Crítica quinzenal Lorenza Gioppo

Oma: não há como entender aquilo que não se quer ver

Há alguns anos, durante a faculdade, fui apresentada a um vídeo/curta-metragem que muito me encantou e muito me revoltou. Decidi começar 2022 voltando a ele.

Screenshot do vídeo

“Oma” é um curta-registro gravado por Michael Wahrmann durante visitas a sua avó e lançado em 2011. Segundo o diretor, as imagens foram feitas não com a intenção de serem montadas e divulgadas mas como “ferramenta” para tornarem as visitas mais “suportáveis”. Oma, que em alemão significa “avó”, é idosa e bastante debilitada; não se sabe ao certo se por alguma doença ou simplesmente – e eis o “x” da questão – pelo longo tempo de vida. Entendo, hoje, que é esse o fio condutor do filme: a dificuldade, ou mesmo impossibilidade, de compreensão da velhice quando se é jovem.

Há um imenso hiato entre as perspectivas de Michael e da avó, entre seus desejos, suas formas de ver o mundo e suas capacidades físicas e mentais, já anunciado pela sinopse do filme “ela fala alemão, eu falo espanhol. Ela não escuta, eu não entendo”. É quase uma Torre de Babel da qual corremos o risco de participar se não formos espectadores atentos e abertos. Para entender o que se passa e mergulhar no filme, é necessário se acostumar com o contexto e com a linguagem; se acostumar com a forma como Michael interage com Oma, com os planos fechados e confusos com os quais ele a apresenta e apresenta a relação que estabelece com ela. Planos que parecem terem sido gravados às escondidas, nos apontando que há algo de íntimo ali. Algo sincero, difícil, confessional. O que Michael compartilha conosco é seu confronto com o impreterível, com aquilo que não queremos ver.

 O filme nos confunde e parece jogar com nossos sentimentos, tem um quê de desconfortável, apesar do caráter cômico das constantes afirmações de “não entendo, Oma”, quase sempre ignoradas. Fica evidente o incômodo de Michael na presença da avó: enquanto para ele é díficil estar ali, ficando logo impaciente e irritado, ela se dedica com tudo que pode para manter o vínculo com o neto. Ela já foi jovem e por isso é mais fácil ter empatia por ele. Ao mesmo tempo, Michael é um lembrete daquilo que ela não tem mais, do tempo que passa e tira sua capacidade dos olhos, da memória, de futuro. Portanto, se relacionar com Michael é se relacionar com a potencialidade da vida, com o vigor da juventude. E talvez seja disso que Oma não quer abrir mão quando pede que o neto fique mais um pouco, quando o acompanha atenta até o último instante da visita. Enquanto isso, para ele é justamente o contrário: com 25 anos na época das gravações, ele não tem porque olhar para a senilidade, pensar no irremediável ou encarar a morte de frente. No fundo, é a proximidade com a morte que incomoda e afasta Michael: é Isso que ele não entende.

 Nesse sentido, a câmera e as gravações são como um escudo e uma ferramenta de compreensão, ao mesmo tempo que protege, aproxima esses polos dicotômicos. É por meio da câmera que avó e neto se relacionam e encontram um equilíbrio, como quando ele finge fotografá-la e ela finge posar, “encenando um teatro para alegria do outro”, como aponta Mariana Serapicos. A aceitação da distância e da incompreensão da situação um do outro atua aqui como uma aceitação da Vida, do tempo. Do fato de que Oma não é mais jovem e que Michael vai um dia envelhecer. Uma aceitação de que é preciso saber se relacionar com a Morte, ainda que não a entendamos.


OMA. Direção: Michael Wahrmann. Produção: Michael Wahrmann, Renata Moura e Gustavo Beck. Montevideo, Uruguai, 2005 / São Paulo, Brasil, 2011. Sancho Filmes. Disponível em https://vimeo.com/43057161

SERAPICOS, Mariana. No entiendo. Blog da oficina de Crítica Cinematográfica do Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo – Curta Kinoforum. 2011. Disponpivel em <http://kinoforum.org.br/criticacurta/no-entiendo/&gt;

IANEZ Mirrah. Não entendo, Oma. Blog da oficina de Crítica Cinematográfica do Festival Internacional de Curtas Metragens de São Paulo – Curta Kinoforum. 2011. Disponpivel em <http://kinoforum.org.br/criticacurta/%E2%80%9Cnao-entendo-oma%E2%80%9D/&gt;


Lorenza Vicelli Gioppo é artista visual, bordadeira e diretora de arte. Curitibana, se mudou para São Paulo em 2016, inicialmente, para cursar a faculdade de Comunicação Social com Habilitação em Cinema pela FAAP. Durante a graduação, começou seus estudos nas áreas de patrimônio, gestão cultural e artes visuais. Em 2020, fez parte do Programa Formativo em Gestão Cultural, Patrimônio e Memória oferecido pela Casa Mário de Andrade. Em 2021, recebeu menção honrosa no Festival Durante por sua videoperformance “Todo Espaço que há pra mim”; participou da Oficina de Autorretrado com Jacqueline Hoodenfy pelo Festival Paiol de Fotografia e da exposição de autorretrato desse festival e recentemente ministrou a Oficina de Iniciação ao Processo Criativo pela casa de cultura A Pilastra, de Brasília. Mantém um blog sobre processo criativo, o estudosdeprocessocriativo.blogspot, e tem uma página do instagram dedicada ao bordado, a @casadebordadosdaenza. Atualmente, pesquisa os aspectos e alcances da autobiografia e trabalha como assistente de comunicação no Centro Cultural Marieta, em São Paulo.

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