Crítica quinzenal Mônica Coster

Fabulações Fermentativas de Sofia Mussolin

Sofia Mussolin[1] cria as condições necessárias para a emergência de sua matéria. Não se trata de comprar, coletar ou mesmo fabricar o material. Seu trabalho é a repetição diária e constante de determinadas circunstâncias ambientais que propiciam o surgimento de uma colônia de seres vivos. Ela nos dá a receita: “A kombucha, essa colônia de microorganismos, reproduz a partir de um scoby: comunidade simbiótica de bactérias e leveduras. Um starter,uma isca que, em imersão em um cultivo de chá com cafeína e açúcar, pode fermentar e formar uma nova colônia”[2]. Ao invés de adquirir e labutar um material para que ele se torne um objeto, seu trabalho propõe uma reflexão anterior: ver emergir e desaparecer um material vivo sem formato previsível e sem funcionalidade aparente.

Sofia Mussolin. Restos da performance Velar o véu, em instalação na Galeria do Centro Cultural Light, 2018 e Biblioteca do Parque Lage, 2019. (Fotografia da autora)
Sofia Mussolin. Toque ao coração, cultivo da colônia de microorganismos com hibisco, 30cm de diâmetro, 2021

O resultado disso, não podendo ser apenas uma escultura ou uma imagem desprendida de seu processo de feitura (pois isso não caberia na complexidade da experiência), é uma vivência muito particular da artista com o tecido orgânico, que se desdobra em diários, vídeos, fotografias, sons, relatos e receitas. Um trabalho que é uma convivência íntima, tão íntima quanto a simbiose obrigatória que ocorre incessantemente no interior de nossos corpos, para que possamos permanecer vives. Nesse sentido, Sofia Mussolin reproduz em seu trabalho as mesmas condições de temperatura, umidade e alimento que proporcionam a existência da vida e, portanto, de seu próprio corpo, no planeta. Enquanto o trabalho guarda uma memória atual da origem da primeira bactéria no mundo, ele também nos lembra que essa condição original se repete diariamente, através de um equilíbrio instável e frágil.

Diversas questões que abordei ao longo da escrita dessa coluna aparecem também no trabalho de Mussolin: De que maneira é possível ativar vivências viscerais e moleculares “(psicoemocionais orgânicas”, nas palavras de Artur Barrio[1]) nos espaços destinados à exposição de arte? Como sensorializar a política e os discursos? Como des-esculturalizar um corpo vivo? E ainda: É possível incluir as escalas não-humanas, presentes em nossos corpos, na experiência estética?

Essa última questão aparece em seu vídeo Fabulações Fermentativas, onde a artista filma o processo de fermentação da kombucha junto com suas mãos manipulando o biofilme elástico que dá forma à colônia que cresce em seu ateliê. Aqui, é interessante considerar que o biofilme é um agrupamento de bactérias e leveduras grande o suficiente para ser visto e manuseado por um corpo de dimensões humanas. A narradora diz: “Eu lido com três escalas: micro, escala humana e macrocósmica”. Porém, ao mesmo tempo, ela mistura e confunde as três escalas corpóreas em suas imagens, dando a entender que essas e outras tripartições são sustentadas pelas invenções evolucionistas. Considerando as reflexões que entendem a espécie comouma criação científica do ocidente que serviu, até agora, à dominação racial e interespécies (questões discutidas em O aberto, deGiorgio Agambem e em Simians, Cyborgs and Women, de Donna Haraway) talvez seja interessante considerar a categoria humana como a invenção, também, de uma escala. Uma escala arbitrária que cunha determinada perspectiva espacial intransponível, ao passo que restringe o corpo a ser um instrumento de medida, supostamente alheio às dimensões do mundo sobre as quais não pode intervir. Se, como aponta a artista, “a revolução vai mexer no microorganismo das pessoas”[2], talvez ela também nos jogue em um mundo sem lugar para tamanhos puramente humanos, onde outra escalas também coabitem em nós.

Sofia Mussolin. Registro cotidiano.

[1] Retirado do texto “Meu trabalho está ligado a uma situação subjetiva/objetiva -:-mente/corpo.” (1970) de Artur Barrio, disponível em: http://arturbarrio-trabalhos.blogspot.com/search?updated-max=2009-04-18T20:24:00-03:00&max-results=100&start=22&by-date=false

[2]Sofia Mussolin cita Zé Celso no vídeo Fabulações Fermentativas (https://www.youtube.com/watch?v=X1LK43Wyvqg&t=537s). Fala retirada do livro Primeiro ato: cadernos, depoimentos, entrevistas (1958-1974), de José Celso Marntinez Corrêa; seleção, organização e notas de Ana Helena Camargo de Staal, Editora 34, 1998.


[1] Sofia Mussolin é artista-pesquisadora e desenvolve sua linguagem artística na intersecção entre fotografia, audiovisual e performance com discussões acerca do Antropoceno, cosmologias e epistemologias do sul em relação entre corpos sencientes e seus territórios. Atualmente se concentra nas interações multiespécies e perspectivas além-humanas de habitar o mundo através do cultivo da colônia de microorganismos (Kombuchá), a artista visa expor as afinidades subjetivas de simbiose e composição da matéria orgânica em processo de fermentação com a constituição e ocupação da América Latina. Formada em Imagem e Som pela UFSCar, cursou Design e Multimédia na Universidade de Coimbra (Portugal) através do Programa Santander de Bolsas Luso-Brasileiras, é mestre pelo PPGAV/UFRJ e atual doutoranda pelo PPGCA/UFF, em que é pesquisadora vinculada ao BrisaLAB – Laboratório de Pesquisa em Performance + Mídia Arte + Questões Ambientais/UFF (FAPERJ).

[2] Encarnada, Sofia Mussolin: https://www.youtube.com/watch?v=KiLo2dAwOX4


Mônica Coster é artista e pesquisadora. Em seu trabalho, investiga a relação entre o campo da arte e os sistemas vivos. Tem interesse pelos processos de digestão e decomposição: o corpo digestivo como um sistema aberto a outros seres e objetos ligados à comida. Pratica a digestão escultórica e a escultura alimentar; propõe a confusão entre o ateliê e o estômago. Possui graduação em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestrado em Estudos Contemporâneos das Artes, pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

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