Crítica quinzenal Juliana Cunha

O BALÉ TRIÁDICO

Balé Triádico, 8’29’’
Fonte: Triadisches Ballett von Oskar Schlemmer – Bauhaus (Best Quality)

O Balé Triádico foi um espetáculo idealizado por Oskar Schlemmer, pintor e professor de teatro da Bauhaus, uma escola de arte revolucionária instituída na Alemanha no início do século XX. A primeira apresentação desse balé data de 30 de setembro de 1922, em Stuttgart, mas são conhecidos estudos anteriores a essa data.

Há uma profunda relação entre os interesses desse balé e os pensamentos que guiavam aquele ambiente de ensino, sobretudo nos primeiros anos, enquanto a escola esteve sob a direção de Walter Gropius, seu fundador. Havia uma preocupação, nos primeiros anos da Bauhaus, com a reconstrução do país destruído pela primeira guerra mundial. A realidade específica da Alemanha, imersa na destruição física e moral, e sob o peso de uma grande dívida econômica, em razão do tratado de Versalhes, estimulava os artistas a se aliarem à busca por uma solução.

Para Gropius, era necessário criar uma arte em que a forma estivesse em harmonia com a função. Uma arte em escala industrial, que humanizasse a maquina e embelezasse os produtos do mercado, tornando-os mais interessantes e atrativos. Para que houvesse uma superação na nação, era necessário que a arte abandonasse as questões sentimentais presentes no expressionismo alemão (movimento anterior), e a razão os guiasse para uma nova fase.

Para Gropius, a racionalidade, livre de qualquer ideologia, estava conectada com as sociedades no sentido universal. Nas artes, isso encaminhou para uma valorização das formas geométricas, que em sua beleza matemática estiveram presente na origem de todas as sociedades, como nas pirâmides e nos padrões decorativos geométricos encontrados em diversas culturas.

Por isso, nessa primeira fase da Bauhaus nota-se a busca pela simplificação dos volumes e a geometrização das formas, predominando linhas retas em detrimento da decoração excessiva. Exaltavam-se também as cores primárias e as formas elementares: o triângulo, o quadrado e o círculo.

Tais escolhas também são visíveis no Balé Triádico. Ele possibilitou uma ampliação das investigações poéticas e filosóficas da Bauhaus, direcionando os conceitos da escola, antes voltados à arquitetura e à produção industrial, para o corpo humano.

Balé Triádico, 16’02’’
Fonte: Triadisches Ballett von Oskar Schlemmer – Bauhaus (Best Quality

O “Triádico” nesse Balé não é ocasional, e carrega uma carga simbólica. Pela perspectiva de Schlemmer, o número “um”, do solo, revela egocentrismo e individualismo, e o “dois”, uma cumplicidade e dualidade a serem transcendidas. Um artista bauhausiano, que se preocupava com o meio social, não teria a linguagem subjetiva do solo, e uma escola que buscava uma relação com a sociedade, não se limitaria à relação fechada da dupla. Logo, escolheu-se o três: o primeiro número que simboliza o coletivo.

Planejado para três pessoas, dois bailarinos e uma bailarina, o Balé Triádico é também dividido em três atos. São doze danças e dezoito figurinos, números múltiplos de três. Têm-se também várias tríades, como forma, cor e espaço; altura, profundidade e largura; esfera, quadrado e triângulo e magenta (rosa), ciano (escurecido, que se torna o preto) e amarelo.

Os três atos que formam o espetáculo são compostos por cenas de dança estilizadas realizadas sob três fundos que marcam cada ato e transformam o humor da dança.

A primeira é um burlesco alegre com o palco decorado com cortinas amarelo-limão caído. A segunda é cerimonial e solene, encenada num palco cor de rosa. E a terceira é um gênero fantástico-místico num palco preto (SCHLEMMER apud GROPIUS, 1961, p. 34).

Nota-se, nessa sequência, uma expansão do indivíduo para o mundo, do eu para o coletivo. Partindo do temperamento humano em sua primeira etapa, o espetáculo torna-se gradualmente abstrato, tendo seu apogeu no terceiro ato, um espetáculo completamente fantástico.

Balé Triádico, 24’43’’
Fonte: Triadisches Ballett von Oskar Schlemmer – Bauhaus (Best Quality)

No balé há uma forte influência de Kandinsky, tanto pela plasticidade da apresentação, como no estudo das relações entre as cores e as sensações, ou das formas geométricas mais potentes para cada momento de dança. Nota-se também uma influência do método de dança de Rudolf Laban, sobretudo no estudo dos limites do corpo no espaço. Além disso, é igualmente conhecida a influência da linguagem do teatro de marionetes.

Schlemmer via uma potência nos movimento dos títeres, uma superioridade estética frente aos gestos humanos imprecisos. Por isso, propôs que os bailarinos realizassem uma coreografia que se aproximasse desses gestos estilizados. Valorizou a repetição de passos simples, como levantar e abaixar as mãos, que eram realizados tanto com a rigidez matérica quanto com a leveza da marionete.

Todos os 18 figurinos do espetáculo possuem a estrutura racional-geométrica da estética construtivista exaltada por Walter Gropius, sendo, na maioria das vezes, mais formas que montam corpos do que roupas. Os trajes são pesados, devido sua tridimensionalidade exacerbada e o uso de materiais que dificultavam os movimentos. São acolchoados por dentro e feitos de madeira ou papel maché, tendo coberturas metálicas. O uso de máscara também é comum, e fortalece a ausência de sentimentalismo nesse balé. A escolha de tais materiais, que constringiam o livre movimento, exigia uma nova postura dos bailarinos.

Figurinos do Balé Triádico, 1926
Fonte: Iara – Revista de Moda, Cultura e Arte

Essa nova postura, que lembra os marionetes, também evoca um corpo mecânico. Nesse sentido, a indústria e a máquina, que possuem uma estética rígida e racional, também se revelam nos movimentos dos bailarinos, e a pesquisa bauhausiana, presente na arquitetura e nas peças criadas na escola, também sobe ao palco.

Sob esse calculo rigoroso entre corpo e espaço, o balé transformou-se em uma dança da fábrica, uma arquitetura, um objeto belo e útil. O corpo desumanizado não se entrega à emoção, mas ao equilíbrio da matemática. É um organismo técnico, consciente do trabalho e que personifica o racionalismo.


REFERÊNCIAS

ARGAN, Giulio Carlo. Walter Gropius e a Bauhaus. São Paulo:José Olympio, 2005.

BOCCARA, Ernesto Giovanni; CARVALHO, Agda Regina. Ballet Triádico da Bauhaus: pesquisa, experimentações e execução. Reflexões e registros do percurso de uma reconstituição. IARA – Revista de Moda, Cultura e Arte, 2009. Disponível em: http://www1.sp.senac.br/hotsites/blogs/revistaiara/index.php/ballet-triadico-da-bauhaus-pesquisa-experimentacoes-e-execucao-reflexoes-e-registros-percurso-de-uma-reconstituicao/

GROPIUS, Walter. O Manifesto da Bauhaus de 1919. Goethe Institute. Trad: Laís Kalka, 1919. Disponível em: https://www.goethe.de/ins/br/pt/m/kul/fok/bau/21394277.html

KLEIST, Heinrich Von. Sobre o Teatro de Marionetes. Trad: Prof. Ianchelli Ghinzberg, 1810. Disponível em: https://pontocinza.files.wordpress.com/2008/03/heinrich-von-kleist-sobre-o-teatro-de-marionetes.pdf

MARTÍNEZ, Aitor Merino. Triadisches Ballett von Oskar Schlemmer – Bauhaus (Best Quality), 2013, (30’23’’): https://www.youtube.com/watch?v=mHQmnumnNgo

SCHAFFNER, Carmen Paternostro. A dança expressionista alemã: contribuições e incentivos para a dança na Bahia. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal da Bahia. Escola de Dança, Salvador, 2008. Disponível em: file:///C:/Users/juhcu/Downloads/Disserta%C3%A7%C3%A3o%20Corrigida%20(1).pdf


Juliana Cunha é escritora de terror, mestre em artes pelo PPGARTES / UERJ e bacharel em história da arte pela mesma universidade. Estuda arte moderna, com foco no expressionismo e nas questões da subjetividade, da morte e do maligno em distintas manifestações artísticas. É Assistente de Curadoria da Casa Museu Eva Klabin (2021) e atuou como Assistente de Coordenação do Setor Educativo da Casa Museu Eva Klabin entre 2017 e 2021.

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