Crítica quinzenal Lorenza Gioppo

Sobre a peça Noite, do Grupo Sobrevento

Quando escrevemos histórias normalmente nos referimos a fatos documentais, científicos. Quando escrevemos estórias falamos de enredos populares, imaginados, ficcionais. No livro O poder do mito, um compilado de conversas entre o escritor e mitólogo Joseph Campbell e o jornalista Bill Moyers, fica evidente a importância das narrativas para construção da memória coletiva e da visão de mundo de determinada comunidade. Essas narrativas podem estórias, histórias, ou uma mescla das duas, como acontece no espetáculo Noite, do Grupo Sobrevento.            

A sequência de monólogos que constroem a dramaturgia da peça foi desenvolvida a partir de relatos dos moradores dos bairros do Brás e do Belenzinho, em São Paulo. Segundo Sandra Vargas, diretora do espetáculo junto com Luiz André Cherubini, entender como aquela população lida com suas memórias e perceber quais histórias são escolhidas para serem contadas foi essencial para amarração dramatúrgica, que não partiu de um tema pré-determinado pelo grupo.

Foto de Marco Aurélio Olimpio

O resultado desse processo de escuta e pesquisa são historietas que se apresentam como memórias de um senhor cego que conversa com um garoto. Cada uma guiada por objetos comuns, como se as lembranças tivessem sido ativadas por eles: vem à tona a pesquisa, já premiada, do grupo sobre o Teatro de Objetos – vertente do Teatro de Animação que parte de objetos prontos, normalmente do cotidiano, e os ressignifica – e a alusão ao funcionamento da memória que toda a montagem faz.  

Segundo a artista e pesquisadora Fayga Ostrower a memória integra experiências já vividas com experiências futuras, o que não só nos permite imaginar possíveis desfechos e orientar nossas ações para alcançá-los, mas também amplia de forma extraordinária e multidirecional o espaço físico natural. Acredito que essa ampliação diga respeito também ao que absorvemos quando ouvimos estórias e quando compartilhamos experiências com outras pessoas.            

No fluxo da memória do senhor cego, os relatos se intercalam, se sobrepõem, se interrompem e a cenografia de Cherubini e o jogo cênico evidenciam isso de forma poética, criativa e muito perspicaz: 11 nichos de formas e tamanhos diversos justapostos no palco, acendem e apagam suas luzes conforme as memórias – e os monólogos – vem e vão.

Foto de Marco Aurélio Olimpio

Nesse vai e vem, abrem-se caixas de lembranças, onde nos entregarmos aos relatos de personagens cativantes, sábias e até um tanto esquisitas. Poucas frases são necessárias para mergulharmos nas histórias e nos identificarmos com elas. Mesmo quando o espetáculo parece se prolongar, rapidamente somos envolvidos pela história que se desenrola. O tempo para e somos transportados para o mundo da imaginação, da memória, da reflexão. Entendo que a figura do cego é quem amarra os relatos e torna o espetáculo mais coeso, mas as histórias são tão completas, tão deliciosas, mesmo em suas dores, que sinto que são elas, e não ele, as protagonistas da peça. O que importa ali não é como as histórias surgem, mas o que aprendemos e sentimos com elas.

Foto de Marco Aurélio Olimpio

Sinto que as personagens e suas memórias são como amálgamas; uma da qual o público faz parte. Esse emaranhado de histórias, de memórias, de vivências carrega toda a profundidade, banalidade e beleza da condição humana. Noite nos faz refletir, imaginar, sentir, conjecturar. Nos lembra de coisas que nunca vivemos e nos prepara para muito do que podemos viver. Instiga a escuta e a empatia. Nos lembra que somos únicos, complexos, resultados de nossos meios e, ainda assim, somos parte de um todo. Está aí o poder das narrativas. E eu não vejo a hora de conhecer outras estórias desse Grupo.

O espetáculo Noite fica em cartaz até dia 7 de novembro, às sextas, sábados e domingos às 20h. O Espaço Sobrevento fica na Rua Coronel Albino Bairão, 42, em São Paulo. A entrada é franca, mas é preciso reservar seu ingresso pelo info@sobrevento.com.br.


Release do espetáculo Noite, do Grupo Sobrevento.

CAMPBELL, Joseph. O poder do Mito. São Paulo: Palas Athena, 1992.

OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. 11 ed. Petrópolis: Vozes, 1993.

A fotografia da capa é de Arô Ribeiro.


Lorenza Vicelli Gioppo é artista visual, bordadeira e diretora de arte. Curitibana, se mudou para São Paulo em 2016, inicialmente, para cursar a faculdade de Comunicação Social com Habilitação em Cinema pela FAAP. Durante a graduação, começou seus estudos nas áreas de patrimônio, gestão cultural e artes visuais. Em 2020, fez parte do Programa Formativo em Gestão Cultural, Patrimônio e Memória oferecido pela Casa Mário de Andrade. Em 2021, recebeu menção honrosa no Festival Durante por sua videoperformance “Todo Espaço que há pra mim”; participou da Oficina de Autorretrado com Jacqueline Hoodenfy pelo Festival Paiol de Fotografia e da exposição de autorretrato desse festival e recentemente ministrou a Oficina de Iniciação ao Processo Criativo pela casa de cultura A Pilastra, de Brasília. Mantém um blog sobre processo criativo, o estudosdeprocessocriativo.blogspot, e tem uma página do instagram dedicada ao bordado, a @casadebordadosdaenza. Atualmente, pesquisa os aspectos e alcances da autobiografia e trabalha como assistente de comunicação no Centro Cultural Marieta, em São Paulo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: