Crítica quinzenal Juliana Cunha

MARY WIGMAN E O PACTO FÁUSTICO

Fotógrafo desconhecido
Mary Wigman. Pose de “Hexentanz II”
Fonte: People are dancing here

O pacto fáustico ou pacto com o diabo sempre capturou minha atenção. A ideia de que alguém pudesse desejar algo a tal ponto que considerasse negociar a própria alma é, para mim, espantoso, terrível e avassalador. Dessa maneira, não pude negar a curiosidade ao conhecer o trabalho da dançarina Mary Wigman (1886-1973), chamada por Roger Garaudy de “dançarina faustiana”. Em uma citação do próprio filósofo, ela teria dito que “vendeu sua alma à dança” (GARAUDY, 1980, p, 111).

A partir dessa declaração podemos vislumbra o estado profundamente fabulatório da persona assumida e vivenciada por ela, que é considerada fundadora do expressionismo nessa categoria artística. Por acreditar que sem êxtase não existe dança, abriu o corpo para ser tomado pelo seu mundo interior, uniu-se ao caos e liberou-se para experimentá-lo no último nível.

Seus trabalhos, geralmente sombrios, evocam o contexto mórbido no qual mais produziu, entre as duas grandes guerras. Naquele período, a Alemanha vivia uma intensa destruição física e moral da sociedade, um momento de tensão, caos e visão trágica da vida. Essa sensação é palpável em todo o expressionismo alemão, sobretudo na literatura e nas produções cinematográficas.

Essa atmosfera influenciou de maneira profunda Mary Wigman. Como outros artistas, ela creditou a degradação física, moral e espiritual ao avanço da modernização. Isso porque era comum o entendimento de que a política expansionista e o crescimento urbano descontrolado haviam alimentado a primeira guerra mundial.

 Contra o burguês, a cidade e a industrialização, Wigman buscou, no povo, elementos que seriam originários da humanidade. Voltou-se para a bruxa, figura comum no folclore alemão, e assumiu essa personalidade. Sua vida foi penetrada pela carga elétrica da guerra, da morte e da destruição, e seu entendimento de um mundo deturpado a instigou a explorar o grotesco, gótico e demoníaco. Assim nasceu Hexentantz II ou em português, a Dança da Feiticeira II, de 1926.

Fotógrafo desconhecido.
Mary Wigman. Poses de Hexentanz.
Collectionthe Bundesarchiv-Filmarchiv, Berlin. 1926.

Trata-se do incomum e mais conhecido solo de Mary Wigman. Na coreografia apresentada, acompanhamos o vagaroso, maldoso e sedutor feitiço conjurado por aquela que faz, a nossa frente, contato com o além. Nessa amedrontadora performance, que têm alguns fragmentos disponíveis no youtube, somos encaminhados a uma explosão de brutalidade e loucura contidas no movimento de uma bruxa realizando um ritual. Ali encontramos o humano entregue ao caos, envolvido com a feitiçaria de expressar toda a dor e terror vividos.  

Vemos também inovações características da dança moderna. Boa parte do tempo a dançarina está sentada no chão e utiliza de movimentos grotescos. Trabalha com longas pausas e não calça sapatilhas ou veste roupas tradicionais de balé. Incorpora não só gestos do cotidiano, mas o improviso, sendo ele uma abertura para a fala da emoção. Além disso, inverte a subordinação da dança à música, sendo os tambores que acompanham seu movimento, e não o contrário.

A dança de Mary Wigman é o resultado de uma vida que performa um pacto com a morte. Seu trabalho introduziu na dança europeia a possibilidade de ser e executar uma expressividade física e mentalmente violenta. Onde antes havia apenas o balé gracioso e perfeitamente técnico, passou-se a ver um corpo que mal saia do chão.

Era de seu interesse unir vida e obra, “mover-se transformando emoção interna invisível em movimento corporal visível”, como afirmou no livro “The Mary Wigman Book: Her Writings”, de 1984. Ela assumiu e viveu intensamente a dança, pois, vendida sua alma, era uma sacerdotisa do movimento. Por esse motivo, percebemos que não havia a possibilidade da dançarina simplesmente executar suas coreografias. Aquela brutalidade, o medo, a loucura e o desejo, tudo, exigia uma vida composta de tais emoções, devocionada ao propósito de ser a personificação do caos.


REFERÊNCIAS

BEHR, Shulamith. Expressionismo. São Paulo: Cosac & Naify Edições, 2001.

BORRIAUD, Nicolas. Formas de vida: a arte moderna e a invenção de si. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2011.

CARDINAL, Roger. O Expressionismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1984.

EADS, Heidi Christine. Aspects of mask in the work of Emil Nolde and Mary Wigman. 1988. 115p. Dissertação (Mestrado em Artes) – The Ohio State University: Ohio, 1988. Disponível em: < https://etd.ohiolink.edu/!etd.send_file?accession=osu1140639496&disposition=inline>. Acesso em: 30 jan. 2017

GARAUDY, Roger. Mary Wigman, dançarina faustiana. Rudolf Von Laban e a lógica do movimento. In: Dançar a Vida. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1980. P. 104 – 121.

GIL, José. Movimento Total: O Corpo e a Dança. São Paulo: Editora Iluminuras, 2001.

SONG, Jiyun.Mary Wigman and German Modern Dance: A Modernist Witch?. In: Forum for Modern Language Studies,  Oxford University Press, v. 43, n. 4, 2007. Disponível em: <http://fmls.oxfordjournals.org/content/43/4/427.abstract>. Acesso em: 20 set. 2013.

MOOIMAN, Marieke. Mary Wigman, Hexentantz. Youtube (2’16’’). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=AtLSSuFlJ5c>. Acesso em: 18 abr. 2021.


Juliana Cunha é escritora de terror, mestre em artes pelo PPGARTES / UERJ e bacharel em história da arte pela mesma universidade. Seu campo de estudo engloba as questões da subjetividade, da morte, do maligno e do sombrio em distintas manifestações artísticas

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