Crítica quinzenal Mônica Coster

Retrato vivo

Procurar pela identidade de Pedro Paulo Honorato[1] em seu Autorretrato (2020) é encontrar a silhueta de uma cabeça vermelha, dois olhos semicerrados e um sorriso amarelo exagerado. Tema recorrente na pintura, o autorretrato é usualmente responsável por expressar as feições subjetivas des artistas. Espera-se encontrar, não “simplesmente” uma obra, mas a imagem única do indivíduo que elabora o surgimento de todas as outras. No entanto, o autorretrato de Honorato não é apenas anônimo, como também é vivo. Sua pintura é feita sobre uma embalagem de papel do Habib’s e a tinta é ketchup e mostarda do McDonald’s. Em alguns dias, sua imagem é consumida por bolores e se torna esverdeada e esbranquiçada.

A opção por retratar a si mesmo usando os molhos icônicos da alimentação de fast food tem um cunho pessoal para Pedro Paulo Honorato já que, além dele, seus pais e seu tio foram trabalhadories em lojas similares. A figura sem identidade reconhecível, faz pensar na suposta impessoalidade exigida por esse tipo de empresa de sues atendentes. Em um outro trabalho, Corpo de Funcionários (2018), o artista apresenta uma foto dos anos 80 da equipe do McDonald’s de Ipanema, na qual estão seus pais. Uma incisão circular cobre o rosto de todas as 32 pessoas, oculta suas identidades e nos faz perceber seus corpos uniformizados.

Pedro Paulo Honorato, Corpo de funcionários, 2018. Fotografia com inserções circulares.

Entretanto, a despeito das tentativas de apagamento propagadas pelas cadeias de fast food (que atravessa gerações), o Autorretrato de Honorato parece convocar a uma insubordinação. Seu sorriso irônico prevê que há algo inoculado dentro dele. Diante da homogeneização das identidades, da comida e dos paladares, o bolor parece ser uma estratégia de sobrevivência. Ele é sorrateiramente inserido junto com a tinta que pinta o sorriso estridente – tinta esta que o artista produz a partir dos sachês de molho, fornecidos pelo McDonald’s, como parte de seu almoço. Após certo tempo, sua cabeça mofa de forma inesperada, imprevisível e incontrolável. E, junto com ela, mofam também as cores vivas que fundamentam a identidade da empresa. A pintura de Honorato tem uma estratégia autodestrutiva a partir a inoculação do tecido vivo. Ela é feita para morrer, apodrecer. Mas, é nessa morte, que reside sua sobrevivência: “[…] a cada pequenina mudança existe a morte, assim como a vida, mas precisamos dar maior valor à morte das nossas produções, porque a vida anda muito exaltada e a busca por imortalidade, tornar cada vez maior a vida, nos faz sintéticos em todos os sentidos”[1]. O hambúrguer do McDonald’s é conhecido como a comida sintética. A comida que não apodrece, que não está sujeita à intimidade dos corpos e à sutileza interespecífica dos gostos. Ela pode permanecer intacta por anos, sem dar nenhum sinal de decaimento.[2] É nesse sentido que a imagem de Honorato se faz mais viva do que a própria comida.

Aqui, lembro-me de uma curiosidade acerca de um autorretrato de 1510, do Leonardo da Vinci que está sendo atacado por uma colônia de fungos. O desenho em sanguínea, cuja imagem se alterou consideravelmente pela presença do mofo, vem causando problemas institucionais e precisou ser isolado em uma caixa climatizada, para não contaminar as outras obras[3]. A imagem contaminada se tornou contagiante. O papel e a tinta se afirmam como suportes vivos. O futuro inevitável para o rosto de Da Vinci é ser inteiramente substituído pelo mofo. Sua face imortalizada, traduzida nas das feições do artista, no desenho de sua cabeça, supostamente seu espaço de elaboração mental, morrerá e dará lugar agora ao corpo digestivo – mas não menos subjetivo – dos fungos. 

Leonardo da Vinci, Autorretrato, 1510. sanguínea sobre papel (Autorretrato afetado com esporos de fungo)

Perder o controle sobre o crescimento de seres vivos dentro do próprio autorretrato significa perder o controle sobre aquilo que se apresentará, futuramente, como a própria imagem. Diferentes estágios do retrato de Honorato são vistos pelo público, dependendo do dia em que se visite a exposição: sua imagem está condicionada ao tempo, à temperatura, à umidade… Amanhã serei outro: serei fungo. Afinal, o mofo indica também uma intimidade fundamental. Exibe-se como um outro mundo que existe em nós, sem o qual não existiríamos. O estranho que inevitavelmente somos; o outro ser, a outra espécie à qual vivemos intimamente acoplades e que inevitavelmente nos forma. Mas, é também uma forma de perder o controle sobre o lugar de elaboração do próprio trabalho. Inoculando propositalmente fungos à sua imagem, o artista aponta para uma confusão entre o fazer artístico e a decomposição, uma confusão entre o retrato e o vivo. O trabalho desvia o trânsito do alimento dentro da cadeia de consumo: o que tem como destino a digestão, vai para a pintura; mas, o que é pintura, rapidamente apodrece. Entre a comida ensacada na loja e o apodrecimento, está o seu retrato. Condição mutável, que transita do ultra processado ao podre. Retratar a si mesmo como mofo é retratar-se como vivo, como mortal e, por isso, como incapturável.


[1] Retirado do artigo Digerir, de André Vargas e Jandir Jr, publicado em 2020 na Revista Concinnitas. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/concinnitas/issue/view/2435/showToc

[2] Há uma mítica que gira em torno da impossibilidade de apodrecimento do hamburguer do McDonald’s: https://f5.folha.uol.com.br/voceviu/2019/11/islandes-transmite-ao-vivo-na-web-sanduiche-de-fast-food-que-nao-apodrece-ha-10-anos.shtml

[3] Retirado do artigo Um cubo mofado, de Mônica Coster, publicado em 2020 na Revista Poiésis. Disponível em: https://periodicos.uff.br/poiesis/article/view/41039


[1] Pedro Paulo Honorato é artista visual, um matemático autodidata (com ênfase no estudo da teoria dos números e progressões geométricas), e é atendente em redes de fast food quando necessário. Ele vive na favela do Morro do Dendê, localizada na Ilha do Governador, Rio de Janeiro. Suas formações acadêmicas e artísticas são marcadas por sua passagem em instituições como a Universidade Estadual do rio de Janeiro, bolsas de estudo em programas de formação artística na Escola de Artes do Parque Lage, e na Escola Sem Sítio, no Paço Imperial. Suas principais manifestações artísticas são a pintura e o desenho contemporâneo, a colagem e a performance. Recentemente, Honorato vem usando em seu processo de criação, materiais apropriados das companhias de fast food que ele trabalhou nos últimos anos, como o McDonald’s, Habib’s e Bob’s, especialmente durante a pandemia. Uma vez dentro dessas empresas, Honorato se encontrou não só numa posição precária de trabalho, mas também em um lugar que se mostrou muito familiar. Três gerações de sua família trabalharam e ainda trabalham nessas franquias de fast food. Seus pais se conheceram em uma das primeiras franquias do McDonald’s no Rio, nos anos 80, durante o regime de ditadura militar. As experiências de Honorato rapidamente se tornaram em oportunidades de não só mergulhar em sua ancestralidade, mas de refletir no passado e no presente do seu estado e país natal, criando paralelos com outros países e o mundo. Links: http://pedropaulohonorato.cargo.site/ https://www.instagram.com/ohnorato/


Mônica Coster, 1995. Sou artista e pesquisadora de arte contemporânea. No meu trabalho com escultura, investigo a relação entre o campo da arte e os sistemas vivos. A simbiose e a co-dependência com outras espécies são estratégias que utilizo como forma de repensar a noção de “humano”. Desde 2019, me interesso por processos de digestão e decomposição: o meu interior digestivo como um sistema aberto a outros seres e objetos ligados à comida. Pratico a digestão escultórica e a escultura alimentar; proponho a confusão entre o ateliê e o estômago. Sou formada em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ e atualmente curso mestrado em Estudos Contemporâneos das Artes, na Universidade Federal Fluminense (UFF).

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