Clara Machado Crítica quinzenal

Invisível / Imaterial – Anaïs Karenin

Não consigo começar esse texto sem dizer que a Anaïs Karenin habita o ponto mais distante da Terra até onde se estende o meu amor. Esse é um texto de saudade.

silêncio

Como nos ensina a tradição das pinturas japonesas, os vazios falam. Anaïs fala com os vazios. Para ouvir esse diálogo é preciso ouvir os silêncios, as pausas que se instauram entre os elementos de seus objetos e instalações, o branco que se coloca nos interstícios das coisas. Talvez por isso estar diante de seus trabalhos seja um pouco como uma experiência mística, como adentrar um templo sagrado e vazio. Como adentrar as ruínas de um templo, onde o tempo é o deus que opera seus desígnios.

Esse templo não tem paredes. É como se a ruína fosse tomada pelas plantas, e afinal são elas as paredes, o teto, o chão. Não há dentro nem fora, o espaço é um campo de força cuja fronteira é invisível, só se sabe quando já se está lá, quando o próprio corpo já se tornou também planta, parte da paisagem.

Plantas pendem do teto, se enroscam em pedras, penetram vidros. Musgos brotam de superfícies brancas enrugadas, visíveis apenas pelas sombras que suas dobras produzem sobre si mesmas. A luz se intensifica e se desmaterializa na brancura, criando uma espécie de halo que emana no espaço. Invisível / Imaterial, Anaïs opera (no sentido da opus alquímica) com a luz.

E faz ouro.

Pequenos elementos tingem dessa outra luz o espaço, luz dourada e líquida, guardada em recipientes de vidro, também eles pontos de luz.

Em um canto, duas estruturas feitas de galhos presos por uma única amarração e equilibrados sobre si mesmos. Equilibrados na iminência do desequilíbrio, mantendo suspenso o espaço (aquele campo de força) em seu entorno. Uma delas é branca, parece desaparecer, sua existência é um espectro que nega seu contorno, o olho duvida. A outra, dourada, se apresenta delicadamente no espaço na forma de um precário abrigo (sem paredes, só vazios).

Também o Japão nos ensina do ouro que preenche as frestas quebradas das cerâmicas, recompondo-as de modo a deixar marcadas suas cicatrizes douradas. Anaïs parece assim marcar cicatrizes no espaço, invertendo a lógica dos vazios. Pois o ouro nesse caso preenche as frestas quebradas entre o nada e o nada.

Os musgos seguem silenciosos. Só há fissura. 

Texto a partir da exposição Invisible / Immaterial.


Clara Machado
Rio de Janeiro, 1994 . Artista visual e poeta. Mestranda em Processos Artísticos Contemporâneos pelo PPGARTES-UERJ, graduada em Artes Visuais pela UERJ. Realizou intercâmbio no curso de Artes Visuais da Universidade IUAV de Veneza, Itália. Em 2019 participou do curso de acompanhamento Imersões Poéticas, da Escola Sem Sítio. Realizou diversos cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e participou de exposições nacionais e internacionais. Autora do livro Ferrugem, editora Urutau.
Sua pesquisa artística e teórica gira em torno dos vestígios e do corpo, atravessada por questões como a morte, a memória e o erotismo

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