Crítica quinzenal Juliana Cunha

A ORIGEM DOS TERRÍVEIS PODERES DAS BRUXAS

Na Europa, a construção do imaginário sobre a figura da bruxa foi complexa, e se desenrolou entre a Idade Média e o Renascimento. Mesmo que os estereótipos de maldade e sedução tenham ganhado seus contornos mais conhecidos entre os séculos XV e XVI, as características atribuídas a essas figuras foram constituídas aos poucos, e desde o século XIV encontramos imagens que refletem sobre a existência e poderes dessas personagens.

Sabe-se que até o século VIII a prática de magia era punida com três anos de penitência, revelando certa brandura diante das ações tomadas pela igreja posteriormente. Mas mesmo dentro do contexto da Idade Média, as leis ficaram mais severas com o tempo, e tornou-se comum, entre os teólogos, a associação entre feitiçaria, paganismo e heresia à profanação da vida e adoração à Satanás.

Como exemplo, podemos citar o primeiro julgamento por heresia, ocorrido em Orleans, no ano de 1022. Entre as acusações, que tinham por base a discordância das práticas cristãs dos grupos hereges frente à leitura oficial da religião, novos elementos foram levantados. Assim como com se falaria das bruxas posteriormente, dizia-se que os hereges praticavam orgias noturnas, sacrificavam crianças para produção de elixires e tinham a capacidade de se transportarem para longas distâncias.

Também na Idade Média, com o fortalecimento da igreja, estabeleceu-se a condenação de outras religiões, mesmo que de maneira não oficial. Um exemplo disso é a utilização de termos de origem judaica para definir as práticas de bruxaria, como o “sabá”, que passou a significar o encontro de bruxas na floresta para realização de rituais, ou um termo que o antecedeu, a “sinagoga”.

Esse último definia os rituais de caráter obsceno, em que as bruxas unidas e acompanhadas por seus gatos pretos entoavam canções e invocavam o Diabo, demonstrando sua submissão através de beijos nas partes íntimas do demônio. Essas “sinagogas” já apresentavam características de uma profanação chamada posteriormente de Osculum Infame, prática atribuída às bruxas de beijarem a bunda de Satanás.

Francesco Maria Guazzo
The osculum infame, 1608
Xilogravura | Livro Compendium Maleficarum
Fonte: Wikipédia

A negação de outras religiões não se limitou a degradação de grupos religiosos independentes ou ao antigo atrito entre judaísmo e cristianismo. A guerra ao paganismo, arraigado na cultura europeia, também foi tema utilizado na iconografia referente às bruxas.

Sabe-se que no processo de conversão de cidades e expansão da fé, a igreja católica teve por prática conectar elementos do cristianismo com outras religiões, no objetivo de facilitar a adesão ao novo culto e extinguir a fé anterior. Tais elementos são visíveis na associação entre datas festivas do paganismo e o calendário cristão, fusão de elementos, como a cruz cristã e a cruz céltica, ou de personagens da bíblia com outros deuses, como Maria e a tradição das deusas mães, e Jesus como Apolo ou Hórus. Quando essa prática não se mostrava eficiente ou a divindade a ser associada distanciava-se demais dos interesses da igreja, era comum sua demonização. Tal questão ocorreu com Diana, a deusa romana da caça, que, segundo se acreditava, habitava as florestas e possuía força para domesticar animais selvagens. Em sua mitologia, convive com um séquito de ninfas que, assim como ela, rejeitaram o casamento.

Peter Paul Rubens
Diana e suas ninfas são surpreendidas por sátiros, 1639-1640
Óleo sobre tela, 129,5 x 315,2 cm
Museu Nacional do Prado
Fonte: Wikipedia

O culto a deusa Diana, comum durante a Idade Média por conta da vida rural e da dependência da caça para alimentação, foi fortemente combatido pela igreja, e a relação entre seus mitos e as narrativas sobre bruxas surge desse interesse.

A ideia de mulheres independentes e nuas reunidas na floresta, presente nesse mito, é reaproveitada para a construção do Sabá. Além disso, a iconografia renascentista do diabo, com quem as bruxas fazem um pacto, foi possivelmente desenvolvida a partir da imagem de Sátiros, e de deuses como Dionísio, Pã ou de outras divindades pagãs.

Nessas mitologias, as divindades masculinas interagiam com mulheres, como é o caso dos Sátiros com as ninfas. Eles também tinham entre suas adoradoras figuras femininas, como as bacantes. Através de sua forma parte humana, parte animal, passaram a simbolizar, dentro da tradição cristã, a capacidade de instigar a perversão dos limites do humano, e acessar o selvagem e grotesco.

Albrecht Dürer
A Bruxa, c. 1500
Gravura, 11,7 x 7,2 cm
Fonte: The Metropolitan Museum of Art

Outra curiosidade interessante é saber que Diana, por ser deusa dos animais selvagens, era constantemente representada montando-os no ar, assim como outras deusas femininas, associadas à natureza. Por isso, é possível que o recurso da bruxa que monta o bode durante seus voos noturnos surja dessa associação, sendo a escolha comum de fazê-la se sentar na direção oposta ao bicho um elemento extra, que simboliza sua completa perversão dos sentidos.

De todo modo, a relação das bruxas com a natureza indica uma subversão da conexão existente entre todo o panteão de deusas femininas pagãs e os domínios da fertilidade, da colheita, da caça e da sensualidade. Não à toa, durante a Renascença, é atribuído às bruxas a capacidade de interromper vidas, através das parteiras; tornar a terra infértil, trazer a fome, seduzir os homens e dominar o tempo, causando temporais.

Apontamos o desenvolvimento da imagem perversa da bruxa no Renascimento, pois durante a Idade Média, por mais que circulassem tais ideias, a dimensão da força atribuída a elas era freada por um texto religioso chamado Canon Episcopai.

Sem origem precisa, o documento limitava os poderes das bruxas ao sonho, e desqualificava a ideia de que os atos atribuídos a elas fossem realizados de fato, apontando a crença nisso como pecado. Isso porque, sendo a bruxaria a prática de outra religião, acreditar em seus poderes era crer que outra divindade pudesse ser mais poderosa do que Deus.

Foi por conto da importância que os teólogos deram a esse documento, atribuído equivocadamente ao Concílio de Ancira (314 d.C), e tornado canônico no século XII, que a inquisição iniciada na Idade Média restringiu-se, inicialmente, aos hereges e apóstatas: pessoas que pecaram contra a fé cristã.

Com o passar do tempo, diversos teólogos se dedicarem a reinterpretação do Canon Episcopai. Eles diziam que a incapacidade das bruxas de realizarem maldade era algo que se restringia ao passado, e que naquele novo tempo desacreditar no poder do Diabo era falta de fé em Deus.

Como resultado, o documento foi derrubado oficialmente em 1484, e com essa ação, iniciou-se a perseguição a mulheres suspeitas de realizarem bruxaria. Pela data, um dado curioso se apresenta: tais ações foram tomadas durante o Renascimento, período conhecido pela valorização da razão.

Hans Baldung Grien
As Bruxas, 1510
Xilogravura, 38,9 x 27 cm
Fonte: The Metropolitan Museum of Art

O aumento da representação de bruxas no Renascimento, apesar de curioso, é tema estudado. A mudança dentro do contexto religioso se alastrou pela população, que temia o poder dessas mulheres, as quais qualquer mal poderia ser atribuído. Além disso, havia algo no cerne do entendimento de arte que mudou nesse período e encontrou solo fértil na representação de mulheres que sucumbiam aos desejos do Satã.

No Renascimento, a valorização da arte como uma tarefa da imaginação, e por isso, parte de um processo mental, é uma das características fundamentais para a valorização dos artistas daquele período. Mas também um caminho para entender a maior representação dessas figuras femininas malévolas. Enquanto o homem era entendido como aquele que tinha força para lidar com a abstração e não se perder nela, tornando-se um artista, a mulher era vista como fraca, e nesse sentido, mais suscetível a força de Satanás, tornando-se bruxa. 

A feiura dessas personagens segue a interpretação medieval, de origem na filosofia clássica, de que aquilo que é bom, é belo e verdadeiro. Por isso, a deturpação de seus corpos é um sinal da feiura presente em suas almas. Mesmo quando belas, o são apenas para seduzir os homens e corrompê-los, e logo revelam sua verdadeira forma.

A velhice também é um elemento comum entre essas personagens. Ela funciona como um anúncio da morte, mas também revela a repulsa por mulheres que, sob forte ação do patriarcado, tinham maior autonomia, já que muitas viúvas gozavam de certa liberdade para comandar suas vidas. 

No Renascimento, essas mulheres feias, velhas, imaginativas, sem vínculo com homens, mestres dos elixires da natureza e muitas vezes parteiras (sendo, assim, conhecedoras dos mistérios da vida e da morte) apavoraram a sociedade. A desculpa era o medo do diabo, mas no fundo, talvez, uma saudade da força das deusas.

 

REFERÊNCIAS

Canon Episcopai. Encycplopedia.com. Disponível em: https://www.encyclopedia.com/science/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/canon-episcopi-or-capitulum-episcopi

DIAS, Bruno Vinicius K; CABREIRA, Regina Helena U. A Imagem da Bruxa: Da Antiguidade Histórica às Representações Fílmicas Contemporâneas. Ilha do Desterro: Mapping Critical Journeys in Literature, Film, and Cultural Studies, vol. 72, nº 1, 2019. P. 175 – 197. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/desterro/article/view/2175-8026.2019v72n1p175/38387

PLUM, Talita da Costa. Espelhos Deformantes: análise dos elementos pagãosnas representações iconográficas de bruxas e feiticeiras no século XVI. Graduação (Monografia em Artes Visuais) – Universidade Federal do Maranhão. São Luís. 2017. Disponível em: https://monografias.ufma.br/jspui/bitstream/123456789/2198/1/TalitaPlum.pdf

RODRIGUES, Kethlen Santini. O surgimento da imagem da bruxa nas artes visuais: bruxaria e sexualidade nas obras de Albrecht Dürer e Hans Baldung Grien. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais) – Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. 2018. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/185237/001082016.pdf?sequence=1&isAllowed=y


Juliana Cunha é escritora de terror, mestre em artes pelo PPGARTES / UERJ e bacharel em história da arte pela mesma universidade. Estuda arte moderna, com foco no expressionismo e nas questões da subjetividade, da morte e do maligno em distintas manifestações artísticas. É Assistente de Curadoria da Casa Museu Eva Klabin (2021) e atuou como Assistente de Coordenação do Setor Educativo da Casa Museu Eva Klabin entre 2017 e 2021.

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