Crítica quinzenal Gabriel Fampa

KING KONG (parte 1: letalidade, modernidade)

Rumores de uma ilha não mapeada na carta náutica mostraram-se verdadeiros. Uma equipe liderada por um cineasta cobiçoso, Carl Denham, desembarca na remota Ilha da Caveira após semanas em alto-mar a sua procura. Boatos indicam que ali convivem criaturas jamais vistas por aqueles que vêm de fora da região. Denham deseja filmá-las e apresentá-las nos circuitos globais de cinema. Ao desembarcar, sua equipe penetra a selva tropical e se depara com nativos da ilha. Os dois grupos se encaram. Na troca de olhares, irradia-se tensão.

Estamos assistindo King Kong, filme estadunidense de 1933, e não nos requer muita atenção para já aqui, em meio à apreensão que se arma, perceber os indícios de pura caricatura desse universo propriamente fictício. Notamos, também, toda simbologia dicotômica e conspirante que faz brotar da terra e do ar uma típica intenção letal. Nessa troca de olhares, relações se invertem e se confundem fatalmente. Enquanto testemunhas oculares dessa disputa de presença (e, implicitamente, de força e soberania), somos induzidos, como espectadores enquadrados, a identificar os aparatos de cada grupo, dos quais destacamos ornamentos, lanças e escudos de um lado e vestimentas, rifles e câmera cinematográfica de outro. A violência, a agressividade e o incidente estão implícitos no primeiro artesanal, enquanto no segundo industrial residem a compostura, elegância e a estabilidade no tripé da tecnologia. Plano contra plano, essa oposição marcial procurará sempre se firmar.

A equipe de Denham vem a descobrir que na ilha em que desembarcaram habita King Kong, um gorila gigantesco, em meio a outras criaturas que impressionam todos os seus integrantes. Todos esses animais vivem – aos olhos dos forasteiros liderados pelo cineasta – em pleno estado de natureza, confrontando-se constantemente em meio ao sigilo da mata tropical. Cenas de embate (e as criaturas em si) têm algo de uma crueldade atormentadora e de uma violência sinistra; imagens testemunhadas pelos norte-americanos penetram seus olhos como relances de um pesadelo atroz e doentio. Lá, são presas fáceis: a morte de mais de uma dezena de membros da equipe náutica parece insignificante na dinâmica habitual da Ilha da Caveira.

Em relação à geografia da ilha, Kong – que vem do âmago da selva, de seu coração encoberto por densa folhagem, de suas veias formadas por complexo sistema de cavernas úmidas – chega-nos como uma expressão mesma dessa floresta. Ou ainda, o gorila é a exclamação de uma natureza que supostamente nos é estranha, que carrega consigo algo de violento e imprevisível. Kong vem de uma interioridade, de um lugar sem precisão geográfica, como um braço da natureza que desponta e cuja força seria sempre latente, imponderável, perigosa e irracional. Não basta, entretanto, que esse gorila enorme fosse um animal selvagem já catalogado, ele é, e precisa ser, uma monstruosidade que tange ao imensurável, o próprio imaginário do terror vindo de encontro com a vida. Ele não apenas vem do crepúsculo indecifrável da flora, ele é a própria sombra em carne e densidade que chega para derramar sua força destrutiva característica dos fenômenos da natureza. Kong é percebido por Denham e sua equipe como a brutalidade em si de um mundo selvagem.

Após a invasão dos marinheiros aos domínios de Kong, a criatura pisoteia e destroça a população nativa da ilha e diversos membros da equipe náutica até finalmente ser exaurido e capturado com uso de bombas de gás trazidas pela tripulação. Denham, abdicando do plano de registrar Kong em película, decide levá-lo por inteiro a Nova York. No salão onde seria exibido o filme sobre as criaturas da Ilha da Caveira, arma-se um espetáculo para expor o próprio gorila acorrentado e domado.

Os ingressos dessa exibição são vendidos a preços exorbitantes e a casa na Broadway fica lotada. No discurso de abertura, no qual o cineasta é ovacionado como um desbravador heroico, Denham salienta que Kong era um deus onde vivia, mas que chega à civilização como mero prisioneiro, como um show para gratificar a curiosidade dos espectadores. Ele enfatiza ao público, diante de cortinas vermelhas prestes a revelar Kong, que ver é acreditar.

Apesar do termo modernidade não ser dito explicitamente em King Kong, ele tem uma relação de parentesco muito próxima com a ideia de civilização enunciada por Denham. A construção letal da dicotomia é tática de guerra, já enunciada pela câmera de cinema em oposição às lanças dos nativos: o sentido da modernidade só sobrevive contanto haja um outro primitivo sobre o qual pode-se prosperar enquanto ápice de um destino evolutivo e etnocentrista que se supõe homogêneo para toda humanidade. Ver é acreditar incorpora como fundamento a lógica do espetáculo que sustenta essa modernidade. Acreditar, aqui, não tem como sentido o acesso à verdade, mas sim o acesso a uma verdade, a um complexo de imagens-verdade, a um conjunto, finalmente, de estímulos incessantes que ampliam o campo das possibilidades da modernidade enquanto sistema de incorporação total e mercantilização dessa totalidade.

Ao se libertar inesperadamente das correntes que o prendem, Kong causa pânico nos espectadores. O gorila caminha em rota de destruição pela cidade perseguido por uma  distribuição tática policial. É, afinal, uma monstruosidade. É curioso notar quais os alvos que Kong encontra em sua trajetória labiríntica e fugidia, dentre os quais está o metrô, o sistema de transporte dinâmico das massas no mundo industrializado. A criatura destrói os trilhos suspensos e um dos trens desaba sobre uma avenida movimentada por carros. Estabelece-se o caos urbano.

Kong está cada vez mais cercado de imagens, sons, multidões, carros, prédios e sirenes policiais; ou seja, cercado cada vez mais pelo próprio espetáculo dessa modernidade. Escala, por fim, o Empire State Building, o edifício mais alto do mundo na época, onde se encontra fatalmente encurralado. Kong será abatido. E em cima do monumento ao Império, recém-inaugurado, é fuzilado pela máquina mais impressionante controlada pelos humanos – a aeronave bélica –, caindo do topo da construção como um corpo moribundo, lesionado, a morrer no impacto estrondoso com o chão.

As palavras de Denham reverberam como verdade do corpo animal estirado: Kong era um deus e uma besta outrora incontrolável, mas nessa cidade é apenas um espetáculo de tempo limitado. E o que não pode ser incorporado nessa modernidade, seja como parte dela, seja como espetáculo permanente, precisa ser eliminado e apagado, declarando-se a soberania do processo civilizatório sobre tudo aquilo que é (ou remete ao) primitivo. A trama trabalha para fazer de Kong a própria primitividade, não somente aquela que habita a natureza longínqua, mas aquela que ameaça emergir das sombras da própria interioridade humana.

A derrota de Kong é a confirmação da suplantação dos vestígios daquilo que é inapropriado à lógica absoluta do progresso, na qual a natureza é um estado, uma condição a ser ultrapassada junto com qualquer modelo de humanidade que não se fundamenta no desenvolvimento tecnoindustrial. É a confirmação também de que a sombra do primitivo não é permanente e já não mais projeta ameaça real à índole humana civilizada. A euforia do público ao ver Kong na casa de show, subjugado ao espetáculo, é, afinal, o ânimo de testemunhar o primitivo como patético, longínquo e dominado. Esse primitivo, no contexto de King Kong, é um agrupamento letal que equaliza a natureza selvagem, a ancestralidade, o rito, o artesanal, o outro, o remoto, o atrasado, o obsoleto e o não funcional em um mesmo amálgama maquinal, cuja função é a manutenção de um sistema de homogeneização dos diferentes tempos históricos em um mesmo presente totalitário e industrial.


FAMPA

Gabriel Fampa é artista e pesquisador, doutorando na linha Arte, Imagem e Escrita pelo PPGArtes – UERJ, mestre na linha Linguagens Visuais pela EBA – UFRJ e graduado em Ciências Sociais pelo IFCS – UFRJ. Na sua formação complementar, destaca o programa de formação Práticas Artísticas Contemporâneas da EAV / Parque Lage. Atualmente, vive e produz no Rio de Janeiro.

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