Crítica quinzenal Juliana Cunha

A MODERNIDADE NO SONHO DE MAX KLINGER

Max Klinger
Action [plate II from A Glove], 1881.
Gravura em Chine-collé, 45 x 63 cm.
Fonte: MoMA.

Apesar de hoje não ser tão reconhecido, Max Klinger (1857-1920) marcou seu tempo ao introduzir elementos simbólicos, sexuais e oníricos em sua produção. Sua obra serviu de inspiração para os jovens da Secessão de Viena (1897-1920), mestres expressionistas, como Käthe Kollwitz (1867-1945), e surrealistas, como Giorgio de Chirico (1888-1978). Além disso, para muitos teóricos, seu trabalho é encarado como uma antecipação de questões desenvolvidas por Sigmund Freud, que só publicou A Interpretação dos Sonhos em 1900.

Dentre suas contribuições para história da arte, trataremos hoje da série Paraphrase on the Finding of a Glove, datada de 1881. Foi o primeiro trabalho que expôs, tendo apenas 21 anos de idade na época. Sucesso imediato em Berlim, a série contou com cinco impressões ao longo de todo o século XIX.

Paraphrase on the Finding of a Glove é um conjunto de dez gravuras baseadas em uma curiosa experiência. Após encontrar uma luva feminina em uma pista de patinação, cena que retrata em Action, o artista sonha com a vida dessa peça, único resquício da mulher amada. Por isso, nessa série, conta a história fantasiosa de seus encontros e desencontros com tal objeto. A luva paira como símbolo sexual, e envolve a obra em uma tensão erótica e psicológica.

Tendo como base um sonho, as dez gravuras tratam de momentos distintos, sem conexão lógica ou sentido explícito – como os sonhos, de fato, são. O universo onírico libera o artista para uma experiência que tenciona realidade e fantasia. Em uma mesma série, encontramos a mistura de elementos da vida real, como o próprio artista e a luva, e elementos inexistentes, como uma ave mística e as aventuras da peça feminina.
 A simbiose entre a dureza da realidade e a mística do sonho também se dá na concretude da imagem. Em Action, por exemplo, há um jogo entre movimento (que é próprio da pista de patinação) e imobilidade (com a qual o artista traça a cena). Afinal, é na ação imaginada pelo espectador que se completa e desenrola toda a ação. As diagonais retas e rígidas realizam a inclinação necessária à patinação, mas apenas sugerem a ação em si, e não possuem a preocupação de demonstrá-la ou representá-la.

Max Klinger
The Abduction [plate IX from A Glove], 1881.
Gravura em Chine-collé, 44,9 x 63,2 cm.
Fonte: Cleveland Museum of Art.

Em outros trabalhos da mesma série, como em The Abduction, a fantasia é completamente liberada, e um ser monstruoso passa a compor a série narrativa. Contudo, nesta gravura, com uma temática mais fantasiosa, Klinger faz o oposto do que propôs em Action, e constrói a cena seguindo princípios representativos que emulam a realidade. Ao perder a luva, que é levada por uma ave grande e imponente, o artista, na tentativa de recuperá-la, toma uma atitude impulsiva e agressiva. Quebra a janela com seus próprios braços, cortando-os em pleno desespero.

Apesar da inovadora tensão proposta por Klinger, ainda é possível ler seu trabalho dentro da perspectiva do simbolismo. O próprio universo místico, sombrio e sentimental, girando em torno de uma figura feminina, é comum em muitos trabalhos vinculados a esse movimento.

Max Klinger
The Rescue [plate IV from A Glove], 1881
Gravura em Chine-collé, 46,5 x 66 cm.
Fonte: Metropolitan Museum

Contudo, o artista inaugura uma tensão, no simbolismo, que pressiona sonho e realidade de tal maneira que eles se fundem. O universo onírico – e as questões da psique – partem e voltam para a vida real. É como em The Rescue, quando o artista registra a perda da luva (símbolo do prazer) no mar (do inconsciente). Max Klinger, em 1881, trouxe uma subjetividade mais distanciada do simbolismo e mais aproximada da realidade psíquica explorada nas primeiras investigações modernas.

Quanto a isso, vale lembrar que os grandes trabalhos e conquistas poéticas de artistas como Vincent Van Gogh (1853-1890) e Edvard Munch (1863-1944), considerados precursores da arte moderna, se deram cerca de seis a sete anos após Klinger. Seria o caso, por exemplo, de Puberdade (1894/5) e O grito (1893) de Munch, e A noite estrelada (1889), Os Girassóis (1888) de Van Gogh.


REFERÊNCIAS

MORTON, Marsha. Max Klinger and the Umheimlich returno of the Biedermeier Past. Academia.Edu: Publicado em “Edvard Munch und das Unheimliche”, Vienna: Leopold Museum, 2009. P. 1-19. Disponível em: https://www.academia.edu/14262629/_Max_Klinger_and_the_Unheimlich_Return_of_the_Biedermeier_Past_

NÉRET, Gilles. O Simbolismo. Colônia: Taschen, 2006.

SALSBURY, Britany. The Graphic Art of Max Klinger. Nova Iorque: The Metropolitan Museum of Art, 2016. Disponível em: http://www.metmuseum.org/toah/hd/maxk/hd_maxk.htm


Juliana Cunha é escritora de terror, mestre em artes pelo PPGARTES / UERJ e bacharel em história da arte pela mesma universidade. Seu campo de estudo engloba as questões da subjetividade, da morte, do maligno e do sombrio em distintas manifestações artísticas

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