Crítica quinzenal Gabriel Fampa

KING KONG (parte 2: corpo frame pesadelo)

Retrocedamos. Alguns minutos; algumas horas; alguns dias. De um tempo a outro; de um local a outro. Do clímax ao meio do caminho; da parte final ao segundo ato. Voltemos a Kong, fazendo de seu corpo moribundo corpo vivo, revertendo seu impacto final com o solo, trazendo-o de volta pela mesma verticalidade da queda até o topo do Empire State Building. E depois, até a casa de shows e às correntes, ao navio, ao conflito e, finalmente, à ilha e à floresta. Retornemos à metade do filme: ao meio, novamente, de King Kong.

Por que voltar? O que nos atrai, exatamente, nesse regresso? Um vestígio, talvez, germinado a posteriori; uma sombra cuja silhueta nos é turva; uma espécie de repulsa que aos poucos vai se fazendo mais nominável. Desconfiamos do que seja isso que nos faz retornar: é algo que tem afetado nosso âmago e despojado mal-estar em nossa memória fílmica desde os créditos da primeira sessão. E suspeitamos de que esse algo que ainda nos afeta se trata do corpo – e de tudo (ou, pelo menos, de muito) que lhe diz respeito.

Quando o corpo de Kong aparece pela primeira vez, vem se fazendo visível do interior da mata, desmoronando árvores robustas, estraçalhando galhos maciços. É o peso e a força incarnados. À frente da criatura, uma mulher está amarada em condições que sugerem uma oferenda a Kong. Ela grita; tenta romper as cordas que a prendem; procura escorregar os pulsos por entre as amarras; debate-se para derrubar as vigas que a imobilizam. Em vão: seu corpo é fraco; sua força, expressa no desespero, é insuficiente. Aqui está nossa primeira impressão: diante de nós, a pequenez feminina e humana contraposta pelo gigantismo e potência destrutiva do gorila.

Há, entretanto, uma segunda impressão que nos atravessa: a soberania de Kong vem acompanhada de algo que nos exaspera. Ou ainda, sua soberania, expressa evidentemente por sua potência, estatura e jocosidade, é costurada na fonte de uma angustia que transcende nossas capacidades de reação primária. Há algo em Kong como que fecundado de um pesadelo. Nesse sentido, compartilhamos com a mulher em cena o destino de olhar algo sinistro.

Temos certeza: é o corpo – o corpo de Kong – que nos deixa a marca do impróprio. Sua aparência, movimentos, roncos, altura, olhos, olhar; seu contato com o mundo ao pisá-lo. Tudo que o compõe em conjunto, em um corpo, rompe as barreiras do peculiar e recai diretamente no assombroso¹.

Encaremos a aparência: o rosto da criatura tem algo de indeterminável. Quando o vemos de perto, é mecânico e rígido como se cada músculo se movesse a partir de uma vontade letárgica e calculada. Mas, de longe, estranhamente, suas feições adquirem ar contrário: tornam-se agitadas, enérgicas, inflamadas e imprevisíveis. O mesmo de diz sobre as mãos: ao observá-las proximamente, são completamente rígidas, a ponto de duvidarmos de que sequer haja articulações nos dedos ou no pulso. Parecem os monumentos estáticos do terror. À distância, porém, os dedos se coordenam com animação e flexibilidade, jocosamente ou raivosamente. Os pés, ao assistir o pisoteamento em close, são tão endurecidos quanto às mãos e dosados de um peso que se sabe esmagador e fatal. Descende sobre a população nativa da ilha como uma rocha que desmorona da montanha. Vendo os pés à espreita, entretanto, parecem-nos vivos e sagazes. E ainda sobre a rigidez: de perto ou de longe, a pele de Kong parece ser composta de um material que tende ao duro, quase inflexível, como uma manta já muito enrijecida pelo tempo.

Entretanto, se a aparência do corpo já nos é melindrosa, há algo que causa ainda maior mal-estar: os movimentos da criatura. A ação, dinâmica, mobilidade, tropeço, seja o que for, traz à tona algo macabro que evoca à superfície dos nossos olhos um pesadelo muito íntimo, que frui a cada balanço do braço, a cada passo, a cada pulo, tombo ou grito da criatura. Esse movimento promove uma espécie de asco em forma de preto e branco da fúria de Kong.

Essa náusea, porém, advém de um ponto ainda mais específico: do ritmo quebradiço desse corpo, que aparenta estar em algum tipo de dissintonia com seu redor. Para além da materialidade do corpo, seu compasso é certamente singular e inquietante: é notório que Kong está em um tempo diferente daquele que passa para todo o resto. Chamamos isso de movimento quadro a quadro, animação frame a frame, ou algo assim.

Temos aqui uma dupla apuração. Primeiramente, esse gorila é enorme – isso nota-se rapidamente – e a materialidade de seu corpo é insólita. Logo, o espaço (em termos de concretude e espacialidade) que ocupa no mundo não é aquele com o qual estamos acostumados nem aquele que nos parece crível. Mas, o tempo pelo qual se manifesta, por sua vez, também não é um tempo que nos é crível: é o tempo do descompasso, seja a criatura que respira divergência, seja sua presença que faz do mundo arrítmico. A monstruosidade do corpo Kong está, afinal, no absurdo de seu espaço, e também de seu tempo. Seu tamanho descomunal se expressa no estranho e quebradiço ritmo de sua moção e se traduz em um tipo perturbador de imprevisibilidade cinemática.

Ainda sobre o corpo: a situação em que escala o Empire State Building se contrapõe a todas aquelas em que segura em mãos a personagem feminina do filme. Se quando somos apresentados à criatura opõem-se sua imensa estatura e a fragilidade dos corpos humanos; quando a avistamos prestes a ser abatida, vemo-la em sua pequenez mediante as edificações da metrópole. O contexto se inverte: é Kong, afinal, que é ínfimo. Testemunhamos o corpo arquitetônico (arranha-céu) versus o corpo orgânico (débil e mortal). A imagem da escalada não deixa dúvidas: o corpo está, de fato, em questão. E em analogia ao organismo, esse corpo urbano organizado estabelece a eliminação de Kong por  fagocitose: é incorporação do corpo estranho por um maior, que sente fome.

A fagocitose de Kong, como dissemos², é a reivindicação pela dinâmica própria da modernidade, que se autodenomina como uma estrutura que abriga e ordena a euforia do progresso em fluxo. É preciso pontuar, nesse sentido, que a ronda errante de Kong em Nova York explicita o processo de convergência de determinadas forças sobre seu corpo. Essas são as forças que almejam a ordenação de sua conduta imprevisível, descompassada e brutal, e a organização de todos os seus elementos voláteis ou indefinidos em um corpo coletivo organizado, funcional e cadenciado. O encontro entre Kong e a cidade industrial explicita uma dominação em nível de material, escala, progresso, ordem e, sobretudo, de ritmo e moção. Dominação essa necessária ao funcionamento maquínico das novas dinâmicas socioeconômicas.

Ainda: o interesse dos espectadores do teatro por Kong acorrentado revela uma camada de curiosidade com o corpo em si. Não somente com o dele, mas com o nosso, vulnerável, sujeito ao cansaço. Indagar sobre a carne e osso da criatura é voltar-se para si e encarar a própria mortalidade. É perguntar-se se o corpo humano é capaz mesmo de acompanhar o ritmo de uma modernidade que rompe com noções prévias de velocidade a todo momento. A morte de Kong é a submersão dessa inquietação humana ainda não respondida.

Há, desse modo, um segundo modo de olhar a dimensão espetacular de Kong. Se na primeira perspectiva entendemos a morte da criatura como a supressão do primitivo frente a modernidade, não podemos deixar de considerá-lo não como uma “expressão do passado”, mas como um terror presente e uma projeção de futuro. A brutalidade de Kong, como apontado, foi incorporada pela cidade, como em uma fagocitose. Sua violência é assim absorvida e distribuída. Essa é a fonte do terror: ao andar na rua, os habitantes da modernidade caminham sobre um fluxo de bestialidades feitas concreto. Já a projeção: saber que em algum momento essa brutalidade pode retornar e destruir o corpo em si. Ou ainda, agarrar os pés dos pedestres e dos condutores e puxá-los para dentro do chão, onde coexistirão com todas as bestas de outrora.

Concluindo, terminado o filme King Kong (novamente), confirma-se que aquilo que tem nos inquietado em nosso sono é, de fato, corpo de Kong. A criatura tem, afinal, um corpo-pesadelo cujo vislumbre produz em nós sensação de agonia e desamparo. E nós, afetados, somos incapazes de digerir Kong por completo. Ele permanece para nós, mesmo depois de sua queda, como cicatriz de uma ferida aberta na coesão do espaço e na fluidez do tempo – e sobrevive, desse modo, no imaginário como um corpo estranho cuja maior indisciplina (e maior triunfo) talvez seja sua inadequação a própria temporalidade.

¹ Kong em movimento: https://www.youtube.com/watch?v=rnaCi4rBfqw&list=PLZbXA4lyCtqqabQs52Xw04trAuNvnamrH&index=1

² KING KONG (parte 1: letalidade, modernidade): https://revistadesvio.com/2021/05/10/king-kong-parte-1-letalidade-modernidade/


FAMPA

Gabriel Fampa é artista e pesquisador, doutorando na linha Arte, Imagem e Escrita pelo PPGArtes – UERJ, mestre na linha Linguagens Visuais pela EBA – UFRJ e graduado em Ciências Sociais pelo IFCS – UFRJ. Na sua formação complementar, destaca o programa de formação Práticas Artísticas Contemporâneas da EAV / Parque Lage. Atualmente, vive e produz no Rio de Janeiro.

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