Crítica quinzenal Juliana Cunha

A REALIDADE É UM PESADELO

Francisco Goya
O sono da razão produz monstros, 1799.
Gravura em metal, 21,3 cm x 15,1 cm.
Museu do Prado, Madrid.
Fonte: Artout

As cidades de Goya estão povoadas de bruxas, animais obscuros e seres sombrios que ali provocam uma reflexão sobre o mundo e sobre o ser humano. Eles personificam os tormentos da vida e trazem à tona os terrores escondidos na realidade, apresentando a face mais própria à sua monstruosidade.

O sonho, a loucura e a fantasia foram os meios pelos quais o artista lidou com as questões de seu tempo, que em muito combinam com o nosso. Sua obra era repleta de críticas à estrutura da sociedade, que beneficiava aos nobres enquanto o povo vivia em miséria; à religião, revelando a corrupção na igreja; e à guerra e seus horrores subsequentes.

Dentro de sua vasta produção, nos voltaremos hoje para a gravura O sonho da razão produz monstros, parte da série dos Caprichos. Nela, uma pessoa é tomada pela poderosa força do sono e recai sobre sua mesa de trabalho. Sua cabeça, receptáculo da mente e lugar da razão, está perdida entre os braços. Agora que a ciência dormiu e enfrenta uma pequena morte, seres monstruosos ganham vida e invadem o mundo.

Os animais que cercam o personagem são, em geral, de hábitos noturnos. O que faz sentido dentro da produção de Goya, um artista que se aproximou do iluminismo e da ideia de que a razão é uma luz capaz de dissipar toda escuridão. Entre esses animais, vemos uma das corujas roubando uma caneta do personagem, retirando-lhe o objeto de trabalho. Tal animal tem como característica a capacidade de ver através da escuridão, e talvez por esse conhecimento oportuno destaca-se e enxerga no desmanche da razão uma oportunidade.

Além da coruja, outros animais revelam o mal na cena: o gato preto, que repousa sobre o personagem, evoca a bruxaria a qual é comumente vinculado. Os morcegos, alguns com cabeça de bode e chifre, voam em direção ao personagem adormecido, e são relacionadas aos vampiros e aos demônios da noite. Quando a razão dorme, são os seres das trevas que compõem a cena sombria do mundo dominado pela irracionalidade e pela fantasia. 

O animal mais distinto é o lince, o único ser que toca o chão – a concretude do mundo real. Conhecido por seus olhos refletores, que emitem uma luminescência brilhante, ele observa o personagem adormecido e, aparentemente, é seu único aliado. A expressão “olhos de lince” revela como esse animal é conhecido na cultura popular, que lhe atribui uma visão certeira, capaz de penetrar na escuridão, ver a alma das coisas e revelar a verdade.

Ali, em meio àqueles seres sombrios, é a única criatura que apresenta certa ferocidade, apesar de estar parado, observando atentamente o personagem adormecido, talvez na espera de um comando. Possui uma visão que a ciência precisa ter, atenta e esperta para agir mesmo em meio à escuridão. É necessário que o personagem reencontre o olhar do lince, desperte feroz em uma revolta, e vença o pesadelo que se estabeleceu na realidade.

Há certa ironia em olhar para essa obra em 2021. Na realidade brasileira, enquanto as universidades públicas correm o risco de serem fechadas por falta de investimento, de caírem em sono profundo, alastra-se o movimento antivacina, a crença na terra plana, o descrédito no aquecimento global e uma ampla negação ao conhecimento científico.

O sono da razão produz monstros.


REFERÊNCIAS
BARBOSA, Ana Letícia V.B. A Espanha vista pro Goya. Monografia (Graduação em História) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná. Curtiba, 1999. Disponível em: https://acervodigital.ufpr.br/bitstream/handle/1884/45209/ana_leticia_barbosa.pdf?sequence=1&isAllowed=y
FIANCO, Francisco. Goya e a melancolia: Prenúncios da decepção com o Iluminismo. Art & Sensorium, v.4, n.2, 2017. P. 159-170. Disponível em: http://periodicos.unespar.edu.br/index.php/sensorium/article/view/1880
GOMES, Aline F.; PETTY, Luiz F. Luz e razão. A sede de Goya. Em: https://www.ifch.unicamp.br/eha/chaa/PDFTrabs/MI-Osonodarazao.pdf


Juliana Cunha é escritora de terror, mestre em artes pelo PPGARTES / UERJ e bacharel em história da arte pela mesma universidade. Seu campo de estudo engloba as questões da subjetividade, da morte, do maligno e do sombrio em distintas manifestações artísticas

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