Crítica quinzenal Juliana Cunha

BUTOH: O COLAPSO DO MUNDO NO CORPO

Companhia Sankai Juku | Espetáculo “Hibiki” 
Fonte: Wikidança.net

O Butoh foi uma dança desenvolvida no Japão pós Segunda Guerra Mundial, que tem filosofia e estética relacionadas aos dilemas vividos por uma sociedade destruída econômica, moral e fisicamente. A isso, se deve muitos fatores, dos quais ressaltaremos dois.

Primeiro, o efeito das bombas atômicas “Little boy”, lançada em Hiroshima, e “Fat Man”, em Nagasaki. Estima-se que 140 mil civis morreram no primeiro caso e oitenta mil no segundo, sendo estas estimativas baixas, pois não levam em consideração as mortes posteriores por radiação.

Segundo, a Guerra Fria. Com o fim da Segunda Guerra Mundial e início da Guerra Fria, o Japão se viu impelido a forma uma aliança com os Estados Unidos, que se concretiza na presença militar norte-americana e em uma interferência política, econômica e cultural na vida do país oriental. É neste contexto opressão e trauma que surge o Butoh.

Em 1954, o encontro dos dançarinos Tatsumi Hijikata, que já realizava em bares e cabarés de Tókio ações performáticas que questionavam a interferência americana, e Kazuo Ohno, um talentoso dançarino contemporâneo, resulta em uma parceria criativa. Surge o desejo de subversão à hegemonia estadunidense e uma vontade de expressar no corpo o colapso do mundo.

Frame 2’10’’: Hijikata Tatsumi / Hosotan (Part 1)
Fonte: youtube < https://www.youtube.com/watch?v=mcaot0-deck >

Em um primeiro momento, como é visível no espetáculo Hosotan (1972), de Tatsumi Hijikata, a fuga do imperialismo se concretiza no retorno às origens japonesas. Valoriza-se às lendas, musicas e trajes locais, retorna-se para o período do Japão fechado, anterior às interferências externas. Este ato propõe uma conservação da identidade japonesa, e é posteriormente ampliado para uma busca pelos elementos e sentimentos de toda a humanidade, não só locais.

Com o aprofundamento dessa pesquisa teórica e coreográfica, sobretudo na figura de Kazuo Ohno, se desenvolveu uma técnica nova para esses interesses, que seria batizada, originalmente, de Ankoku Butoh, cujo significado é “Dança da total escuridão” ou “Dança das trevas”. O aspecto sombrio das apresentações é notável, e há indicativo de que a coreografia Hexentantz II, da dançarina alemã Mary Wigman, tenha sido uma inspiração. Já trabalhamos essa dança em outro artigo aqui da Revista Resvio.

A palavra Butoh contém o ideograma “bu”, que significa dança, e “toh”, que é pisar. Relaciona-se com a lenda xintoísta da deusa Ame-no-Uzume-no-Mikoto, que retira suas roupas, profere profecias e dança como se estivesse possuída.

A valorização de elementos da cultura popular resguarda o interesse dos dançarinos de estabelecerem, nesse ato de pisar, um contato com a terra no seu caráter primigênio. Nesse sentido, o butoh busca um retorno àquilo que é entendido como primeiro, não com um caráter pejorativo, mas na tentativa de lidar, no corpo, com as questões universais.

Não há movimentos definidos para execução, pois não existe modelos. O butoh se alimenta de elementos da vida real expandindo seus significados através do uso do tempo, da repetição e do espaço. A técnica consiste mais no treino, do que no resultado final, e os movimentos cotidianos são trabalhados com rigor, sendo potencializados. Tem por tema questões profundas, como a morte e o nascimento, o feminino e o masculino, o inconsciente e o consciente, entre outros.

Apresenta uma preferência pela precariedade e pela imperfeição do movimento, pois não se baseia no virtuosismo técnico, mas na capacidade de se aproximar da dor da humanidade. Nessa escolha, propõe um processo de descolonização do corpo do dançarino, domesticado por códigos técnicos ao longo dos séculos. Nos espetáculos, os dançarinos assumem uma postura grotesca e mórbida. Personificam a destruição do conceito, do processo e da forma do ser humano (e de seu corpo), que é, na dança, o colapso do mundo. Evocam a experiência dos corpos destruídos ou que sofreram mutações por conta das bombas.

Dançarino de Butoh executando coreografia
Fonte: Terceira Margem, arquitetura e singularidades

É comum que o dançarino use uma maquiagem de cor branco-acinzentada sobre o corpo inteiro, realçando a expressividade muscular nos movimentos e enfatizando a negação da individualidade. Como roupa, em geral, usa uma pequena tanga, que contribuiu para a indistinção do sexo, de maneira que ele possa encarnar qualquer ser humano, e por isso, todos. Nos primeiros espetáculos não se usava vestimentas, pois se entendia que o corpo já vestia a alma.

Na coreografia, executa movimentos sôfregos, que exprimem dor, como se o corpo tivesse que lutar contra a atmosfera para se movimentar. Para realizar tais ações com perfeição, o dançarino treina exaustivamente, mas nunca de maneira que o engesse. Seu nível profundo de perícia busca potencializar, e não condicionar, o movimento.

O corpo do Butoh é coberto de pó branco, como se surgisse dos escombros da destruição, talvez da guerra. Mas exprime uma dor profunda de maneira tão latente que transcende as questões originais. Por suas inovações, faz parte dos grandes movimentos que revolucionaram a história da dança, inserido em um contexto de dança moderna, com o diferencial de ter sobrevivido ao tempo, como poucos conseguiram.

Kazuo Ohno disse, sobre o butoh, o seguinte:

Eu não estou interessado em uma bela estrutura de dança nos moldes tradicionais. A dança é um caminho de vida, não uma organização de movimentos. Minha arte é uma arte de improvisação. É muito perigosa. Eu tento revelar com o meu corpo todo peso e mistério da vida, seguir minhas memórias até o útero de minha mãe (OHNO, apud CALDEIRA, p.67).

REFERÊNCIAS

CALDEIRA, Solange. Butoh: A dança da Escuridão. Revista Mimus, Ano 1, No. 1. P. 63 – 76. Em: https://document.onl/reader/f/butoh-a-danca-da-escuridao-solange-caldeira

FISCHER, Kysy Amarante; DE MORAES, Cristiane Dall’Oglio. A maquiagem e o incompleto no butoh. Paraná: O Mosaico, No. 5, 2011. P. 157 – 168 Em:

http://periodicos.unespar.edu.br/index.php/mosaico/article/view/23/pdf

GREINER, Christine. Butô, pensamento em evolução. São Paulo: Escrituras, 1998.

KASPER, Kátia Maria. Experimentar, devir, contagiar: O que pode um corpo?. Campinas: Pro-posições, Vol. 20, No. 3, 2009. P. 199 – 213.  Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pp/v20n3/v20n3a13.pdf

NANAKO, Kurihara. Hijikata Tatsumi: The words of butoh. Cambridge University Press, Vol. 44, No. 1, 2000. P. 10-2

É comum que o dançarino use uma maquiagem de cor branco-acinzentada sobre o corpo inteiro, realçando a expressividade muscular nos movimentos e enfatizando a negação da individualidade. Como roupa, em geral, usa uma pequena tanga, que contribuiu para a indistinção do sexo, de maneira que ele possa encarnar qualquer ser humano, e por isso, todos. Nos primeiros espetáculos não se usava vestimentas, pois se entendia que o corpo já vestia a alma.

Na coreografia, executa movimentos sôfregos, que exprimem dor, como se o corpo tivesse que lutar contra a atmosfera para se movimentar. Para realizar tais ações com perfeição, o dançarino treina exaustivamente, mas nunca de maneira que o engesse. Seu nível profundo de perícia busca potencializar, e não condicionar, o movimento.

O corpo do Butoh é coberto de pó branco, como se surgisse dos escombros da destruição, talvez da guerra. Mas exprime uma dor profunda de maneira tão latente que transcende as questões originais. Por suas inovações, faz parte dos grandes movimentos que revolucionaram a história da dança, inserido em um contexto de dança moderna, com o diferencial de ter sobrevivido ao tempo, como poucos conseguiram.

Kazuo Ohno disse, sobre o butoh, o seguinte:

Eu não estou interessado em uma bela estrutura de dança nos moldes tradicionais. A dança é um caminho de vida, não uma organização de movimentos. Minha arte é uma arte de improvisação. É muito perigosa. Eu tento revelar com o meu corpo todo peso e mistério da vida, seguir minhas memórias até o útero de minha mãe (OHNO, apud CALDEIRA, p.67).

REFERÊNCIAS

CALDEIRA, Solange. Butoh: A dança da Escuridão. Revista Mimus, Ano 1, No. 1. P. 63 – 76. Em: https://document.onl/reader/f/butoh-a-danca-da-escuridao-solange-caldeira

FISCHER, Kysy Amarante; DE MORAES, Cristiane Dall’Oglio. A maquiagem e o incompleto no butoh. Paraná: O Mosaico, No. 5, 2011. P. 157 – 168 Em:

http://periodicos.unespar.edu.br/index.php/mosaico/article/view/23/pdf

GREINER, Christine. Butô, pensamento em evolução. São Paulo: Escrituras, 1998.

KASPER, Kátia Maria. Experimentar, devir, contagiar: O que pode um corpo?. Campinas: Pro-posições, Vol. 20, No. 3, 2009. P. 199 – 213.  Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/pp/v20n3/v20n3a13.pdf

NANAKO, Kurihara. Hijikata Tatsumi: The words of butoh. Cambridge University Press, Vol. 44, No. 1, 2000. P. 10-28.  Disponível em: https://www.jstor.org/stable/1146810

8.  Disponível em: https://www.jstor.org/stable/1146810


Juliana Cunha é escritora de terror, mestre em artes pelo PPGARTES / UERJ e bacharel em história da arte pela mesma universidade. Estuda arte moderna, com foco no expressionismo e nas questões da subjetividade, da morte e do maligno em distintas manifestações artísticas. É Assistente de Curadoria da Casa Museu Eva Klabin (2021) e atuou como Assistente de Coordenação do Setor Educativo da Casa Museu Eva Klabin entre 2017 e 2021.

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