Crítica quinzenal Mônica Coster

Terral e Tenebroso

Agente-húmus é como a pesquisadora e artista Marina Fraga chama a “entidade imaginária” que “propõe reflexões, intervenções e interações de compostagem política na natureza”[1]. Ao falar de artistas que atuam como agente-húmus, Fraga menciona obras de arte em que a natureza é “agenciada pelo humano [e] atravessa o espaço expositivo”, ou vice-versa. O que está em jogo aqui é a resistência dos espaços expositivos em perceberem-se como natureza, ou mesmo como espaço vivo, insistindo em reconhecê-la como algo que poderia ou não habitar o museu, que poderia ou não figurar como assunto de uma obra de arte. É por isso que James Nisbet[2] afirma que todo objeto de arte é um objeto ecológico. Não por sua essência material, mas porque ele está sempre embrenhado em uma rede de relações que se move e se transforma. Um objeto de arte sempre esbarra em um corpo vivo.

            Um dos primeiros trabalhos da exposição Dizer Não, em cartaz do Ateliê 397, é Tenebroso. De autoria de Cleverson Salvaro e Frederico Filippi[3], o trabalho é uma estrutura diagonal, que lembra um mostruário, construída com madeira e janelas cobertas de insulfilme preto. Os artistas explicam que as janelas foram apropriadas de uma reforma que acontecera no mesmo prédio da exposição, uma antiga confecção têxtil e que os vidros escuros serviam para ocultar o que se passava no interior da fábrica. A princípio, essa mesma sensação de opacidade é replicada no trabalho: não vemos o que há dentro dele, embora seja possível presumir que a estrutura guarda algo em segredo. Com certo medo e apreensão, quando colamos o rosto do vidro, vemos uma enorme quantidade de larvas do besouro Tenebrio.

Tenebroso, 2021, Frederico Filippi e Cleverson L. Salvaro. Vidro, alumínio, insufilm, tinta esmalte preta, compensado, larvas de tenébrios e isopor,123 x 166 x 163 cm.

            A montagem de um recinto para os insetos feito com as janelas da antiga fábrica atribui um caráter produtivo e econômico ao Tenebrio. De fato, ele é um dos insetos de maior valor comercial atualmente, e é cultivado por empresas a fim de compor as rações destinadas aos animais na indústria. Os Tenebrios são comidos por galinhas, que são comidas por humanes que, por sua vez, observam Tenebrios crescendo dentro da exposição.

            Entretanto, esse não é o único segredo do trabalho. Dentro de Tenebroso, as larvas se alimentam de uma escultura de isopor cujo formato replica a mesma forma da estrutura exterior. “Elas comem de tudo”, diz um produtor de Tenebrios em uma reportagem deste ano, que saiu jornal. Elas comem polímetros não biodegradáveis. Elas comem até escultura. Dessa maneira, o trabalho se infiltra indiretamente na cadeia alimentar, servindo paradoxalmente como uma base sintética para o ciclo orgânico de nutrição. O início da cadeia passa a ser a peça de isopor escondida dentro de Tenebroso, o que aponta para uma condição fictícia onde os artistas se tornam seres autotróficos capazes de produziro seu próprio ciclo nutritivo a partir de uma obra em isopor.

Ao lado de Tenebroso, está Terral, uma instalação que se impõe aos olhos como uma árvore. No entanto, o trabalho ancora não no solo, mas no teto. Grandes redes feitas de pano embebido em argila pendem por cordas, formando pesados bolsões tensionados. Dentro deles, encontram-se grandes quantidades de terra semeada: feijão, maracujá, abóbora, tomate, jabuticaba, milho e jussara. Essas plantas, que também são alimentos, nascerão e crescerão ali durante a exposição. No chão, um lago de água translúcida, contido por um amontoado de terra, demarca a área do trabalho. Um sistema de irrigação elétrico puxa água desta grande poça e espirra na terra, através de pequenos dutos.

Terral, 2020/2021, Lícida Vidal. Argila, tecido, composto, cabo sisal, plástico, água, sementes. 3x2x5 metros.

A artista Lícida Vidal[1] destaca a importância da bolsa em seu trabalho: esse teria sido o primeiro instrumento criado pela humanidade. Cabe mencionar que não estamos falando apenas do passado, mas também de um presente continuado. Antes mesmo da faca, necessitamos da bolsa. Ferramenta de transporte, de preservação, de memória. Carrega-se o necessário mas, principalmente, carrega-se o possível. Aqui, carrega-se uma amostra do ecossistema. Fantasio sobre Lícida ser uma nômade de espaços expositivos, artista migratória que, em seu percurso pelas zonas estagnadas, cria hortas comestíveis. O público se alimenta de sua obra e lembra que, enquanto vê, também digere.

            Rememoro a atuação do agente-humus: ele propõe um atravessamento da natureza dentro do museu (não consigo deixar de lembrar do trabalho Living room, de Roderick Hietbrink). Mas, já não seriam todos os viventes, um atravessamento da natureza no espaço expositivo? As grandes bolsas de terra de Lícida talvez sejam formas de mostrar o ecossistema que invariavelmente nos acompanha aonde quer que estivermos. Em um só dia de vida, movemos pastos, riachos, ventos, gases, seiva, fungos, bactérias. Terral é o adjetivo para o que nunca poderemos deixar de ser um só segundo: podemos ser nômades, mas nunca nômades da Terra.

Em Dizer Não, tenébrios e plantas crescem lado a lado. Esses dois trabalhos anunciam um descontrole sobre a própria conformação escultórica. Em vez de formas estáticas, encontramos conformações instáveis cuja constante digestão e respiração excede a funcionalidade do próprio objeto de arte. “[…] um organismo em equilíbrio é um organismo morto”[1] E, por isso, o risco da morte os acompanha. Se, por um lado, Terral dá a ver a simbiose necessária entre humanes e húmus, por outro, a instalação carrega a terra como uma memória trágica através disso que chamamos de antropoceno. Já Tenebroso estará em pouco tempo abarrotada de larvas que consumirão a própria cápsula de madeira que as comporta. A escultura, feita para virar comida de besouro, anuncia um apocalipse ambiental do qual, talvez os únicos sobreviventes sejam os seres que metabolizam polímeros. Porém, se trago aqui uma perspectiva trágica é porque o agente-húmus, em consonância com a proposta curatorial dessa exposição, também carrega em si uma ambiguidade: “Pré-histórico ou pós-histórico, o exercício da imaginação do futuro está próximo das figurações das artes […] Nesta projeção, utopia e distopia são apenas dois lados do espelho, dois reflexos idealizados de um futuro incerto.”[2]

– A exposição Dizer Não, com organização de Adriana Rodrigues, Edu Marin, Érica Burini e Thaís Rivitti, está em cartaz do Ateliê 397,Rua Cruzeiro, 802 Barra Funda. São Paulo – SP, atá dia 19 de setembro de 2021.


[1]Retirado de A teia da vida, de Fritjof Capra, São Paulo: Cultrix, 1998.

[2]Idem, p. 326.


[1] Lícida Vidal, 1984, é artista visual, vive e trabalha em Ubatuba-SP. Cursou Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (USP) e é licenciada em Sociologia pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Através de ações performáticas, fotografia, vídeo e instalações, sua pesquisa atravessa questões sobre o gênero feminino e a natureza. A argila e a água, são as suas principais matérias que possuem uma carga simbólica dentro deste debate sobre interdependência, escala, territórios, diversidade e coexistência no processo de colapso do antropoceno. Já participou de diversos salões e exposições no litoral norte e região. Também integra o Coletivo Vozes Agudas, grupo de estudos e intervenções com ênfase feminista, foi assistente de produção e assistente de curadoria da primeira edição do Prêmio Vozes Agudas para Mulheres Artistas em 2020. Realizou em 2020 a Residência na Usina de Artes em Água Preta – PE e agora em 2021 participou da exposição Dizer Não realizada pelo Ateliê 397. Contato: licidavidal@gmail.com, licidavidal.site.


[1]Retirado da tese de doutorado Do Fóssil ao Humus: Arte, Corpo e Terra no Antropoceno, de Marina Frega. Universidade Estadual do Rio de Janeiro, 2016, p. 325.

[2]Ecologies, Environments. and Energy Systems in Art of the 19605 and 1970s, James Nisbet, 2014.

[3]https://fredericofilippi.com/ e https://conecta.bio/cl_salvaro


Mônica Coster, 1995. Sou artista e pesquisadora de arte contemporânea. No meu trabalho, investigo a relação entre o campo da arte e os sistemas vivos. Tenho interesse pelos processos de digestão e decomposição: o meu interior digestivo como um sistema aberto a outros seres e objetos ligados à comida. Pratico a digestão escultórica e a escultura alimentar; proponho a confusão entre o ateliê e o estômago. Sou formada em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Estudos Contemporâneos das Artes, pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Contato: costerponte@gmail.com

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