Crítica quinzenal Juliana Cunha

EMIL NOLDE – A MÁSCARA COMO PONTE PARA O OUTRO

Emil Nolde
Mask Still Life III, 1911
Óleo sobre tela, 74 x 78 cm
Fonte: WikiArt

Emil Nolde apresenta uma linguagem profundamente expressiva. Vinculado ao Die Brücke (1905-1913), importante grupo expressionista na cidade de Dresden, é notável sua preferência por uma gestualidade agressiva, cores extravagantes e uma violência emocional e visual.

Sua obra Mask Still Life III é uma natureza-morta, gênero através do qual os artistas aprimoram seu conhecimento sobre cor, luz e composição. As frutas, contudo, foram substituídas por máscaras assustadoras, de formas grotescas e cores expressivas, sobre um fundo chapado e sem perspectiva.

Não apenas entre os artistas expressionistas as máscaras foram motivo de investigação, mas também entre outros modernos. É amplamente conhecida, por exemplo, a aproximação de Picasso com as máscaras africanas. Contudo, há uma diferença na interpretação feita da peça. Para Picasso, ela representava uma nova forma de entender o espaço, uma possibilidade ao desafio de romper com a tradição plástica europeia. Para Nolde, além dessa questão, ela era imbuída de uma carga dramática pelo seu envolvimento com os ritos que cercam o início da humanidade.  

Afinal, é amplamente conhecida a busca expressionista pelas formas lidas como primitivas, desvinculadas da tradição europeia. No caso de Nolde, é sabido que a inspiração para a produção de sua série com esse tema foram os desenhos das máscaras desenvolvidos a partir de sua visita entre 1911 e 1912 ao Museu Etnológico de Berlim.

Com sua origem relacionada aos povos antigos, as máscaras evocavam, para o artista expressionista, um estado de primazia do ser humano. Ao simbolizarem um retorno a um tempo entendido como primitivo, possibilitavam um mergulho numa subjetividade latente, atemporal e geral. Uma volta àquilo entendido como essência, encontrado no povo ou no universo infantil. Talvez por isso a escolha do artista por traços mais pueris.

Outro motivo possível é o interesse de Nolde pelo místico, função desempenhada pelas máscaras desde a Grécia antiga. Sabe-se que suas obras com essa temática surgiram logo depois de sua série relacionada ao cristianismo, o que pode indicar uma permanência das questões religiosas na pesquisa do artista.

As máscaras resguardam uma desapropriação de si mesmo que se encontra no processo de performar o outro – humano ou não. É o que ocorre no século V a.C, quando certo adorador de Dionísio,  envolvido em uma das festas em homenagem a essa divindade, se mascarou e se identificou como o próprio deus do vinho. Segundo Vernant, mascarar-se “é deixar de ser o que se é e encarnar, durante a mascarada, o Poder do além que se apossou de nós e do qual imitamos ao mesmo tempo a face, o gesto e a voz” (VERNANT, 1988, P. 104).

É interessante que as máscaras de Nolde jamais poderão ser colocadas sobre nossas faces: elas devem ser observadas. Ainda na Grécia antiga, havia uma máscara que guardava essa alteridade máxima, do outro que não pode ser performado. A máscara de Górgona.

Górgona, monstro mortal de aparência feminina, é comumente conhecida pela sua capacidade de suspender a vida petrificando aqueles que são incapazes de desviar seus olhares dela. Sua principal representação é a de máscara, e é incomum uma reprodução em que apareça seu corpo inteiro. Também não há registros de nenhum culto a ela, e ninguém usava as máscaras com sua face. A deusa é a morte encarnada, e nos petrifica na distância, exercendo o efeito de máscara sem ter de nos cobrir, unicamente olhando para nós.  

Pelo jogo de fascinação, o voyeur é arrancado a si mesmo, destituído de seu próprio olhar, investido e como que invadido pela figura que o encara e pelo terror que os seus traços e seus olhos mobilizam, apodera-se dele e o possui (VERNANT, 1988, P. 103-4).

O trabalho de Emil Nolde concentra todas essas possibilidades poéticas de leitura sobre a máscara, explorando uma expressividade exacerbada, que traz em sua plasticidade uma liberação de uma estética normativa, clássica e tradicional. É a expressão potencializada de um ritual, um ato performático que conecta subjetividade exagerada e urgência pelo Outro, um interesse de reencontro consigo mesmo e com o divino. Todo esse processo resguarda também uma experiência com a morte.


REFERÊNCIAS

BORRIAUD, Nicolas. Formas de vida: a arte moderna e a invenção de si. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2011.

CARDINAL, Roger. O Expressionismo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.

LOURENÇO, Allan André. Sobre alguns aspectos das naturezas-mortas de Emil Nolde (1911-1912). Revista Caiana, nº 15, 2019. P. 18-27. Disponível em: http://caiana.caia.org.ar/resources/uploads/15-pdf/Laurenco%20pdf%20corregido.pdf

STANGOS, Nikos. Conceitos da Arte Moderna, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

VERNANT, Jean Pierre. A morte nos olhos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.


Juliana Cunha é escritora de terror, mestre em artes pelo PPGARTES / UERJ e bacharel em história da arte pela mesma universidade. Seu campo de estudo engloba as questões da subjetividade, da morte, do maligno e do sombrio em distintas manifestações artísticas

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