Crítica quinzenal Mônica Coster

Rizomorfa, de Rubens Takamine

Durante os anos de graduação, nutri certo preconceito com as produções em arte ditas abstratas. Eu não entendia tais imagens tão descoladas dos objetos visíveis (como eram imaginadas? como deveriam ser lidas por mim?)Mas, essa falta de entendimento significava uma relação achatada com os meus objetos de interesse. Resquícios, talvez, de um academicismo positivista onde texturas, estampas, mandalas e pinceladas sem formas assimiláveis pela figuração eram tidas como uma decoração acessória, um delito vazio de significado. O mais curioso é que, na escola de belas artes, as volutas e tramas dos ornamentos não eram totalmente condenadas. Elas eram apenas vistas como adornos para as “verdadeiras” obras escultóricas ou arquitetônicas.

Porém, o que foge da figuração se move como um ser vivo. Ritmos, duplicações, somatórias exponenciais, fractais. A imagem multiplicada se movimenta em direção ao infinito e ao contágio de todas as áreas férteis. Em uma operação simples como recortar um papel sanfonado, é possível atingir a continuidade da reprodução celular presente nos corpos vivos.

As imagens de Rubens Takamine[1] nos mostram os fluxos orgânicos como caleidoscópios. Entre cachoeiras, pedras e folhas, as paisagens em movimento espelhado entram e saem da figuração, mergulhando na superfície representativa e indo até as camadas mais vitais da imagem. Ativam nossos olhos, nos hipnotizam em fendas abissais dentro do que julgávamos supostamente conhecer. Os corpos se desdobram em ornamentos vivos e aqui ornar não significa apenas decorar, mas entrar na ordem do mundo.[2]

Rubens Takamine. Abissal, 2020. Link: https://vimeo.com/414610864

Em sua instalação Rizomorfa, quatro fotografias orbitam um vaso da ornamental Avelós[1]. A planta é colocada sobre uma prateleira na parede, montada da mesma forma que as fotografias que a cercam. As imagens são abstrações feitas a partir do vaso, modos de interpretá-lo, mas também de descobrir suas potências. Os padrões presentes nas fotos são espelhamentos digitais de suas folhas e raízes, e refletem a duplicidade da Avelós, cujo látex é capaz de ferir e de curar ao mesmo tempo. Propriedades contraditórias presentes também nas imagens abstratas. 

Penso no conceitualismo do norte-americano Joseph Kosuth, que desmonta a estrutura semântica de figuração, colocando um objeto qualquer ao lado de seu retrato fotográfico e de sua definição do dicionário. A instalação Rizomorfa também se apresenta dessa forma, porém nela a Avelós está cercada de representações que não correspondem a um verbete figurativo do que é a planta. A estrutura rizomática de suas folhas, é inserida em uma estrutura integrada do qual o corpo vivo não pode ser isolado e facilmente sintetizado em uma fotografia. Numa simbiose de imagens ornamentais, dedos humanos são representados como as folhas pontudas da planta e o vaso é mostrado como uma ciranda em movimento, que de um lado parece um bicho e do outro, um lago. A abstração descreve o modo de existência fractal da Avelós, onde suas raízes e folhas de multiplicam de forma espelhada, de modo que qualquer parte de seu corpo vegetal sempre converge para a mesma forma inicial. Rizomorfa é o retrato de um mundo no qual ornamento deixa de ser adorno para ser tudo que existe: objeto e adorno. E esse mundo não deve ser decifrado, mas recebido.


[1] O Avelós é um arbusto trazido da África para o Brasil com fins ornamentais. O látex extraído da planta é corrosivo e quanto entra em contato com a pele pode causar queimaduras. Entretanto, esse mesmo látex tem propriedades curativas e é usado no alívio de dores crônicas. “Dois aspectos, portanto, me chamam a atenção: 1) a pujante alegoria de uma planta que simultaneamente nos fere e traz cura, superando a lógica simplista da binaridade; 2) o crescimento rizomático da planta, que se ramifica de forma autossímile, holográfica.” (Rubens Takamine, sobre Rizomorfa)


[1] Rubens Takamine, artista, filmmaker e pesquisador, nascido em terra roxa.1993. Vive e trabalha onde o trabalho chamar. Sua pesquisa borra fronteiras entre práticas de arte e de vida, nutrindo vínculos muito profundos com as cosmovisões não ocidentais e filosofias que contemplam a vida enquanto fluxo contínuo de seres, espíritos e estrelas. Medita para ampliar sua escuta. Mergulha no caos para encontrar sua força. Expurga inquietações através de danças coletivas com diferentes corporeidades: humanos, plantas, pedras, cordas, sombras, projeções, hologramas, objetos técnicos em desuso, dentre outros elementos. Gosta de experiências que são visíveis apenas no escuro. Suas obras já foram exibidas ou ativadas em mostras coletivas, exposições e festivais de cinema, como Arquivo em Cartaz, Curta Cinema, Ecrã, VideoMovimiento, For Rainbow e Dobra. Em concomitância, possui formação acadêmica em Comunicação Social (ECO/UFRJ) e cursa mestrado em Artes Visuais (EBA/UFRJ).

[2] Como li no dicionário, ornar vem de ordo (latim): ordem. Mas, a referência vem de antes, da minha mãe que sempre usou a palavra ornar com o sentido de combinar, dizendo por exemplo que duas pessoas ornam juntas.


Mônica Coster é artista e pesquisadora. Em seu trabalho, investiga a relação entre o campo da arte e os sistemas vivos. Tem interesse pelos processos de digestão e decomposição: o corpo digestivo como um sistema aberto a outros seres e objetos ligados à comida. Pratica a digestão escultórica e a escultura alimentar; propõe a confusão entre o ateliê e o estômago. Possui graduação em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestrado em Estudos Contemporâneos das Artes, pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

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