Clara Machado Crítica quinzenal

Sobre a obra O impossível, de Maria Martins

Maria Martins, O impossível III, 1945. Bronze.

“ Mesmo depois da minha morte / Muito depois da sua morte / Eu quero te torturar / Eu quero o pensamento de mim encaracolado em volta do seu corpo / Como uma serpente de fogo sem queimá-lo / Eu quero te ver perdido, asfixiado, perambulando. / Na nevoa sombria / Entrelaçado por meus desejos / Para você quero longas noites de insônias / Preenchidas pelos troares dos sons da tempestade / Bem distante, invisível, desconhecido. / Eu quero que a saudade da minha presença / Então te paralise” 

Maria Martins

A obra em questão é uma escultura em bronze de Maria Martins intitulada “O impossível“, de 1946, que pertence à coleção do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

A escultura é composta por dois corpos antropomórficos com órgãos sexuais protuberantes que se tocam na parte inferior, e, no local onde estariam os rostos, vemos dois buracos com tentáculos indo na direção um do outro, num duplo movimento de desejo e recusa. A psicanálise pensa o desejo como ausência, a falta de algo que nunca foi. Só um buraco que lateja, no qual tudo cabe, justamente porque é originariamente vazio. Maria, cuja obra deste período encontra-se em profundo diálogo com o surrealismo, explicita no rosto das figuras esse buraco. Essas formas se atraem, mas não se encaixam – “O impossível“, ela o chama. Ir ao outro é falhar.  

O erotismo é um elemento pulsante na obra de Maria Martins, bem como uma irracionalidade atemporal e selvagem, que se manifesta através de suas formas sensuais e monstruosas, o que se vê em “O impossível”. A beleza dessas formas causa incômodo. Nos dois corpos (quase) humanos da escultura, vemos um deles com tentáculos de lula ou algas marinhas, e a outra com espinhos de ouriço ou de cacto, e a superfície escura e lisa do bronze faz desses corpos escorregadias pedras de rio. São monstros eróticos que fundem os elementos da Terra.   

Aproximadamente no mesmo período em que realizou a escultura “O impossível“, Maria Martins trabalhou em uma série de esculturas que retratavam divindades, mitos e personagens folclóricos brasileiros, dialogando com uma tendência do primeiro modernismo brasileiro em afirmar esses elementos de identidade nacional. No entanto, se há na obra de Maria a intenção de uma afirmação positiva dessa identidade, isso acaba engolido pela exploração do caráter irracional desses elementos, trazendo à luz uma sabedoria das forças vitais, que se expressa profundamente em sua obra através da sexualidade. 

A escultura “O impossível” – bem como grande parte de sua carreira – foi produzida fora do Brasil. Foi exposta aqui pela primeira vez em 1950, quando Maria Martins realizou uma individual em São Paulo, seguida de outras duas (uma em São Paulo e outra no Rio de Janeiro) ainda nesta década. A resposta, no entanto, não foi predominantemente positiva. 

Maria voltou ao Brasil em um momento em que os movimentos concretistas se instauravam e ganhavam força no território nacional, e seu diálogo com o surrealismo e o caráter irracional e sensual de seu trabalho não cabiam na concepção concreta. Mário Pedrosa, em torno de quem se reuniram os artistas que começavam a se dedicar à abstração[1], escreve em 1957 uma crítica à última exposição de Maria em que afirma que “falta ordem na imaginação desta mulher.”[2].

Diante dessa tendência “matematizante” da primeira vertente concreta brasileira, que silencia o problema do desejo e todo o descontrole que ele carrega, e em um momento em que a imaginação submetida à ordem é requisitada, Maria afirma “o impossível”; faz das cabeças – templos consagrados do pensamento da ordem – buracos, e eleva o desejo como força fundamental que conduz o ser humano.  


[1] STIGGER, Verônica. Não te esqueças nunca que venho dos trópicos, acesso em:      <https://www.academia.edu/6189653/_N%C3%A3o_te_esque%C3%A7as_nunca_que_eu_venho_dos_tr%C3%B3picos_>

[2] PEDROSA, Mário. Maria, a escritora, in: Dos murais de Portinari aos espaços de Brasília, São Paulo: Perspectiva, 1981, p. 89.


Clara Machado
Rio de Janeiro, 1994 . Artista visual e poeta. Mestranda em Processos Artísticos Contemporâneos pelo PPGARTES-UERJ, graduada em Artes Visuais pela UERJ. Realizou intercâmbio no curso de Artes Visuais da Universidade IUAV de Veneza, Itália. Em 2019 participou do curso de acompanhamento Imersões Poéticas, da Escola Sem Sítio. Realizou diversos cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e participou de exposições nacionais e internacionais. Autora do livro Ferrugem, editora Urutau.
Sua pesquisa artística e teórica gira em torno dos vestígios e do corpo, atravessada por questões como a morte, a memória e o erotismo

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