Crítica quinzenal Mônica Coster

Naves Precárias: sobre o trabalho de Beatriz Galhardo

Quando a NASA enviou as naves Voyager 1 e 2 para o espaço sideral em 1977, o intuito do governo norte-americano era explorar o sistema solar. Carl Sagan e sua equipe aproveitaram para anexar às naves gêmeas dois exemplares de um disco fonográfico, contendo informações sobre a vida na Terra. O objetivo desse disco era apresentar a humanidade e o Planeta para uma possível inteligência extraterrestre, que encontrasse as naves vagando pelo cosmos. Para aquelus que desejem consultar o conteúdo do Golden Record, ele está disponível no site da NASA (https://voyager.jpl.nasa.gov/golden-record/), bem como fotografias do passo a passo da confecção do disco dourado. Fotos de cidades, escola, supermercado; imagens dos planetas do sistema solar; diagramas da estrutura do DNA, da formação de moléculas orgânicas, da fecundação do óvulo; sons de trovão, vento, chuva; sons maquínicos; saudações e músicas de diversos países etc… etc… tudo isso pensado para ume espectadore não-humane e não-terráquie[1].

Apesar do Golden Record se esforçar por apresentar a vida como um acontecimento complexo e entrelaçado entre diferentes escalas, para quem permanece no planeta, os discos transmitem algo anterior mesmo ao seu conteúdo: de que a vida é algo representável, definível, mostrável, gravável, fotografável. De fato, seria impossível colocar a bordo de uma nave, sem previsão de retorno, qualquer coisa viva, já que a vida não é um elemento diferente do próprio planeta. Mas, mais do que expor, em um compilado de informações, o que é a vida na Terra, a NASA se empenhou em demonstrar que é supostamente viável conhecê-la através de um modelo, sem precisar experimentá-la.

Imagem da nave Voyager, com vista para o Golden Record.
Parte do conteúdo do Golden Record, extraído do site da NASA: https://voyager.jpl.nasa.gov/golden-record/whats-on-the-record/images/

É possível equivocar-se ao pensar que apenas cientistas são capazes de construir naves. Diferente das Voyager 1 e 2, gigantescas estruturas de alumínio, titânio e aço, a artista brasileira Beatriz Galhardo[1] constrói as Naves precárias 1 e 2. Seus materiais são: tecido de kombucha, papel, folha de ouro, fio de cobre, agulha, musgo e terra. Suas estruturas são delicadamente feitas a partir do agrupamento e do empilhamento desses frágeis elementos. Essas naves são, literalmente, vivas. Tanto pela presença do musgo, quanto pela kombucha, colônia de bactérias e leveduras que se organiza de maneira simbiótica em uma trama que forma um tecido. Mas, outro aspecto vital compõe essas naves. Para mantê-las em movimento, Beatriz rega-as constantemente, marcando uma intimidade fundamental entre ela e as embarcações. Uma é combustível da vida da outra; sem a humana não existe a nave. O que está em jogo para o campo da arte é que as Naves Precárias são arte na medida em que vivem. Em constante movimento (sem o qual não existe vida), tais agrupamentos não se comportam como cápsulas do tempo, imutáveis e eternas, de uma ideia a ser perpetuada. Mantê-las vivas (e eventualmente presenciar suas mortes) é a própria aventura estéticas propiciada pelo trabalho.

Nave precária 1. Beatriz Galhardo, 16cm x 10cm x 10cm, 2021. Tecido de celulose bacteriana da Kombucha, papel vegetal, folha de ouro comestível, fio de cobre, agulha reta de aço niquelado, musgo vivo e terra.

Se as Naves Precárias são muito mais eficientes em expressar o que é a vida na Terra, do que o Golden Record, – o agrupamento obrigatório entre os seres, a simbiose dominante das bactérias, a trama como fundamento – o aço é um elemento que conecta as duas duplas de naves. Nas Naves Precárias, agulhas retas e curvas penetram os seus viventes estruturais, expressando a tecitura da vida, mas também funcionando como mastro. As agulhas são instrumentos essenciais para a construção de bússolas rudimentares, apontando sempre para o norte quando imantadas. Essa é a tecnologia das naves infantis, dos primeiros experimentos de escola. Esse elemento cosedor que corta dimensões, atravessa o cosmos quando penetra na malha da kombucha. Enquanto as Naves Voyager são lançadas no sistema solar com suas armaduras de aço, as Naves Precárias penetram na matriz microscópica das comunidades bacterianas, talvez igualmente infinitas, desconhecidas e transformadoras. Exploradoras do mundo intra-terrestre, elas também carregam nos discos de suas peles douradas, a formação unicelular da vida. Tecido vivo que ora é vela, ora é mapa, e que dá a ver a presença fundamental das bactérias na manutenção da Terra, sem as quais seria impossível sequer sonhar com naves no espaço sideral.

Nave precária 2. Beatriz Galhardo, 16cm x 10cm x 8cm, 2021. Tecido de celulose bacteriana da Kombucha, papel vegetal, folha de ouro comestível, fio de cobre, agulha reta de aço niquelado, agulha curva de aço niquelado, musgo vivo e terra.



[1] Beatriz Galhardo é dançarina, ensaísta e artista visual. Investiga tecituras manuais e podais feitas com/no mundo a partir de uma poética negra feminista. Publicou o livro À escuta dos pés: caminhada e dança em Notícias de América, pela Zazie Edições e está mestranda no PPGCA-UFF. Site da artista: www.beatrizgalhardo.com.br

[1] Nas palavras de Linda Sagan: “Durante todo o projeto Voyager, as decisões foram baseadas na suposição que haveria dois públicos para os quais a mensagem seria preparada – aquelus que habitam a Terra e aquelus que estão nos planetas de estrelas distantes” (tradução nossa). Disponível em: https://voyager.jpl.nasa.gov/golden-record/whats-on-the-record/greetings/, Acesso em: 05 jul. 2021.


Mônica Coster, 1995. Sou artista e pesquisadora de arte contemporânea. No meu trabalho com escultura, investigo a relação entre o campo da arte e os sistemas vivos. A simbiose e a co-dependência com outras espécies são estratégias que utilizo como forma de repensar a noção de “humano”. Desde 2019, me interesso por processos de digestão e decomposição: o meu interior digestivo como um sistema aberto a outros seres e objetos ligados à comida. Pratico a digestão escultórica e a escultura alimentar; proponho a confusão entre o ateliê e o estômago. Sou formada em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ e atualmente curso mestrado em Estudos Contemporâneos das Artes, na Universidade Federal Fluminense (UFF).

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