Crítica quinzenal Juliana Cunha

O FEMININO E A NATUREZA

Paul Gauguin
Te Arii Vahine (A rainha ou A esposa rainha), 1896
Óleo sobre tela, 97 x 130 cm.
Fonte: The Pushkin State Museum of Fine Arts

O artista Paul Gauguin é conhecido por sua fuga do velho mundo, passando a residir entre as ilhas da Polinésia, sobretudo no Taiti, por volta de 1891. Como apontado pelo pesquisador Giulio Argan, ele buscava “reencontrar numa natureza e entre as pessoas não corrompidas pelo progresso a condição de autenticidade e ingenuidade primitivas, quase mitológicas” (ARGAN, 1992, p.130).

A crença em uma sociedade de inocência não corrompida pelo progresso e pela industrialização é vislumbrada em suas obras no Taiti, que valorizam a natureza e a representação de indígenas. Não só em um campo temático, ele também explorava uma nova linguagem artística, cuja técnica emulasse nas cores e nos traços a ingenuidade atribuída por ele àquelas pessoas e àquela vida.

O sonho de uma sociedade guiada pela natureza contém também a ideia de um universo livre da culpa, cuja sexualidade não é reprimida. Nesse sentido, estão presentes em suas obras mulheres de corpos livres, que não possuem uma sensualidade lida como perversa, mas vista como natural e inocente. Tal leitura é reforçada ao encontrarmos tais figuras, muitas vezes, na natureza.

Na pintura Te Arii Vahine, na qual a mulher é identificada por especialistas como esposa do artista, encontramos não só a associação com a natureza, mas uma possível relação com a personagem bíblica Eva. Isso porque, no vasto e exuberante jardim que a cerca, encontra-se um tronco na qual uma cobra se enrola, podendo ser associada à árvore do conhecimento do bem e do mal. Nesse caso, o próprio Taiti é o jardim do Éden, antes do pecado original.

A conexão entre natureza e feminino é feita desde tempos imemoriais. Em parte de O segundo sexo Simone de Beauvoir se debruça a entender essa relação, e aponta para a correlação feita entre a função reprodutora da mulher, ligada à produção de vida, e a própria imagem de mãe natureza. Também é comum que a terra não cultivada seja símbolo da virgindade feminina, e a terra cultivada, assemelhada a maternidade.

É interessante perceber, contudo, que é quando o homem controla a terra que se alarga o domínio sobre a mulher. Isso ocorre tanto por uma questão de certificação de que os herdeiros são, de fato, filhos do dono da propriedade, como também pelo paralelo entre a terra e o corpo feminino. Tal reflexão demonstra que na vida prática o dado biológico pesa mais sobre a mulher do que sobre o homem.

À figura masculina coube, no passado, o avanço, a invenção e a conquista da terra e do mundo. Ele pôde criar e dar significado às coisas. À mulher, restringida em suas possibilidades, coube exclusivamente fazer a vida florescer, sem que pudesse encontrar propósito ou significado para si mesma e para o mundo. Apesar do valor de tal função, já que nada existe sem vida, ainda de acordo com Beauvoir, a subjugação feminina residiria no fato de que a humanidade “prefere razões de viver à vida” (BEAUVOIR, 2008, p. 100).

Assim, para a filósofa existencialista, como o homem pôde dominar a natureza e dar sentido social para sua existência, ele julgou seu ser superior. De fato, o período de assentamento de clãs e produção agrícola foi um momento de valorização da mulher por conta da associação com a maternidade. Contudo, assim como as deusas femininas, que simbolizavam a terra, foram dominadas por deuses masculinos, que contribuíam com a semente ou a chuva, “o homem permanece o senhor, como o senhor da terra fértil; ela [a mulher], destina-se a ser dominada, possuída, explorada, como o é também a natureza” (BEAUVOIR, 2008, p. 108).

Na história da arte a associação entre mulher e natureza também é antiga. Para além de narrativas mitológicas e religiosas, desenvolvidas através dos mais distintos meios artísticos e ao longo de séculos, podemos ressaltar a relação travada com o gênero de natureza-morta. Era este o único que as mulheres puderam pintar durante muito tempo, e através do qual estiveram presente na composição das mais diversas pinturas. Sendo o espaço doméstico lugar feminino, e a natureza-morta uma composição essencialmente de interior, é comum que encontremos a ambos juntos nas mesmas obras.

Ticiano
Vênus de Urbino, 1538
Óleo sobre tela, 119 x 165 cm
Galleria degli Uffizi
Fonte: Wikipedia

Ainda na história da arte, para entender a posição assumida pela mulher na pintura de Gauguin, é fundamental conhecer a mudança feita por Ticiano na disposição do corpo feminino através da Vênus de Urbino (1538). Segurando rosas em uma das mãos e tendo a outra repousada sobre a genitália, a sedutora deusa do amor aparece nua e deitada. Nessa obra, Ticiano estabelece uma maneira que se firmou em toda a história da arte ocidental para a representação do corpo feminino.

Tal postura se repete desde representações da deusa do amor, até as várias pinturas de odaliscas, que eram mulheres do harém no Império Otomano, e mesmo entre prostitutas, como a famosa Olympia de Manet (1863). Tornaram-se comuns as obras em que mulheres, cercadas por tecidos, flores e/ou frutas exóticas, estão deitadas e nuas, exalando sexualidade.

O que Gauguin traz, contudo, é uma sensualidade que busca ser ingênua e livre de culpa, pois natural. Ao deitar a mulher no solo, em contato com a terra, é a figura feminina o próprio jardim. Espera ser penetrada assim como a terra é semeada para que possa florescer.

De fato, Gauguin não foi nem o único, nem o primeiro, a representar mulheres nuas em meio à natureza. O próprio Monet, em “Almoço na Relva” (1865-1866), já havia trabalhado essa temática. Contudo, há uma complexidade profunda na escolha do artista em pintar a mulher novamente naquele lugar de disputa filosófica sobre o sentido da existência do sujeito. O artista europeu, envolto e maravilhado pelo novo mundo, não se desprendeu completamente da tradição. Por isso, mais uma vez vemos a mulher exalando, em sua nudez, uma sexualidade ingênua e natural, que evoca a questão da criação da vida.

Tal performance sempre se dá pelo olhar masculino.


REFERÊNCIAS

ARGAN, Giulio Carlo. Paul Gauguin. Te tamari no atua. In: Arte Moderna. São Paulo: Companhia das letras, 1992. P.130-134.

BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo: fatos e mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008.

FERREIRA, Ermelinda Maria A. Trajetória da Vênus: leituras do corpo feminino na arte, do classicismo à Biopaisagem, de Ladjane Bandeira. Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea, nº. 33. Brasília, 2009. P. 81 – 106. Em: http://docplayer.com.br/68436919-Trajetoria-da-venus-leituras-do-corpo-feminino-na-arte-do-classicismo-a-biopaisagem-de-ladjane-bandeira.html


Juliana Cunha é escritora de terror, mestre em artes pelo PPGARTES / UERJ e bacharel em história da arte pela mesma universidade. Seu campo de estudo engloba as questões da subjetividade, da morte, do maligno e do sombrio em distintas manifestações artísticas

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