Clara Machado Crítica quinzenal

cópula entre palavra e imagem em Tunga (sobre A cada doze dias e uma carta)

Ao pensar o lugar do corpo nos trabalhos de Tunga, Viviane Matesco identifica uma dinâmica erótica no modo como o corpo fragmentado e deslocado aparece em seus trabalhos:

Todo termo é significante de um outro, de modo que a cadeia se refaz em novos deslizamentos e, a cada contato, novo sentido contamina toda a sequência. A erotização ocorre nesse deslizamento do olhar em que o corpo é redesenhado, tirando-o da estabilidade da visão e do sentido convencional do mundo e revelando-o com um olhar “outro”. (MATESCO, 2016, p. 129-130)

Tunga opera com estes deslizamentos e produz imagens de corpos desarranjados, criando metáforas visuais que misturam fragmentos e materialidades e instauram o erotismo na imagem. Junto a isso, é comum em sua obra a presença de textos que trabalham junto com a imagem, trazendo mais uma camada de deslocamentos e contaminações para o conjunto.

 É o caso da série A cada doze dias e uma carta, que consiste em um conjunto de desenhos e um poema. Os desenhos podem ser apresentados individualmente, mas Tunga os agrupa também em uma publicação juntamente ao poema e a outros trabalhos que dialogam com a série, formando uma cadeia de trabalhos que transbordam uns nos outros a partir de um elemento em comum: os dentes. 

O dente que morde vira extremidade do corpo, cabeça, mão e sexo tornados dentes em corpos indiferenciados, costurados entre si nessa estranha arcada que se forma nas imagens (figura 1). No poema (figura 2), o dente-de-leite se desloca da boca da filha para o esperma do pai, transformando a liquidez metafórica do leite em liquidez literal do esperma que fertiliza a filha e gera uma outra filha, fechando a cadeia erótico-simbiótica familiar. Os nomes dos personagens são todos palíndromos, respondendo à lógica circular e deslizante do conjunto – não importa por onde a forma se inicia, ela levará sempre ao mesmo lugar.

Figura 1: A cada doze dias e uma carta, em: TUNGA. Olho por olho. São Paulo: Cosac Naify, 2007. p. 44-45.
Figura 2: A cada doze dias e uma carta, em: TUNGA. Olho por olho. São Paulo: Cosac Naify, 2007. p. 43.

O deslocamento de um único elemento de seu lugar original produz uma estranheza que desarranja o corpo, e esse mesmo deslocamento estabelece relações de semelhança improváveis, “laços críticos de semelhança, ou semelhanças por excesso” (MATESCO, 2016, p. 143), que produzem um choque através do contato dos elementos em questão. Esse choque “gera imagens que dilaceram qualquer substancialismo, pois implicam a heterogeneidade, a capacidade que as coisas têm de se transformar” (Idem, Ibid., p. 143), de se tornarem outras. Nesse processo, o texto desempenha um papel que acentua ainda mais a ambiguidade das imagens, pois confere uma outra camada de sentido que se soma ao conjunto, com a criação de “um campo imantado que reconstrua o inexistente, em que você completa com o olhar aquilo que não existe, mas sem alcançar a unidade de reconstrução.” (Ibid., p. 144)

Tunga fala em uma “energia de conjunção”, que resulta “da união de coisas díspares: materiais inesperados, objetos, ideias e, mais potentes e importantes que tudo isso, de palavras” (TUNGA, 2019, p. 99). A palavra e a imagem se tocam intimamente, não havendo uma relação hierárquica entre elas, mas uma espécie de cópula, fricção que gera um terceiro elemento.

Os textos que permeiam a obra de Tunga se constroem de diversos modos, entre poemas e narrativas fictícias. No caso de A cada doze dias e uma carta, poema e imagem contêm operações semelhantes que criam uma mesma atmosfera – corpos que se multiplicam e se misturam, dentes deslocados, relações sexuais – sem que o texto traduza literalmente a imagem. O texto não é uma legenda ou uma interpretação, mas uma abertura, camada sobre camada, contaminação.


Referências Bibliográficas:

LAMPERT, Catherine (org). Tunga. São Paulo: Cosac Naify, 2019.

MATESCO, Viviane. Em torno do corpo. PPGCA – Niterói: Coleção Mosaico, 2016.

TUNGA. Olho por olho. São Paulo, Cosac Naify, 2007.


Clara Machado
Rio de Janeiro, 1994 . Artista visual e poeta. Mestranda em Processos Artísticos Contemporâneos pelo PPGARTES-UERJ, graduada em Artes Visuais pela UERJ. Realizou intercâmbio no curso de Artes Visuais da Universidade IUAV de Veneza, Itália. Em 2019 participou do curso de acompanhamento Imersões Poéticas, da Escola Sem Sítio. Realizou diversos cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, e participou de exposições nacionais e internacionais. Autora do livro Ferrugem, editora Urutau.
Sua pesquisa artística e teórica gira em torno dos vestígios e do corpo, atravessada por questões como a morte, a memória e o erotismo

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