Clara Machado Crítica quinzenal

Cinderela

A obra Cinderela, 1997, de Rosana Palazyan, é composta por um travesseiro de cetim bordado, ligeiramente sujo e manchado de sangue. As figuras, bordadas com linha branca sobre o cetim branco, são imagens construídas com delicadeza, no limite da invisibilidade, o que nos chama a olhar de perto.

Uma aura de inocência se instaura pela convocação do universo infantil no título do trabalho. Do mesmo modo, um feminino historicamente docilizado e vinculado ao espaço da casa é evocado pela prática do bordado, enquanto o travesseiro ativa uma espécie de inocência ou de docilidade ligada à intimidade do quarto, espaço da proteção por excelência. Tudo é muito delicado. Trata-se de uma fala do mínimo, do silêncio. A artista nos convida, assim, a olhar mais de perto, tornando-nos vulneráveis nesse movimento.

Diante desse olhar aproximado, desarmado, deparamo-nos com cenas misturadas de contos de fada e imagens ligadas à morte, todas tratadas pela artista do mesmo modo, sendo assim colocadas no mesmo plano como frames de uma mesma história. 

No limite quase invisível do branco sobre branco, violência e docilidade se contaminam. Cinderela é a princesa de conto-de-fada, é a mulher dopada, “boa noite, Cinderela”, o travesseiro marcado de sangue. A pequena mancha se destaca sobre o tecido branco e macio, maculando o universo docilizado com uma sujeira líquida, indício de ruptura no corpo.

O travesseiro sujo de sangue parece uma “prova”, evidência de qualquer coisa que não se sabe o quê. O que permanece é um rastro, um vestígio dessa violação. Rosana coleta narrativas de crianças que são atravessadas das mais diversas maneiras pela violência, e nos torna testemunhas de fragmentos dessas histórias. Jogando com o contato entre dois polos contrastantes que se contaminam, a dimensão delicada e silenciosa de seu trabalho nos envolve a ponto de vulnerabilizar-nos para, então, atingir-nos com a dureza de sua dimensão política.


Clara Machado
Rio de Janeiro, 1994 . Artista visual e poeta. Mestranda em Processos Artísticos Contemporâneos pelo PPGARTES-UERJ, graduada em Artes Visuais pela UERJ. Realizou intercâmbio no curso de Artes Visuais da Universidade IUAV de Veneza, Itália. Em 2019 participou do curso de acompanhamento Imersões Poéticas, da Escola Sem Sítio. Realizou diversos cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e participou de exposições nacionais e internacionais. Autora do livro Ferrugem, editora Urutau.
Sua pesquisa artística e teórica gira em torno dos vestígios e do corpo, atravessada por questões como a morte, a memória e o erotismo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: