Crítica quinzenal Pietro De Biase

O LEGADO DO TEMPO

Para Rafa

“Para quem quer se soltar 

invento o cais

Invento mais que a solidão me dá”

Milton Nascimento, em Cais

“As palavras sustentam o céu. 

Ó, céu: dai-nos serem gentis.”

Job Sipitali, em Raízes cantam

Um espectro nos ronda: o luto. Por entre as nesgas do tecido social, esgarçado, o luto penetra nos ferindo, de mansinho, com a luz da eternidade. Diferente de muitos sentimentos, o luto não tem rosto. Seus predicados são idiossincráticos e altamente subjetivos. Uma estrada deserta pela qual se percorre apenas sozinho. Pelo luto, experienciamos o vazio silêncio da espécie. Na lavra desse tempo condoído, nos transladamos. E em velocidade amorfa, singramos rumo a um tempo do alentecimento. Nesse tempo, habita a obra de Rodrigo Braga

O artista pernambucano se confirma como um dos mais profícuos agricultores da imagem de sua geração. Retoma-se aqui o conceito batizado por Jeff Wall de “fotógrafo agricultor”, como aquele que constrói suas imagens a partir de ideias concebidas previamente. Um tipo oposto ao “fotógrafo caçador” de Ansel Adams, pronto a capturar o imediatismo de um instante. Nas lavouras de Braga, alegorias da solidão. Sob diferentes perspectivas, o artista constrói imagens de cunho híbrido que reforçam o esfacelamento da identidade e do sujeito estável, estóico. 

Tudo que é líquido lhe chama. Não por acaso, o elemento morte surge na obra de Braga como moderador de um discurso. Longe de um ente fantasmagórico, a morte emerge como cifra do tempo expandido. A chave de força que permite a sobrevivência do mundo. O artista arremeda o ciclo vital, a partir de metáforas imagéticas, que deslocam, transmutam, associam vestígios vegetais, corpos de animais e do seu próprio corpo do seu contexto original. Um exílio forçado de pessoas, coisas e lugares. 

Frente ao impossível, o luto. Frente ao possível, o sonho. 
Desejo Eremita (2009), segundo Braga, partiu de uma “necessidade imanente de constituição de um espaço-tempo diferente daquele rotineiro da metrópole”. Nesse tempo dilatado, ele imaginava vivenciar uma nova experiência – “ligada aos aspectos mais crus e ritualísticos do ambiente natural”. Nesta série produzida no Município de Solidão, no Sertão do Pajeú pernambucano, o artista investiga os limites do simbólico em meio à aridez. Ou, como a vida se reorganiza a partir da morte.

Desejo Eremita 15, 2019
Campo de espera, 2011

A dança entre vida e morte ganha ritmos ainda mais acachapantes na série Biomimesis (2010-2014), produzida nos três estados onde o artista teve residência: Amazonas, Pernambuco e Rio de Janeiro. Por meio de construções miméticas, de voltagens ora surrealistas ora conceituais, Braga colhe suas imagens do além. A fusão entre diferentes elementos do mundo natural, já sem vida, reconfigurados, refundam o discernimento do olhar, oferecendo um legado do e para o imaginário.

Biomimesis, 2011

Mergulhar no arbítrio da solidão é repactuar as bases com a nossa própria humanidade. Para Freud, a felicidade não se encontra no plano da criação. É, portanto,  necessário inventá-la. De suas pesquisas clínico-legistas, Braga demonstra propensão e competência para a mudança, ainda que saiba a inequívoca dor de encontrar aquilo que procura. Ancorado na isotopia do sofrer (solidão, morte, luto, ausência) e da transmutação (metamorfose, mimesis, simbiose) o artista inventa o mundo. E este lhe sorri.


pietro

Pietro de Biase é advogado. Participou do Laboratório de pesquisa e prática de texto em arte do Parque Lage. Atualmente, integra o programa Imersões Curatoriais da Escola sem sítio.

1 comentário

  1. Sensacional a crítica e a obra de Rodrigo Braga. De fato, o luto só nos alivia se transformado pelo outro que ficou em nós, em arte. Parabéns Pietro!

    Curtir

Deixe uma resposta para Anajara Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: