Crítica quinzenal Lorenza Gioppo

Uma breve reflexão sobre línguas de sinais

            A língua é um dos grandes diferenciais entre o homo sapiens e outras espécies. Enquanto a linguagem diz respeito a nossa capacidade de nos comunicarmos, a língua representa os conjuntos organizados de elementos, que possibilitam que essa comunicação aconteça. Tais conjuntos podem se dar através de palavras, sons ou mesmo gestos, como no caso das línguas de sinais. Toda língua – falada ou não, escrita ou não – é reflexo da cultura na qual se manifesta e influencia a forma de agir e de pensar de seus usuários ao mesmo tempo que é influenciada por eles. Dessa forma, o acesso e domínio da língua não só é fundamental para inserção plena dos indivíduos na sociedade como também é símbolo de poder.

            Tendo em vista que vivemos em uma sociedade extremamente capacitista, ou seja, que entende que toda deficiência deve ser corrigida ou superada e que o “normal” é não as ter, é comum que pessoas surdas ou com deficiência auditiva não sejam compreendidas em sua completude e que as línguas de sinais sejam vistas como inferiores – quase como as equivocadas noções de primitivismo relacionada a sociedades não-letradas. Essa é uma das muitas reflexões que o documentário francês “Sourd et Malentendus” (“Sou surda e não sabia”, no título em português), dirigido por Igor Ochronowicz, suscita ao narrar a trajetória de Sandrine Herman, que é surda e filha de pais ouvintes.

            O jogo de palavras presente no título do filme já discute a incompreensão ou mesmo negação das potencialidades da pessoa surda, uma vez que “malentendant”, em francês, é a pessoa com deficiência auditiva, enquanto “malentendu” é “mal-entendido”, ou nesse caso, “mal-compreendido”.

            Sandrine teve contato com pessoas surdas e pode fazer uso pleno da LSF (língua de sinais francesa) somente aos nove anos, quando passou a frequentar uma escola para surdos, e destaca como isso foi essencial para que ela se entendesse como surda. Com acesso a uma língua e com a possibilidade de se comunicar, ela entendeu que é uma pessoa completa, tão capaz de estabelecer relações, de emitir opiniões e de perceber o mundo quanto qualquer outra pessoa. Dessa forma, fica claro que o contato de crianças surdas, ou com deficiência auditiva, com uma língua e com adultos surdos é um grande diferencial para seu desenvolvimento global – que é o conjunto de habilidades responsáveis pela autonomia de um indivíduo – e é fundamental para que as crianças tenham acesso à cultura e identidade surdas.

            Se, como citado anteriormente, a língua influencia nossa forma de pensar e agir e as línguas de sinais são pautadas em associações visuais que exploram a abstração e a síntese e permitem ordenações diferentes das línguas faladas, fica fácil entender por que pessoas surdas tendem a ter uma inteligência visual maior do que pessoas ouvintes. Nesse sentido, entendo que negar a inclusão e difusão das línguas de sinais na sociedade é também negar uma potente ferramenta para apreensão do mundo, principalmente se levarmos em consideração que vivemos cada vez mais rodeados de imagens e que é a leitura visual é chave para desenvolvermos autonomia e criticidade.

            Essa reflexão e a indicação do documentário surgiram através do curso de Introdução à Libras, da Escola Virtual do Governo. O curso é gratuito, emite certificado e amplia imensamente a forma como vemos – e ouvimos – o mundo.  


SOURD ET MALENTENDUS. Direção: Igor Ochnorowicz. Produção: Luc Martin-Gousset e Françoise Davisse. França, 2009. Disponível em: < https://www.youtube.com/watch?v=Vw364_Oi4xc>


Lorenza Vicelli Gioppo é artista visual, bordadeira e diretora de arte. Curitibana, se mudou para São Paulo em 2016, inicialmente, para cursar a faculdade de Comunicação Social com Habilitação em Cinema pela FAAP. Durante a graduação, começou seus estudos nas áreas de patrimônio, gestão cultural e artes visuais. Em 2020, fez parte do Programa Formativo em Gestão Cultural, Patrimônio e Memória oferecido pela Casa Mário de Andrade. Em 2021, recebeu menção honrosa no Festival Durante por sua videoperformance “Todo Espaço que há pra mim”; participou da Oficina de Autorretrado com Jacqueline Hoodenfy pelo Festival Paiol de Fotografia e da exposição de autorretrato desse festival e recentemente ministrou a Oficina de Iniciação ao Processo Criativo pela casa de cultura A Pilastra, de Brasília. Mantém um blog sobre processo criativo, o estudosdeprocessocriativo.blogspot, e tem uma página do instagram dedicada ao bordado, a @casadebordadosdaenza. Atualmente, pesquisa os aspectos e alcances da autobiografia e trabalha como assistente de comunicação no Centro Cultural Marieta, em São Paulo.

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