Crítica quinzenal Mônica Coster

Filmar o vivo

Ana Clara Mattoso[1] parece procurar algo na vegetação. Em Fecundar os ovos do mundo, sua câmera curiosa, olhos nas mãos, percorre freneticamente um terreno vivo e úmido. O vídeo me desestabiliza a escala do corpo: sou do tamanho de uma formiga a andar sobre uma esponja, ou os tentáculos dessa planta são enormes como grossas raízes? Estou dentro de um vaso em um apartamento, ou sobre um vasto terreno acidentado? Quem já brincou de filmar um corpo vivo com o super zoom da câmera sabe o quanto essa experiência pode ser assustadora. Quando mergulhamos na imagem aumentada ficamos diminutos e os seres que antes eram minúsculos a olhos nus, se tornam enormes criaturas, nos fazendo esquecer da estatura que antes pensávamos ter.

Ana Clara Mattoso. Frame do vídeo Fecundar os ovos do mundo, 2021, 2’32’’
Link: https://vimeo.com/535666771

Utilizar a câmera como dispositivo de transporte para escalas menores é um modo de filmar cujo objetivo não é apenas apresentar a coisa filmada para o mundo des humanes. O zoom tem a capacidade de “encolher” nosso olhar, para que possamos visitar[1] o mundo de outros seres. Como Ana Clara Mattoso aponta, não é possível negligenciar a recorrente redução de plantas a relações de consumo estético – situação que interessa particularmente ao campo da arte complexificar e elaborar. Nesse sentido, seu trabalho se coloca como  uma interface de diálogo com a planta filmada. Em alguns trechos do vídeo, que não foram cortados pela artista na edição, a imagem tenta se aprofundar no zoom, mas logo sai de foco. O desfoque é algo que geralmente evitamos em prol de uma imagem “limpa”, nítida, compreensível. No cinema, ele é tratado como um erro técnico que desestabiliza a nossa segurança visual e nos impede de enxergar com precisão as bordas entre uma forma e outra, entre a figura e o fundo. Mas, no vídeo de Ana Clara Mattoso, quando a câmera insiste em conhecer demais as estruturas da planta, tentando penetrar desenfreadamente nas suas células sob o regime da nitidez, são esses os momentos em que a imagem passa a ser uma zona de contato entre a filmadora e a coisa filmada. A planta devolve à imagem, o desfoque e, com ele, a expressão de seu modo de existência simbiótico, de fronteiras borradas (desfocadas) entre ela e seu meio: “Não se pode separar — nem fisicamente nem metafsicamente — a planta do mundo que a acolhe.”[2] Aqui, ao invés de pensarmos no humano como um ser que pode ver (e filmar) os outros seres, mas que nunca é visto (ou filmado) por eles[3], podemos interpretar tais zonas desfocadas como os momentos em que o Sagu se impõe sobre o vídeo, estabelecendo seu limite sobre a nitidez do instrumento, como quem diz: “Daqui pra frente, quem controla a imagem sou eu”.

Ana Clara Mattoso. Fecundar os ovos do mundo, 2021, 2’32’’.
Link: https://vimeo.com/535666771

Maria Palmeiro[1] é outra artista que se embrenha nas plantas através do vídeo. O título de seu trabalho, Entre no jardim, também propõe uma diminuição na estatura humana, nos convidando a caber dentro da vegetação. Agora o jardim está escuro e as plantas respiram como nós. O vídeo, dividido em 7 atos, começa com uma tela preta onde uma forma colorida vai se aproximando da câmera, até se mostrar ser uma Cana-do-brejo com flor. Aos poucos, vamos entrando no jardim e outras plantas e flores se apresentam, sempre no fundo preto, como um desfile de entidades elegantes, sob uma luz branca.

Um pequeno holofote que acompanha a performance das folhas e flores pisca em ritmos diferentes, como uma tradução luminosa do corpo vivo do vegetal. Ora rápida ora lenta, a luz pulsante parece indicar o movimento contínuo que existe dentro da planta e que é incapturável pelo vídeo. No entanto, o que parece ser um trabalho de montagem posterior, através da intermitência da imagem, se mostra como uma edição em tempo real. A artista segura a câmera em uma mão e a lanterna do celular na outra e, enquanto filma, acende e apaga a luz. Os dispositivos passam a fazer movimentos sinuosos ao redor das plantas, como se fizessem carinho nelas (sem tocá-las), se afastando e se aproximando de suas estruturas. A artista passeia pelo jardim flertando com as plantas através de um jogo erótico de esconder e revelar, emitindo, como um inseto, sinais luminosos de acasalamento. Nesse cortejo sexual da artista para a planta, a máquina se comporta como um bicho que cobiça o corpo vivo.

Aqui, não podemos perder de vista que interagir com as plantas, através do vídeo, é uma empreitada exclusivamente humana. Em seus mundos não existe tal coisa chamada arte. As plantas “demonstram uma indiferença soberana pelo mundo hu­mano, pela cultura dos povos, pela alternância dos reinos e das épocas”[1] Elas também demonstram indiferença pelas narrativas dramáticas, pela temporalidade imbuída de um clímax e pelo desfecho resoluto, que tão amplamente ansiamos encontrar no cinema. A planta resiste ao regime do protagonismo lírico, da performance para além de si mesma. Filmar uma planta em tempo real, significa entrar em confronto com a própria narrativa fílmica (penso no filme Empire, de Andy Warhol: o que estava sendo filmado ali? O protagonismo de um prédio ou o colapso do sistema narrativo de início – meio – fim?). Entrar no jardim, nesse sentido, não deixa de ser uma forma de acessar também a indiferença e a irrelevância de si mesme (des humanes) diante da outra espécie. Filmar uma planta é registrar, junto com sua imagem, a ineficiência da própria câmera enquanto instrumento bem sucedido de captura do movimento da vida.

Maria Palmeiro e Ana Clara Mattoso filmam outros viventes reconhecendo que elas mesmas são vivas. A partir do momento em que utilizam suas câmeras para se transformarem em pequenos seres a transitar pelo jardim, são seus próprios corpos, diante da vegetação, que estão sendo filmados ali. Então, uma série de questões aparece: Filmar um corpo vivo é sempre filmar a relação interespecífica de si mesme com esse corpo? O que vemos em seus vídeos, a vida das plantas ou a tentativa de redimensionar ê humane diante dessa outra forma de vida? Ou, em outras palavras: Filmar pode ser uma interação ecológica?


[1] Retirado de A vida das plantas, de Emanuele Coccia, editora Cultura e Barbárie, p. 12.


[1] Maria Palmeiro é artista e pesquisadora. Doutoranda no Programa de Estudos Contemporâneos das Artes da UFF, onde pesquisa/produz o entrelaçamento entre pensamento, escrita e prática.  https://mariapalmeirodotcom.wordpress.com


[1] Em A cosmopolítica dos animais, Juliana Fausto diz que pensar é um modo de visitar outres autories e outros seres (p. 15). Tomando como inspiração esse pensamento, sugiro que filmar também é um modo de visitar.

[2] Retirado de A vida das plantas, de Emanuele Coccia, editora Cultura e Barbárie, p. 13.

[3]  “Pretendo, assim, escapar àquilo que Jacques Derrida chamou de o filosofema, o discurso que toma abstratamente os animais outros que humanos como uma imensa categoria de seres indistintos e que não se permite ser visto por eles, entrar em relação com ele” Retirado de A cosmopolítica dos animais, de Juliana Fausto, 2020 editora n-1, p. 15.


[1] Cineasta e artista visual, Ana Clara Mattoso é mestranda no Programa de Pós Graduação em Estudos Contemporâneos das Artes – UFF, onde investiga como os rastros do desaparecimento podem apontar rotas alternativas aos projetos de destruição. Sua prática vem se desenvolvendo a partir de um pensamento sobre a coleta dos rastros e memórias que habitam as ruínas dos nossos tempos. Em cooperação a outros seres, como plantas e fungos, fabula narrativas em vídeos, objetos e instalações.https://vimeo.com/user76925820


Mônica Coster, 1995. Sou artista e pesquisadora de arte contemporânea. No meu trabalho com escultura, investigo a relação entre o campo da arte e os sistemas vivos. A simbiose e a co-dependência com outras espécies são estratégias que utilizo como forma de repensar a noção de “humano”. Desde 2019, me interesso por processos de digestão e decomposição: o meu interior digestivo como um sistema aberto a outros seres e objetos ligados à comida. Pratico a digestão escultórica e a escultura alimentar; proponho a confusão entre o ateliê e o estômago. Sou formada em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ e atualmente curso mestrado em Estudos Contemporâneos das Artes, na Universidade Federal Fluminense (UFF).

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