Crítica quinzenal Juliana Cunha

O TRABALHO DE ARTE

Remedios Varo
Presencia Inquietante, 1959
Pintura a óleo
Fonte: Remedios Varo site oficial

A primeira experiência que temos, ao observar as pinturas de Remedios Varo, é que estamos lidando com o incompreensível. A presença de personagens incomuns colocados em situações absurdas sem que a artista compartilhe com clareza seus desejos e interesses faz de sua obra um imbrincado simbólico. A imagem aparenta profundeza teórica, ou mesmo narrativa, mas não nos indica o caminho para encontrá-la.

A tentação é abandonar os sentidos que, como setas sem destino, são lançados pela imagem. Isso é possível, pois o deleite estético nos tons pastéis e nas formas delicadas das personagens e objetos permitem, em seu encantamento, tal escolha.

Além disso, o vínculo que Remedios Varo estabeleceu com o movimento surrealista, fazendo oficialmente parte dele durante sua estadia na França, reforça o caminho interpretativo, sem dúvida mais fácil, de que tudo que faz parte do universo onírico está completamente mergulhado no inconsciente, e por isso, é inatingível.

Mas será isso verdade?

O filósofo Didi-Huberman apresenta um caminho distinto para a aproximação poética entre obra de arte e sonho. Apesar de não tratar do surrealismo e das questões do inconsciente, ele propõe o sonho como uma abordagem capaz de nos desprender das amarras do saber histórico da arte. Aceitando a “irrecusável sensação do paradoxo” (DIDI-HUBERMAN, 2013, p.9) diante da obra de arte, nos deparamos de forma holística com a imagem.

A proposta de Didi-Huberman não o leva a crer que a obra de arte seja a representação de um sonho, pois há uma essencial diferença entre eles: as “imagens de arte circulam na comunidade dos homens, e até certo ponto podemos dizer que são feitas para serem compreendidas, ou ao menos destinadas, compartilhadas, tomadas por outros” (DIDI-HUBERMAN, 2013, p.204). Por esse motivo, a imagem de arte é dialética, mesmo que nem sempre seja compreensível.

Apesar disso, Didi-Huberman desloca para a obra de arte a dimensão do desconhecido presente no sonho, que é oriundo do esquecimento diurno que temos ao acordarmos. Para ele, “o acontecimento visual do quadro só advém a partir dessa rasgadura que separa diante de nós o que é representado como lembrado e tudo que se apresenta como esquecimento” (DIDI-HUBERMAN, 2013, p.205-6). Assim, o objeto de arte é composto do que é possível e do que não é possível saber, e o incômodo diante do desconhecido é a memória do nosso esquecimento, a certeza da falta.

Em Remedios Varo, aquilo que não é passível de conhecimento é sobrepujante, mas o índice, aquilo que é conhecível, é forte o suficiente para manter a rasgadura da imagem. Assim, sabemos que se trata de algo, nos encantamos diante do inusitado e, ao enfrentarmos a obra, sabemos que vamos lidar com a falta, aquilo que escapa ao conhecimento histórico, mas que é comum (e potente) em toda obra de arte.

No trabalho da artista, o caminho para essa experiência holística com a obra de arte, que envolve saberes e não saberes, se expande para um contexto quase cósmico, e não é incomum encontrar em suas pinturas seres místicos envolvidos em tarefas alquímicas ou mágicas. Os interesses da artista, que resguardam uma experiência do campo da religiosidade, instigam um contato com os mistérios do universo, que se fazem reais na imagem, mas que resguardam seus segredos.

Remedios Varo
Papilla Estelar, 1958
Pintura a óleo
Fonte: Remedios Varo site oficial

O jogo entre real e fantasia se estabelece na presença de elementos que nos são familiares deslocados de seu sentido original. Na pintura “Papilla Estelar” temos elementos reconhecíveis, como a lua, a gaiola, as estrelas, a chaminé e uma espécie de moedor, mas eles se unem na produção de uma imagem inusitada: uma figura feminina trabalha moendo estrelas e tornando-as mingau para alimentar a lua enjaulada.

Na pintura, vemos o trabalho solitário da figura feminina diante da noite e da lua, e sentimos o isolamento da mulher moderna diante da busca pelo inconsciente. Isso ocorre não apenas pela experiência mística ser individual, mas também porque, mesmo dentro do surrealismo, que foi pioneiro na inclusão de artistas mulheres no movimento, ainda relegava-se a representação feminina ao lugar de inspiração, com sua beleza e juventude, para os artistas homens.

É possível que esse seja o motivo para tantas artistas surrealistas, como Remedios Varo, seguirem uma trajetória isolada, longe de Paris. Não à toa, a obra de Varo subverte esse lugar feminino, e é permeada por mulheres bruxas, magas e feiticeiras – a própria artista dizia-se ser feiticeira – que são, essencialmente, protagonistas na experiência mística.

Essa analogia entre o artista e aquele que mergulha no desconhecido ocorre pois no surrealismo o artista não é visto apenas como aquele que viaja em seus sonhos, que submerge no inconsciente e na imaginação. Ele é uma espécie de mago. Como tal, percorre o caminho do inconsciente e do mágico, e revela seus segredos para aqueles que desejam, também, experimentar dos mistérios da imaginação.

Segundo André Breton, importante poeta e teórico do surrealismo,

[o] poeta de hoje não só se inspira sempre, mas, em vez de ser objeto de inspiração, torna-se sujeito: é “aquele que inspira”. Não é apenas “eco sonoro”, “vidente”; ele é ao mesmo tempo tudo isso e mais: um mago. Ele é quem muda a vida e o mundo, quem transforma o homem. Sabe “misturar ação e sonho”, “confundir o interno com o externo”, “reter a eternidade no momento”, “fundir o geral no particular”[1] (BRETON apud: MADRID, 2003, p. 49)

Assim, as mulheres nas pinturas de Remedios Varo não abdicam das características lidas, em contextos ocultistas, como próprias do feminino. Na obra Presencia Inquietante, a protagonista fia, e em Papilla Estelar, ela alimenta. Mas em ambos os casos, trata-se de uma esfera de trabalho: o ato de fiar é uma produção material, o objeto que mói as estrelas traz em seu topo uma chaminé de fábrica.

Esses serviços, contudo, dão vida e forma à magia; afinal, fia-se uma árvore da vida e alimenta-se a lua com mingau de estrelas. Em ambas as obras, o feminino traz uma potencia mística, e é ponto de partida para o contato com o desconhecido. Como maga, a artista faz o mesmo trabalho: mergulha no místico e retornar para a superfície. O resultado desse trabalho é a obra de arte.


REFERÊNCIAS

BENEVIDES, Mariana. Devemos falar sobre Remedios Varo. Escotilha, 2017. Disponível em: http://www.aescotilha.com.br/artes-visuais/visualidades/devemos-falar-sobre-remedios-varo/

EGEA, Pili. Papilla estelar La chimenea que tritura estrellas y el universo del subconsciente de Varo. México: FEMSA, 2020. Disponível em: https://historia-arte.com/obras/papilla-estelar

DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem como rasgura. In: Diante da Imagem: questões colocadas aos fins de uma história da arte. São Paulo: Editora 34, 2013. P. 185-297.

MADRID, María José Gonzáles. Surrealismo y Saberes Mágicos en la Obra de Remedios Varo. Tese (Doutorado em História da Arte). Departamento de História da Arte da Universidade de Barcelona, Catalunha, 493 p, 2013. Disponível em: https://core.ac.uk/download/pdf/19959501.pdf

OLIVEIRA, Juliana Michelli S. As máquinas analógicas de Remedios Varo. Extraprensa, São Paulo, v. 12, n. 2, p. 68 – 84, jan./jun. 2019. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/335430406_As_maquinas_analogicas_de_Remedios_Varo


[1] Tradução nossa.


Juliana Cunha é escritora de terror, mestre em artes pelo PPGARTES / UERJ e bacharel em história da arte pela mesma universidade. Estuda arte moderna, com foco no expressionismo e nas questões da subjetividade, da morte e do maligno em distintas manifestações artísticas. É Assistente de Curadoria da Casa Museu Eva Klabin (2021) e atuou como Assistente de Coordenação do Setor Educativo da Casa Museu Eva Klabin entre 2017 e 2021.

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