Crítica quinzenal Juliana Cunha

AS MÃES NA OBRA DE KÄTHE KOLLWITZ

Käthe Kollwitz
A viúva II da Guerra, 1922
Xilogravura, 30 x 53 cm
Fonte: MoMA

A maternidade é um estado possível na vida da mulher e que ao longo da história esteve a serviço dos mais distintos discursos. Entendida, por muito tempo, como a função maior do corpo feminino, foi e é símbolo de debates complexos sobre subjetividade e alteridade.

Na obra de Käthe Kollwitz, desenvolvida entre o final do século XIX e parte do século XX, foi tema presente mesmo quando não era o foco da produção, como em A viúva II da Guerra. Nela, a mulher caída desgraçadamente no chão, por conta da notícia de morte do marido, carrega o filho nos braços, deitado sobre seu corpo.

 Por vezes descaracterizando a mulher como indivíduo com desejos, interesses e prazeres próprios, é comum que se encontre na figura da mãe, e não do pai, certa subserviência aos propósitos e bem-estar do filho. Como exemplo, ressaltamos que foi para melhor desenvolvimento da criança que se permitiu às mulheres o acesso à educação.

A essa função, para a qual erros não são permitidos, vemos atuar uma idealização complexa. Quanto à infância, dá forma a uma imagem doce, bela, carinhosa, santa e de cuidado absoluto em relação ao bebê. Quando a criança já é crescida, reproduz a ideia de sacrifício irrestrito e amor incondicional, capaz de abrir mão de tudo que possui em favor do outro.

Tais reflexões também se desenvolveram nas mais distintas produções artísticas e dentro de diversos propósitos políticos. Na Alemanha do início do século XX, a função da mãe como portadora de um amor sacrificial era amplamente discutida pelos pensadores da época. Afinal, a necessidade do envolvimento de jovens na primeira guerra mundial e a grande chance de sua morte prematura eram fatos inegáveis.

Pessoas como Gertrude Bäumer, Clara Zetkin e a escritora Gabriele Reuter, exaltavam a função benevolente que julgavam que a mulher deveria assumir em um contexto de conflito armado. Reforçavam a tarefa a ser exercida pela mãe ao permitir e incentivar que seus maridos, parentes e filhos fossem para o combate.

Durante certo tempo, Käthe Kollwitz acreditou na ideia de sacrifício. Quando seu filho mais novo, Peter Kollwitz, teve negado pelo pai o pedido para poder se alistar para a guerra, foi ela que insistiu pela liberação. Inicialmente, via no desejo pela luta uma força que a sustentaria frente ao medo do óbito.

Não foi o caso. A morte do filho e as consequências desastrosas da guerra na Alemanha não fugiram ao seu olhar. A experiência no bairro de proletariados que residia e o trabalho de médico exercido pelo marido obrigavam-na a um contato constante com a realidade da maternidade experimentada por mulheres trabalhadoras, pobres e viúvas. Sentiu, observou e viveu o peso e a culpa de ser considerada responsável pela família em um contexto de fome, guerra e injustiça social.

Käthe Kollwitz
Fome, 1922
Xilogravura, 41,5 x 31 cm
Fonte: Wikimedia

O que se percebe em obras como Fome e A viúva II da Guerra é o sofrimento feminino intensificado pela presença de uma criança – as mães são seres humanos, ainda que mães. A técnica de xilogravura, que reside na luta travada entre goiva e madeira, e a escolha pela tinta preta, tornam tal reflexão latente ao imbuírem a imagem de crueza e brutalidade.


Em ambas os trabalhos a figura feminina é ao mesmo tempo cadavérica e grandiosa, e exprime não só no gesto, mas em sua corporeidade, toda a dor vivida. O que se nota não é só o sofrimento da mulher na impossibilidade de atingir o ideal materno de cuidado – em Fome, tem o filho morto em seu colo –, mas também sua própria mazela.

Michelangelo
Pietà, 1499
Mármore, 174 x 195 cm
Basílica de São Pedro, Vaticano
Fonte: Wikipedia

Na pose de Fome, mãe e filho assemelham-se à composição de Pietà, tema comum na iconografia cristã. Nela, Nossa Senhora, a grande e sublime mãe, carrega o corpo morto de cristo logo após ser retirado da cruz. Em geral sua feição é plácida e, enquanto ergue o corpo de Jesus em uma mão, o mostra para nós com a outra. Ela fala, assim, de seu sacrifício ao ter perdido o filho para que nós fôssemos salvos. Sua versão mais famosa é a escultura feita por Michelangelo.


O sacrifício não se circunscreve apenas àquela que atribuem o título de mãe de Deus, e pesa sobre os ombros de todas que carregam um filho nos braços. Na psicanálise, ele contém uma duplicidade que é a idealização da figura e o desejo da morte de seu “Eu”/ de seu sujeito.


A obra de Kollwitz, contudo, desperta uma nova leitura sobre a figura da mãe, e o incômodo é lascado na imagem. Em Fome, o lugar do sacrifício é interrompido pela subjetividade exacerbada da mulher, e é nela que prestamos atenção. A xilogravura não traz a paz da Pietà, e a mãe não está consolada pelo bem que o sacrifício necessário à guerra lhe trouxe – podemos questionar, inclusive, se de fato vê algum bem nisso.


Antes de pensarmos na figura feminina pelo sacrifício, vemos o desespero, a fome, a culpa, a dor e a angústia de um indivíduo. Ao vislumbrarmos a mulher fadada às atrocidades do mundo, e com pouquíssimos recursos e direitos, entendemos o complexo lugar da mãe. Ao exercer tal função, ela não deixa de ser um sujeito.


REFERÊNCIAS
FURTADO, Rita Márcia Magalhães. A arte como recorte do real: a condição humana em Käthe Kollwit. Revista Visualidades, 2012. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/314825528_A_arte_como_recorte_do_real_a_condicao_humana_em_Kathe_Kollwitz
MOORJANIM Angela. Käthe Kollwitz on Sacrifice, Mourning, and Reparation: An Essay In Psychoaesthetics. In: Centennial Year. Comparative Literature. Modern Language Notes (MLN), v. 101, nº. 5, 1986. P. 1110-1134. Disponível em: https://www.academia.edu/285332/K%C3%A4the_Kollwitz_on_Sacrifice_Mourning_and_Reparation_An_Essay_In_Psychoaesthetics
SENNA, Nádia da Cruz. A imagem da mãe pelas artistas plásticas do século XX. Fazendo Gênero 9 – Diásporas, diversidades, deslocamentos, 2010. Disponível em: http://www.fg2010.wwc2017.eventos.dype.com.br/resources/anais/1268059050_ARQUIVO_Maternidade_FG9.pdf


Juliana Cunha é escritora de terror, mestre em artes pelo PPGARTES / UERJ e bacharel em história da arte pela mesma universidade. Seu campo de estudo engloba as questões da subjetividade, da morte, do maligno e do sombrio em distintas manifestações artísticas

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