Crítica quinzenal Mônica Coster

Com o pulmão nas mãos

            Quando respiramos, o ar escala nossa cavidade nasal como se ela fosse uma montanha. Subida e descida para entrar, subida e descida para sair. Esse é um caminho conhecido. O ar o percorre todo dia, toda hora, todo segundo. Podemos pensar na respiração como um constante subir e descer; um ininterrupto movimento em aclive e declive; uma repetida atividade de esforço e alívio.

            Se fôssemos traçar o caminho que o ar percorre em nosso corpo, o desenho seria parecido com um U ao contrário. Essa é a forma que Davi Pereira[1] usa para transpor sua respiração para o papel: sem tirar a caneta da folha, ele faz um risco curvo a cada inspiração e outro a cada expiração. Num contínuo vaivém, o artista sobe e desce a linha repetidas vezes pelo mesmo arco acompanhando seu próprio ritmo respiratório. Enquanto respira, ele risca. A linha se torna o ar e o papel, o corpo.

Série Sísifo, Sem título. Caneta nanquim sobre papel, 2020.
Série Sísifo, Sem título. Caneta nanquim sobre papel, 2020.
Série Sísifo, Sem título. Caneta nanquim sobre papel, 2020.

Davi me explica que o trabalho é uma coleção de desenhos pertencentes à Série Sísifo. O mito grego de Sísifo conta a história do “herói absurdo” que, por ter contrariado os deuses, foi condenado ao trabalho inútil de rolar eternamente uma pedra até o alto de uma montanha. Toda vez que chega ao topo, Sísifo desce para rolar novamente a mesma pedra. Mas a Série Sísifo incide sobre a releitura de Albert Camus do mito. Para ele, a questão deixa de ser o trabalho árduo e eterno de Sísifo e se torna o modo que o herói encontra de escapar do sofrimento, dentro da condenação. Sísifo aprende a abolir a esperança de que a tarefa chegará ao fim e passa a viver apenas o momento presente. Ele é dono de si a cada instante em que trabalha, e o faz através da consciência de seu corpo: “Mesmo se, em toda parte, a razão debate-se com as paredes, Camus revela que há uma saída para que o homem e a terra se encontrem. Este encontro acontece através do corpo que, sendo igualmente matéria, pertence mais intimamente à terra […]”[1]. Sísifo se funde à pedra que carrega através do que Joseph Beuys chama de “unidade temporária” entre corpo e alma. Para Beuys, que interpreta o texto do autor francês, o mito é uma alegoria ao sofrimento do homem que não se vê como pertencente à terra.

            Vinculado a Sísifo através da repetição, Davi repete com vontade: os desenhos retomam a consciência de sua respiração e o pulmão o resgata para o momento presente em que risca o papel. Agora, Sísifo desce aliviado e medita no meio de seu castigo. Pergunto: as obras de arte também são capazes de formar “unidades temporárias” com a terra e com o corpo? É possível um trabalho de arte ser tão colado ao corpo (assim como Sísifo é tão colado à pedra) a ponto de dispensar qualquer resquício da razão do público e dê artista? E ainda: diante do império dos objetos estéticos, das mercadorias de arte, é possível que um trabalho seja sempre presente, incessantemente presente (e aqui, oponho o presente à razão), como é a respiração?

            Na medida em que os gestos de respirar e desenhar se fundem e o movimento das mãos no papel respondem ao ritmo do pulmão, os desenhos da Série Sísifo são registros de um tempo vivido. Ou melhor, de um tempo respirado. Eles se mostram para nós, público, no aqui e agora, como experiências de quem sabe usar o aqui e agora como matéria para o próprio trabalho. “Minha vida é o tempo da vida, o tempo da vida é tempo da arte”[2], explica Tehching Hsieh, quando Davi o pergunta sobre suas performances. Da mesma forma, seus desenhos são um atestado de que o corpo apenas vive e que viver é ferramenta suficiente.

Série Sísifo, Sem título. Caneta nanquim sobre papel, 2021
Um minuto de respiração. Caneta nanquim sobre papel, 201

Em uma entrevista de 1977, intitulada Sobre desenho, o artista norte-americano Richard Serra diz que: “O pensamento não é o modelo. A experiência no desenho não é obtida por meio da linguagem. […] O desenho é uma maneira pela qual eu levo adiante um monólogo interior com o ato de fazer no momento exato em que é feito” . Serra menciona ainda a relação entre desenhar e se concentrar de maneira contínua e profunda, e diz que “o desenho é uma forma de meditação”. Para ele, o ato de desenhar está ligado a um exercício de continuidade presentificada com o mundo assim como, de certa forma, a libertação de Sísifo. O desenho é entendido mais como um momento do que como um objeto e, por isso, desenhar pode ser uma tarefa sem fim. Ela é uma experiência em curso através da qual o corpo pode existir enquanto desenho, no momento justo em que se desenha.


Diante dessa ferramenta de “fazer no momento exato em que é feito”, Davi libera sua respiração para que ela e o desenho sejam indistintos no momento do traço. Mas, isso seria o bastante para dizermos que o desenho é vivo? Posso pensar então que é a respiração de Davi que acompanha o desenho, e não o contrário. O desenho que dá ritmo ao corpo, é ele que manda no pulmão e, por isso, manter a caneta no papel se torna essencial. Tirá-la significaria morrer (sucumbir ao sofrimento eterno). Com o pulmão controlado pelas mãos, o artista delega sua respiração ao trabalho, deixa-se controlar por ele. “We all begin in life because someone once breathed for us” , escreve NourbeSe Philip no ensaio Ga(s)p. Ela diz que a respiração é circular e passível de ser transmitida: “I can’t breath; I will breath for you”. Um trabalho de arte pode respirar por mim? Os desenhos da Série Sísifo se parecem com mapas para a respiração. Eles dão o comando do ar, eles dizem: “Respire! Respire comigo! ”, e demonstram, no papel, o mesmo exato movimento que o corpo faz enquanto os observa, no aqui e agora.


[1]     Retirado do ensaio Camus – O mito de Sísifo, de Joseph Beuys (tradução de Alexandre Sá e Davi Pereira), publicado em 2019 na Revista Concinnitas: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/concinnitas/article/view/47983, Acessado em 27 ago. 2021.

[2]     Retirado de Entrevista com Tehching Hsieh, realizada por Davi Pereira, publicada em 2021 na Revista Concinnitas: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/concinnitas/article/view/58535/38079, Acessado em 27 ago. 2021.


[1]     Davi Pereira, 1982; Vive e trabalha no Rio de Janeiro; É Artista visual, performer e pesquisador; Doutorando pelo Programa de Pós-graduação em Artes da UERJ, Mestre com estágio Docente em Ciência da Arte pela UFF, Bacharel em Artes Plásticas pela UERJ; É Editor Executivo da Revista Concinnitas, do Instituto de Artes da UERJ, colunista da Plataforma acritica.org, integra o Grupo de Pesquisa “A arte contemporânea e o estádio do espelho”, certificado pelo CNPQ. Desde 2002 participou de diversas exposições coletivas e individuais, no Brasil e no exterior.  Integrou o Festival Performance Arte Brasil, em 2011 no MAM RJ, com curadoria de Daniela Labra. De 2006 a 2009 foi bolsista de 3º grau como Artista visitante da UERJ. Tem especial interesse nas investigações acerca do corpo do artista, de onde se ramificam suas produções nas mais diversas mídias. Pesquisa as possibilidades da arte nos movimentos cotidianos e nas frestas da vida, em refluxo à biopolítica contemporânea. https://davipereira.vsble.me/


Mônica Coster é artista e pesquisadora. Em seu trabalho, investiga a relação entre o campo da arte e os sistemas vivos. Tem interesse pelos processos de digestão e decomposição: o corpo digestivo como um sistema aberto a outros seres e objetos ligados à comida. Pratica a digestão escultórica e a escultura alimentar; propõe a confusão entre o ateliê e o estômago. Possui graduação em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestrado em Estudos Contemporâneos das Artes, pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: