Crítica quinzenal Lorenza Gioppo

Onde cabem tantas certezas?

Iniciada em fevereiro de 2020, a 34ª Bienal de São Paulo se encerra no começo do mês que vem depois de quase dois anos de evento – os quase dois anos de pandemia no Brasil. A edição que começou com eventos online e abriu a exposição presencial só em setembro de 2021 é intitulada “Faz escuro, mas eu canto”, em referência ao poema sobre esperança do amazonense Thiago de Mello, e é cheia de “coincidências” e contradições.

Antes de mais nada, é importante relembrar que bienais são exposições que acontecem, como o nome sugere, a cada dois anos, reunindo as obras, os artistas, as linguagens, as técnicas e as temáticas mais inovadoras e mais urgentes daquele momento. Elas traduzem o Zeitgeist, ou “espírito do tempo”, de um período, funcionando como termômetro dos anseios e necessidades daquela sociedade e pautando, de uma forma ou de outra, o que será pensado, produzido e pesquisado no mundo das artes nos anos subsequentes. Tendo isso em vista, usei aspas em “coincidências” porque não podemos ignorar o imenso trabalho de pesquisa que envolve o desenvolvimento de uma Bienal e que a escolha de uma temática como esse era sim relevante para sociedade do começo de 2020. Contudo, considero que um título – que é o responsável por amarrar e orientar as intenções e significados de uma mostra como essa – ainda fazer sentido depois dos eventos mundiais recentes é sim uma coincidência.

 Apesar de os 14 enunciados – textos e temáticas que organizam os conjuntos de obras da 34ª Bienal – serem bastante interessantes e importantes, acredito que os debates ali propostos são claramente datados, claramente anteriores à pandemia de Covid-19. A pandemia mudou radicalmente a forma como nos relacionamos e como trabalhamos, alterou e evidenciou nossas prioridades, intensificou muitos problemas e acrescentou muitas camadas de complexidade a debates já existentes. Nos deixou mergulhados em incertezas. Ainda não sabemos quando a circulação do vírus será de fato controlada; ainda não sabemos ao certo quais serão os efeitos biológicos, psicológicos, sociais, políticos, climáticos dessa experiência. Portanto, me parece no mínimo estranho, visitar uma exposição que tem como premissa orientar os pensamentos e tendências dos próximos anos e encontrar tantas certezas.

Vistas aéreas do Pavilhão Bienal. São Paulo, 02/04/2011. © Roman Atamanczuk / Fundação Bienal de São Paulo
Foto: Patrícia Figueiredo/G1 SP

O evento acontece no Parque Ibirapuera, no Pavilhão Ciccillo Matarazzo – prédio que foi projetado por Oscar Niemeyer e homenageia um dos fundadores da Bienal de São Paulo – e, quanto mais se caminha pavilhão adentro, mais as reflexões ali propostas parecem querer determinar respostas para perguntas que ainda nem se concluíram. É interessante ressaltar que o Parque Ibirapuera como conhecemos hoje faz parte dos esforços de modernização, urbanização e elitização que pautaram as comemorações do IV Centenário da Cidade de São Paulo. Ou seja, é resultado de um evento que definiu um ideal de progresso, uma visão específica de futuro, um modelo a ser seguido pela sociedade paulistana e pela brasileira. Considero isso interessante, pois essa sensação de certezas bem estabelecidas não é presente nas outras exposições que fazem parte da 34ª Bienal: além das plataformas virtuais, que são ricas em materiais informativos muito mais acessível (em linguagem, dispositivos e temáticas) do que a Bienal em si, a mostra acontece em mais de 20 museus e centros culturais espalhados por toda cidade.

Pensando nisso, lembrei do livro “O que é arte?”, do Jorge Coli, em que o autor expõe como as instituições de arte, sejam elas os historiadores, curadores e críticos ou os museus – e aqui podemos incluir exposições como as bienais –, têm papel fundamental para determinar o que é arte e qual é a relação que devemos estabelecer com ela. Parece-me que quanto mais íntima a relação com nesse universo de instituições, maior é a necessidade de apresentar essas certezas. Afinal, se quem define quais são os caminhos para o futuro ficar em dúvida sobre como caminhar, corremos o risco de descobrirmos um caminho novo, inusitado; quem sabe até revolucionário.


COLI, Jorge. O que é Arte – São Paulo: Brasiliense, 1989.

FUNDAÇÃO BIENAL DE SÃO PAULO. 34ª Bienal de São Paulo – Faz escuro mas eu canto, 2021. Página Inicial. Disponível em http://34.bienal.org.br/sobrea34?utm_source=Google&utm_medium=Search&utm_campaign=34_Bienal&utm_content=34_Bienal . Acesso em: 20 de nov. de 2021.

BIENAL DE SÃO PAULO. Bienal de São Paulo, 2021. Página Inicial. Disponível em < http://www.bienal.org.br/ >. Acesso em: 20 de nov. 2021

PARQUE IBIRAPUERA CONSERVAÇÃO. Parque Ibirapuera Conversação. História mais Completa. Disponível em:

<https://parqueibirapuera.org/parque-ibirapuera/historia-mais-completa/&gt; . Acesso em: 20 de nov. 2021


Lorenza Vicelli Gioppo é artista visual, bordadeira e diretora de arte. Curitibana, se mudou para São Paulo em 2016, inicialmente, para cursar a faculdade de Comunicação Social com Habilitação em Cinema pela FAAP. Durante a graduação, começou seus estudos nas áreas de patrimônio, gestão cultural e artes visuais. Em 2020, fez parte do Programa Formativo em Gestão Cultural, Patrimônio e Memória oferecido pela Casa Mário de Andrade. Em 2021, recebeu menção honrosa no Festival Durante por sua videoperformance “Todo Espaço que há pra mim”; participou da Oficina de Autorretrado com Jacqueline Hoodenfy pelo Festival Paiol de Fotografia e da exposição de autorretrato desse festival e recentemente ministrou a Oficina de Iniciação ao Processo Criativo pela casa de cultura A Pilastra, de Brasília. Mantém um blog sobre processo criativo, o estudosdeprocessocriativo.blogspot, e tem uma página do instagram dedicada ao bordado, a @casadebordadosdaenza. Atualmente, pesquisa os aspectos e alcances da autobiografia e trabalha como assistente de comunicação no Centro Cultural Marieta, em São Paulo.

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