Crítica quinzenal Lorenza Gioppo

Alfredo Jaar: um lembrete do mundo como ele é

“A arte, como uma linguagem presentacional

dos sentidos, transmite significados que

não podem ser transmitidos através de

nenhum outro tipo de linguagem.”

– Ana Mae Barbosa

Conforme a vacinação avança no país e a vida volta a parecer o que era antes da pandemia, venho me dando conta do quanto nos fechamos para dentro de nós. O aspecto surreal do que temos vivido, intensificado pelos retrocessos e barbaridades do presidente, nos fizeram esquecer – ou ignorar –  as contradições e dificuldades do mundo lá de fora, do mundo que não se relaciona com o coronavírus. Nesse sentido, a exposição “Lamento das Imagens”, do artista chileno Alfredo Jaar, que acontece no SESC Pompeia, em São Paulo, até o dia 5 de dezembro deste ano, se faz urgente.

                Com curadoria de Moacir dos Anjos, a exposição faz parte da rede de parcerias da 34ª Bienal de São Paulo e conta com 12 obras que fazem o espectador mergulhar nos “subtextos” do mundo. Coloco aspas aqui porque, ao longo da exposição, nos damos conta de que as dinâmicas que geram as situações ali denunciadas nos estão dadas a todo momento: basta saber – e querer – olhar com criticidade para o mundo e para o sistema que nos rege.

Crédito: Renato Parada

Cada uma das 12 obras articula um pensamento e uma denúncia diferentes que funcionam como pistas para uma reflexão final que, apesar de clara, deixa espaço para cada pessoa entender e absorver as informações como melhor lhe couber. O chamado para a ação e a liberdade de escolha do visitante é evidente e intensificado pela expografia da mostra — uma vez que os textos de parede com os títulos e explicações sobre as obras ficavam dispostos ao longo do espaço, cabendo às pessoas buscar quais trabalhos se relacionam a quais textos. 

Crédito: Francine Azevedo/Arquivo pessoal
Crédito: Renato Parada

Toda a obra de Alfredo Jaar parece ser um empurrão para tornarmo-nos sujeitos no mundo. Suas obras são sintéticas, inteligentes e muito bem articuladas. O uso da palavra em trabalhos que falam de imagens evidencia os paradoxos aos quais estamos expostos, as incertezas e as múltiplas possibilidades de formas de lidar com uma mesma coisa. Conforme nos entregamos às obras, vamos percebendo como Jaar une forma e conteúdo, estética e ética e como os trabalhos de “Lamento das Imagens” são argumentos bem fundamentados para defender sua tese. Cheios de intertextos, percebemos o quanto o artista é atento a tudo aquilo que se pensa e se produz para além do seu microcosmo e que olhar para o mundo sob outros pontos de vista é ponto base da sua produção – e, imagino eu, vivência.

                Ao longo da visita, lembrei muito de Ana Mae Barbosa e suas sábias colocações sobre a importância de sabermos ler imagens. Segundo a professora, a arte “supera o estado de despersonalização, inserindo o indivíduo no lugar ao qual pertence”; e a obra de Alfredo Jaar corrobora esse pensamento. “Lamento das Imagens” foi para mim um lembrete dolorido e essencial do que se passa no mundo lá fora, para além da pandemia. O que acontece desde muito antes e continuará acontecendo muito depois dela, se não fizermos nada. Um belo choque de realidade que me lembrou que tenho agência no contexto em que estou inserida e que a arte é, de fato, transformadora.


BARBOSA, Ana Mae. Arte, Educação e Cultura.

ANJOS. Moacir dos. Alfredo Jaar, Lamento das Imagens. São Paulo: Sesc Pompeia, 2021.


Lorenza Vicelli Gioppo é artista visual, bordadeira e diretora de arte. Curitibana, se mudou para São Paulo em 2016, inicialmente, para cursar a faculdade de Comunicação Social com Habilitação em Cinema pela FAAP. Durante a graduação, começou seus estudos nas áreas de patrimônio, gestão cultural e artes visuais. Em 2020, fez parte do Programa Formativo em Gestão Cultural, Patrimônio e Memória oferecido pela Casa Mário de Andrade. Em 2021, recebeu menção honrosa no Festival Durante por sua videoperformance “Todo Espaço que há pra mim”; participou da Oficina de Autorretrado com Jacqueline Hoodenfy pelo Festival Paiol de Fotografia e da exposição de autorretrato desse festival e recentemente ministrou a Oficina de Iniciação ao Processo Criativo pela casa de cultura A Pilastra, de Brasília. Mantém um blog sobre processo criativo, o estudosdeprocessocriativo.blogspot, e tem uma página do instagram dedicada ao bordado, a @casadebordadosdaenza. Atualmente, pesquisa os aspectos e alcances da autobiografia e trabalha como assistente de comunicação no Centro Cultural Marieta, em São Paulo.

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