaceGodzilla, aquilo que evoca sua singularidade embrionária. Assim como Godzilla nos ameaça como uma extensão do vigor do mar, SapceGodzilla nos apavora como o prolongamento do inóspito no espaço.

A diferença na semelhança e a semelhança na diferença são, assim, os mais potentes pontos convergência e tensionamento entre esses dois. É tão presente esse atrito (o corpo semelhante atravessados pelos detalhes dessemelhantes) que quase se faz como justificativa autossuficiente para o desencadeamento do desejo de conflito entre os dois.

O que ocorre, aliás, quando dois seres, um feito à imagem do outro, coexistem em um mesmo tempo? Competem pelo mesmo objetivo. Do mar, do espaço, esses dois Godzillas se encontram na cidade leve, Tokyo, por desejo de dominação e proclamação de territorialidade. Assim nos parece: a batalha entre os dois chega como uma disputa por soberania. E por que Tokyo? Porque é, justamente, uma cidade leve*; a capital sobre a qual se pode pisar e fazer dos prédios de brinquedo destroços soprados.

Caberiam ainda outras pontuações, como notar a solidão de Godzilla como espécie única no mundo e como isso afeta o reconhecimento, pela primeira vez, de outro ser semelhante a ele. Seria interessante refletir também em SpaceGodzilla como uma espécie de outro eu da criatura terrestre, tangenciando na batalha entre os dois uma luta contra si mesmo. A ideia de SpaceGodzilla como sócia, ou ainda imitação ou falsificação de Godzilla, ainda, seria atraente. Deixaremos, talvez, essas indagações como exercícios de imaginação para oportunidade futura.

*GODZILLA: TOKYO S.O.S (parte 1: cidade leve)


FAMPA

Gabriel Fampa é graduado em Ciências Sociais pelo IFCS e mestre em Linguagens Visuais pela Escola de Belas Artes (UFRJ), tendo integrado o programa de formação Práticas Artísticas Contemporâneas da EAV / Parque Lage. Vive e produz no Rio de Janeiro.

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