Clara Machado Crítica quinzenal

máquina inútil coração (sobre Érica Magalhães)

Em sua obra, Érica Magalhães explora a materialidade brutal do concreto armado em contraste com a delicadeza frágil de objetos de porcelana. Por vezes inverte a lógica do equilíbrio, sustentando blocos de concreto sobre pratos ou xícaras; por vezes faz sair esses objetos da matéria desgastada do concreto, como numa estranha escavação arqueológica. Abre a estrutura, o esqueleto, a fundação, para encontrar cravada em seu cerne a fragilidade.

O concreto armado que ergue e sustenta construções é também aquilo que resta do edifício destroçado, os ossos da casa. No campo da construção civil, o termo esqueleto é usado para nomear a estrutura de um edifício. Paira nos objetos de concreto um corpo, que é ao mesmo tempo residual e inaugural, em constante trabalho. Trabalho de ruína e de construção. Érica constrói ruínas. Nos apresenta esses cacos, fragmentos em precário equilíbrio, que de algum modo permanecem de pé. Refunda a fundação, reescreve a estrutura, na metáfora corpo-casa desmonta a casa para montá-la onde ela é rachada, a rachadura é a fundação. 

Sem título, 2020. Concreto, vergalhões e pires de porcelana / Big clac, 2020. Concreto e xícara de porcelana.

Em Sem título, 2018, um bloco de concreto de estatura humana com vergalhões de metal que despontam de seu interior apontando para cima. Aqui já não vemos os objetos de porcelana, mas um corpo diante do nosso corpo. A dimensão do trabalho convoca o observador a uma relação de identidade: o concreto é carne, os vergalhões são ossos, as entranhas da casa são as entranhas do corpo. No centro desse corpo, um buraco. Dentro do buraco há uma caixa revestida de veludo vermelho iluminada por duas lâmpadas e um motor que trabalha incessantemente, reverberando o sutil movimento por toda a estrutura. Esse corpo vibra.

Érica abre uma ferida na estrutura. A luz parece sangrar pelo buraco e tinge o motor de vermelho, máquina inútil tal qual o coração num esqueleto. O motor não tem outra função que não o pulsar. Nessa operação, materiais inorgânicos e duros ganham vísceras, o movimento do motor introduz na estrutura seca algo de orgânico, o anúncio do desequilíbrio. A fundação treme.

Mas a queda não chega, o corpo/ruína permanece de pé.  

Sem título, 2018. concreto, vergalhões, madeira, motor de massageador, lâmpada, veludo, fibra de vidro e fio de cobre

Clara Machado
Rio de Janeiro, 1994 . Artista visual e poeta. Mestranda em Processos Artísticos Contemporâneos pelo PPGARTES-UERJ, graduada em Artes Visuais pela UERJ. Realizou intercâmbio no curso de Artes Visuais da Universidade IUAV de Veneza, Itália. Em 2019 participou do curso de acompanhamento Imersões Poéticas, da Escola Sem Sítio. Realizou diversos cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e participou de exposições nacionais e internacionais. Autora do livro Ferrugem, editora Urutau.
Sua pesquisa artística e teórica gira em torno dos vestígios e do corpo, atravessada por questões como a morte, a memória e o erotismo

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