Crítica quinzenal Lorenza Gioppo

Panmela Castro: Ostentar é acreditar em si

A artista Panmela Castro define-se uma pessoa em um não-lugar e por meio da sua obra confessional e autobiográfica busca entender o papel e potencialidades dessa posição. Ela afirma falar de sua própria história na esperança de que outras pessoas se identifiquem e é nessa identificação que reside a força de seu trabalho: permitir que outras pessoas se reconheçam em suas experiências justifica o compartilhamento dessas vivências e as ratificam como arte, “validando” e valorizando não só a história de Panmela, mas de todas aquelas que de uma forma ou de outra se aproximam dela.

“Ostentar é estar viva”, exposição individual da artista, em cartaz na Galeria Luisa Strina, em São Paulo, é composta por obras de diversas linguagens que criam uma atmosfera sagrada, ritualística, em que as reverenciadas são as visitantes, as retratadas nas pinturas, a própria artista. Defende-se ali o direito de ser, de se expressar e, acima de tudo, de se valorizar. De ser soberana da própria vida.

Foto: site Galeria Luisa Strina

Esse “ritual” acontece através da expografia e das obras, que, juntas, constroem um espaço bem cuidado e ornamentado com flores reais ou pintadas e totens luxuosos, provocando um olhar de admiração para tudo que está ali. A variedade de situações, a sinceridade com que elas estão expostas e a diversidade de pessoas ali representadas – principalmente pela série de retratos Vigília – instiga nossa identificação e, assim, o olhar de admiração antes direcionado para o outro se volta para nós mesmas.

As pinturas dessa série merecem destaque porque carregam uma subversão muito poderosa e que norteia a produção de Panmela: são retratos de grandes escalas de pessoas LGBT+, negras, gordas e mães em posições de imponência, de soberania, até mesmo de ostentação e são feitos em sua maioria durante madrugadas, em momentos de intimidade e troca com a artista. Isso nos faz presumir que as representações ultrapassam o aspecto físico e abarcam também a personalidade de cada uma das retratadas.

Foto: site Galeria Luisa Strina
Foto: site Galeria Luisa Strina

A série Amantes, exposta numa sala separada, caminha na mesma direção e retrata nus os amantes da artista, quase todos homens negros. Segundo a artista, os retratos não são sua visão sobre as pessoas, mas uma forma de colaborar para que elas se mostrem para o mundo como desejam ser vistas. É uma forma de usar seu papel de artista, de produtora de arte, para favorecer a autonomia e tomada de decisão e de ação de cada uma. Para ostentar as potencialidades de cada uma.

Com isso, Panmela determina que há mais pessoas, mais formas de viver dignas de serem vistas como arte e, assim, afirma que ela mesma detém a autonomia de definir o que é arte e o que não é. Ela é arte. Seu corpo, sua história, suas escolhas são arte. Ela ostenta autonomia, autoestima, autoconfiança e por meio da experiência da mostra nos faz perceber que somos capazes – e merecedoras – dessa ostentação também.

A exposição “Ostentar é estar viva” tem curadoria de Daniela Labra e fica em cartaz na Galeria Luisa Strina, em São Paulo, até dia 22 de janeiro de 2022. A entrada é franca.


GALERIA LUISA STRINA. Catálogo da Exposição Ostentar é estar viva, 2021. São Paulo. Disponível em <https://privateviews.artlogic.net/2/32f68b9ec78f5126f55f39/&gt;. Acesso em 20 de dez de 2021.

INSTITUTO PIPA. Prêmio Pipa: Panmela Castro, 2021. Disponível em <https://www.premiopipa.com/panmela-castro/>. Acesso em 20 de dez de 2021.

PANMELA CASTRO. Portfolio Panmela Castro, 2021. Disponível em <https://panmelacastro.wordpress.com/about/&gt;. Acesso em 20 de dez de 2021.

COMO a arte ajuda na autoestima?. Vivian Villanova. Youtube, 2021. Disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=7DTuF3Z9vxA&gt;. Acesso em 20 de dez de 2021.


Lorenza Vicelli Gioppo é artista visual, bordadeira e diretora de arte. Curitibana, se mudou para São Paulo em 2016, inicialmente, para cursar a faculdade de Comunicação Social com Habilitação em Cinema pela FAAP. Durante a graduação, começou seus estudos nas áreas de patrimônio, gestão cultural e artes visuais. Em 2020, fez parte do Programa Formativo em Gestão Cultural, Patrimônio e Memória oferecido pela Casa Mário de Andrade. Em 2021, recebeu menção honrosa no Festival Durante por sua videoperformance “Todo Espaço que há pra mim”; participou da Oficina de Autorretrado com Jacqueline Hoodenfy pelo Festival Paiol de Fotografia e da exposição de autorretrato desse festival e recentemente ministrou a Oficina de Iniciação ao Processo Criativo pela casa de cultura A Pilastra, de Brasília. Mantém um blog sobre processo criativo, o estudosdeprocessocriativo.blogspot, e tem uma página do instagram dedicada ao bordado, a @casadebordadosdaenza. Atualmente, pesquisa os aspectos e alcances da autobiografia e trabalha como assistente de comunicação no Centro Cultural Marieta, em São Paulo.

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