Crítica quinzenal Juliana Cunha

A POLÊMICA EXPOSIÇÃO DE ANITA MALFATTI

Anita Malfatti
Homem amarelo, 1915
Óleo sobre tela, 51 x 61 cm
Fonte: Enciclopedia.itaucultural

O Homem Amarelo é, provavelmente, a obra mais conhecida de Anita Malfatti. Estava entre as pinturas da famosa exposição de dezembro de 1917, quando a artista foi duramente criticada pelo escritor e crítico literário Monteiro Lobato. A discussão envolta dessa exposição também motivou a escolha de Anita, pelos modernistas, como figura central para o início da arte moderna no Brasil.

As pinturas dessa exposição apresentavam uma estética inovadora entre os artistas brasileiros. As cores irreais, os traços grossos, a ausência de distinção entre figura e fundo e o distanciamento plástico da realidade aproximaram a artista de uma linguagem lida como expressionista.

Para os modernistas, esse movimento era fruto das novas pesquisas artísticas europeias, e uma aproximação daquilo que existia de mais moderno no mundo também colocava o Brasil dentro do mapa da modernidade. Por esse motivo, vemos que essa linguagem internacional era amplamente buscada na primeira fase do nosso modernismo.

Contudo, Anita não foi a primeira a realizar uma mostra com uma linguagem moderna no Brasil. Em 1913, em uma passagem pelo país, Lasar Segall realizou duas exposições, uma em São Paulo e outra em Campinas, que também trouxeram as suas novas investigações artísticas.

Tais exposições não surpreenderam, nem levantaram polêmicas e dificilmente encontram-se informações sobre elas. Duas reflexões surgem dessas informações: Primeiro, que não se esperava de Segall, lido, naquela época, como um estrangeiro, o que se esperava de Anita. Segundo, que é necessário pensar quais foram os motivos de um ataque tão direto a ela.

O artigo de Monteiro Lobato “A propósito da exposição de Malfatti” conhecido posteriormente pelo título “Paranoia ou mistificação?” foi publicado em 20 de dezembro de 1917 no jornal O Estado de S. Paulo. Nele, Lobato faz duras críticas às obras de Anita Malfatti e à saúde mental dos artistas modernos.

Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas e em consequência disso fazem arte pura, (…). A outra espécie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva (LOBATO, 1917).

Há, contudo, pontos complexos ao longo do texto, que exigem uma análise mais profunda desse ácido artigo. Nele, observamos que mesmo as críticas direcionadas à Anita parecem tratar de uma questão maior: a antipatia de Lobato por obras que apresentavam uma linguagem lida como estrangeira, feia e distante do nacionalismo buscado por ele.

Essa artista [Anita Malfatti] possui talento vigoroso, fora do comum. Poucas vezes, através de uma obra torcida para a má direção, se notam tantas e tão preciosas qualidades latentes. Percebe-se de qualquer daqueles quadrinhos como a sua autora é independente, como é original, como é inventiva, em que alto grau possui um semi-número de qualidades inatas e adquiridas das mais fecundas para construir uma sólida individualidade artística. Entretanto, seduzida pelas teorias do que ela chama arte moderna, penetrou nos domínios dum impressionismo discutibilíssimo, e põe todo o seu talento a serviço duma nova espécie de caricatura (LOBATO, 1917).

No texto as críticas não se restringem à Anita, mas se estendem também aos artistas norte-americanos que expuseram com ela. Ao diferenciá-la deles, Lobato acaba tecendo elogios à jovem artista, dizendo que

tivéssemos na Sra. Malfatti apenas uma “moça que pinta”, como há centenas por aí, sem denunciar centelhas de talento, calar-nos-íamos, ou talvez lhe déssemos meia dúzia desses adjetivos “bombons” que a crítica açucarada tem sempre à mão em se tratando de moças. Julgamo-la, porém, merecedora da alta homenagem que é tomar a sério o seu talento dando a respeito da sua arte uma opinião sinceríssima (LOBATO, 1917).

Por tais motivos, parece que o problema para Monteiro Lobato foi o conjunto apresentado por Anita na exposição de 1917. Segundo a pesquisadora Vera Beatriz Siqueira, mesmo que entre os trabalhos houvesse uma inclinação nacionalista, o que vemos em obras como “Índia, Tropical, A palmeira, Rancho de sapê, Caboclinha e (…) O saci, o crítico voltou a atacar a intelectualidade paulista e seu encanto com as novidades que vinham de fora” (SIQUEIRA, 2010, p. 147).

A reação, em época, foi grande. Mário de Andrade chegou a publicar no jornal A manhã, em 1926, o sarcástico necrológio de Monteiro Lobato.  Em uma reflexão tardia sobre o movimento, contudo, tanto Lobato quanto Mario de Andrade compreenderam melhor suas aproximações poéticas, e deixaram a distância de lado.

Em escritos posteriores, Lobato lamenta não ter participado da Semana de Arte Moderna e faz diversos elogios a Mario de Andrade. Em uma revisão do movimento modernista, Mário inclui o trabalho de editor desenvolvido por Lobato como fato que demonstra a brasilidade do movimento paulista, incluindo-o, dessa maneira, entre os precursores do modernismo. Ele diz:

Quanto a dizer que éramos, os de São Paulo, uns antinacionalistas, uns antitradicionalistas europeizados, creio ser falta de sutileza crítica. É esquecer todo o movimento regionalista aberto justamente em São Paulo e imediatamente antes, pela “Revista do Brasil”; é esquecer todo o movimento editorial de Monteiro Lobato (…) (ANDRADE, 2012, p.22)

A boba, 1915
Óleo sobre tela, 50,60 x 61 cm
Fonte: Enciclopedia.itaucultural

De fato, foi na exposição de Anita Malfatti, em 1917, que nasceu uma assombrosa questão para o modernismo. Entre o interesse pelo nacional e o desejo de utilizar uma linguagem moderna, uma luta foi travada. A artista, que teria saído vitoriosa, ainda hoje tem sua obra sob a sombra do evento, que talvez atribuam mais impacto do que de fato teve em sua vida. Talvez, entre as pazes desses dois homens modernos, enxerguemos sempre a Anita como A boba. Mas a verdade é que ela seguiu em frente, como sempre fez, experimentando o que lhe interessava. O debate sempre foi dos outros.


REFERÊNCIAS
LAJOLO, Marisa. Mário de Andrade e Monteiro Lobato: um diálogo modernista em três tempos. São Paulo: Revista Teresa, n.8-9, 2008, p. 141-160. Em: https://www.revistas.usp.br/teresa/article/view/116697/114260
LOBATO, Monteiro. Paranóia ou Mistificação? Artigo publicado originalmente no jornal O Estado de S. Paulo em 20 de dezembro de 1917, com o título “A Propósito da Exposição Malfatti”. MAC – USP. Em: http://www.macvirtual.usp.br/mac/templates/projetos/jogo/paranoia.asp
SIQUEIRA, Vera Beatriz. Anita Malfatti: limites do moderno. Revista Porto Alegre, v.17, n.29, 2010, p. 145-158. Em: https://seer.ufrgs.br/PortoArxte/article/view/23332/13406


Juliana Cunha é escritora de terror, mestre em artes pelo PPGARTES / UERJ e bacharel em história da arte pela mesma universidade. Seu campo de estudo engloba as questões da subjetividade, da morte, do maligno e do sombrio em distintas manifestações artísticas

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