Desvio Indica

Entrevista Ana Hortides

O menor abrigo 1, 2015, açúcar, 3 x 3 x 2 cm

Ana Hortides, Rio de Janeiro, 1989. Vive e trabalha no Rio de Janeiro. Artista visual e pesquisadora. Doutoranda em Artes pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mestre em Estudos Contemporâneos das Artes pela Universidade Federal Fluminense (UFF), 2016, na qual se graduou em Produção Cultural, 2012. Estudou na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV)/RJ.

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O menor abrigo 2, 2015, vidro, 7x7x7cm cada.

_ Ana, em 2012 você se graduou em Produção Cultural pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Durante sua graduação, em que momento você sente inclinação a se tornar artista?

Logo no início da graduação, no primeiro ou segundo semestre, eu já estava bastante interessada nas aulas que abordavam de alguma maneira as artes visuais e plásticas, tanto de forma teórica quanto prática. Sempre conto que esse desejo por me tornar artista, poder desenvolver uma prática, vem da universidade, no momento em que esse ambiente, tão diferente da escola, nos coloca frente a outras demandas e questionamentos. Estar na universidade, mesmo não cursando artes, foi fundamental para eu trilhar esse caminho, e, claro, entender que era isso o que eu queria mesmo. Esse desejo de me tornar uma artista começa a se delinear mais precisamente quando faço uma aula sobre livros e cadernos de artistas no Brasil, com o professor Italo Bruno Alves. Foi uma revolução! O tanto que a arte pode fazer, os campos em que ela pode se entremear, discutir, problematizar… Eu sabia que era o que eu queria, e disse isso ao professor, que muito generoso, me disse que eu deveria procurar a Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV). Fiz isso e aqui estou produzindo desde então. 

Carte de visite, 2015, fotografia e cartão 13×9 cm.

_ Ao adentrar o curso da EAV Parque Lage, o espaço, e a convivência com artistas pode ser encarado como um ativador de potências, durante seu percurso, de que maneira você percebe as modificações na sua vivência e trabalho?

Sim, com certeza. Estar na EAV foi muito importante, por ser uma escola livre, eu acho. Você escolhe o caminho que vai percorrer, o que tem interesse em estudar, em se aprofundar.

Primeiro fiz um curso de verão curtinho sobre História da Arte com a crítica e curadora Daniela Name, eu falo até hoje que ela foi a minha primeira professora, uma pessoa pela qual tenho muito carinho. O curso foi super intenso e cheio de referências, não sai dali do mesmo jeito que entrei, sabe? Era tanta coisa e tanto desejo por saber mais e mais… O primeiro curso semestral que eu fiz no Parque Lage foi o “Programa Fundamentação”, que era um processo seletivo gratuito destinado a estudantes universitários. Lembro que tínhamos três aulas ao longo da semana, que abordavam, cada uma, noções espaciais, do plano e da teoria e história da arte. A turma era bem grande e múltipla, tinham pessoas de diversas áreas, as trocas eram muito ricas e instigantes. Além disso, ao final do programa, os professores indicavam alguns alunos para ganharem bolsas de estudos e poderem continuar na escola por mais um ano pelo menos, frequentando outros cursos a sua escolha. Eu ganhei uma dessas bolsas e continuei lá.

Na minha vivência e no meu trabalho tudo mudou, porque quando você coloca esse tempo na sua rotina para estudar arte, ver arte ou praticá-la (no início eu não tinha um trabalho, eram só exercícios de aula e experiências), você começa a viver nessa sintonia, a trazer isso para a sua vida, e, em algum momento, você não sabe mais como viver de outra forma, talvez porque não seja preciso, né?! Já é a sua profissão, o que alimenta os seus desejos e como você se coloca no mundo.

O menor abrigo 4, madeira, 2016, foto_ Daniela Paolielo.

_ Como artista, você é também pesquisadora. Citando escritos seus “O início de uma investigação é o espaço do olhar” (Descentralidades 2013-2014). Ao investigar o espaço, que muito aparece em seus trabalhos, desde o início da sua pesquisa até o atual momento, como isso tudo reverbera em sua produção?

Isso nunca me perguntaram, mas é muito interessante pensar sobre. Como eu disse anteriormente, a universidade foi e é fundamental para a minha formação e pesquisa. Acabei de entrar no doutorado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), onde a minha pesquisa vai se debruçar sobre uma historiografia da casa na arte contemporânea brasileira, algo que sempre me interessou. Tentar construir e traçar essa “história da casa” na arte, além é claro, de trazer os meus processos artísticos para esse debate. Eu diria que a pesquisadora em mim só existe por causa da artista, então eu penso ao contrário, que o meu trabalho artístico reverbera nessa vontade da pesquisa. Primeiro eu sou artista, depois pesquisadora. No sentido de que eu só consigo olhar pras coisas como artista e o desejo da pesquisa mais acadêmica vem depois. Ao mesmo tempo, o espaço me é muito caro, a casa principalmente. O trabalho se dá pela órbita da casa, pelos seus materiais e com isso é possível tensionar a nossa realidade social e política. Especificamente na série Descentralidades (2013-2014), que é um trabalho mais antigo (em que eu ainda trabalhava com laboratório fotográfico), registrava em [câmera] pinhole a Central do Brasil, revelando e ampliando em sequência as fotos e as abandonando no espaço. Era uma ideia ainda de desvendar um espaço outro, a Central de outros tempos, que guardava uma capela, encontros e desencontros, e, também, a força e a violência implicada nisso tudo, na construção social da nossa cidade.

O menor abrigo 5, 2017, carvão, 1,5 x 1,5 x 1,5 cm.

_ Ana, ao dar início a sua pesquisa, ainda pensando Descentralidades, acredito que ao decorrer do tempo os trabalhos sejam encarados de diversas maneiras. Pensando no início de sua trajetória enquanto artista, e no momento atual, existe alguma mudança relacionada ao seu olhar sobre essa produção inicial e o que você cria no momento?

Eu acho que o trabalho de todo artista pode mudar um pouco ao longo do tempo, já que no início da prática ainda estamos entendendo o que nos move e afeta, os suportes, as técnicas (ou a falta delas), as questões que estamos nos dispondo a enfrentar, até formarmos uma poética que vai se nutrindo ao longo dos anos, em que os trabalhos vão conversando uns com os outros dentro das mesmas questões.

Hoje eu consigo perceber que só cheguei até aqui porque percorri esse caminho, onde bem lá no início da minha trajetória, eu investigava e me debruçava exclusivamente sobre a fotografia, o uso do laboratório, as ampliações, a construções de negativos e imagens, a pinhole. Eu me detinha mais a plasticidade na construção da imagem e das câmeras, até que cheguei nos álbuns de família, e consequentemente, às esculturas das casas na série O menor abrigo (2015-2017). Já estava tudo ali, uma coisa se encadeando na outra.       

_ É possível ler no seu trabalho multiplicidades que permeiam um ponto comum, o habitar. Entre memórias, escritas, imagem, corpo e casa, encontro o lugar comum nesse habitar tais espaços. Quando você inicia esta pesquisa?

O meu trabalho começa com a imagem fotográfica. Durante os primeiros anos de prática, a minha experimentação acontecia no laboratório analógico (do Parque Lage e da Universidade), com a construção de negativos, ampliações, câmeras pinhole e também adaptação de câmeras tradicionais para fazer pinhole digital. No início, o desejo era muito pela investigação dessa plasticidade, mas logo depois, comecei a entender o conceitual nessa prática, é quando faço o díptico Respiração (2012), em que eu posiciono uma câmera pinhole sobre o meu peito e deixo a minha respiração interferir na captura da imagem. A partir disso, começo a pensar sobre uma nova ótica, a do corpo como esse primeiro abrigo, do lugar das memórias, partindo ainda da fotografia, mas de um lugar diferente, novo para mim. Trago então para o laboratório as fotografias de álbuns de família, outras que encontrava pelas ruas ou mesmo que comprava em feiras de antiguidade, como a  da Praça XV, no centro do Rio. Esse processo foi muito profícuo, importante e intenso, eu cheguei até a fazer vídeos com os meus avós, alguns em pinhole digital, inclusive. Muitos desses trabalhos eu nunca mostrei. Eu estava muito imersa nesses processos, foram alguns anos de produção intensa, mas em algum momento eu comecei a sentir que a fotografia não me bastava, que eu precisava entrar mais na casa, construir a minha própria casa. É assim que surge a série O menor abrigo (2015-2017), onde trabalho com as casas de açúcar, vidro, madeira, porcelana e carvão.

Home, 2015.

_ Em Fundação #2 você adentra o espaço do casa, investigando e expondo suas fundações, como o concreto por baixo do cimento, no vídeo também aparecem objetos internos, como canos. Ao atravessar o concreto, são mostradas as “entranhas” da casa, muito semelhantes a um corpo. Ao realizar esse trabalho, quais inquietações são geradas?

Fundação #2 (2021) surge exatamente dessa vontade de entrar por entre as camadas da casa, desvendar a sua constituição, ver o que há lá dentro, no fundo… A ação aconteceu na casa onde nasci e fui criada, em Vila Valqueire, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Uma casa antiga, construída pelos meus avós maternos, com suas próprias mãos, como conta o meu avô. O desejo que me tomou era o de arrancar essa “casca da casa”, o piso que foi colocado sobre os caquinhos cerâmicos que revestiam o chão de outrora, fazer uma fenda, “abrir”. A série Fundação vem para mim como esse trabalho de construção, reconstrução e destruição, por meio do uso de materiais que colocam as casas de pé. Em Fundação #1 (2020), por exemplo,trabalhei com concreto em uma série de três pequenas casas, já no segundo, que é essa ação, o sentido era outro, quase que inverso…  

_ Um elemento que muito me interessa no seu trabalho é a relação com o espaço da casa. Em O menor abrigo #1,#2 e #3 você apresenta um trabalho com objetos de dimensões e materialidades variadas, que no entanto são materializados através de elementos familiares e singularidades que retornam à casa. Comenta um pouco sobre esse trabalho?

A série O menor abrigo surge com a casa feita de cubos de açúcar em 2015, que vem desse desejo plástico e conceitual de poder construir uma casa. Até então, eu trabalhava apenas com fotografia, mas já havia a questão da plasticidade envolvida, do poder construir as coisas com as minhas próprias mãos. Na mesma época, me inscrevi numa imersão em processos fotográficos no Lab Clube (do Coletivo Filé de Peixe), no bairro do Catumbi, aqui no Rio de Janeiro. Durante o curso aprendemos técnicas como papel salgado, van dyke, cianótipo e goma bicromatada. Nesse período, eu já havia “descoberto” os cubos de açúcar que seriam os tijolos para construir a minha casa, porém, eu não sabia ainda de que modo construí-la. Lembro que de imediato me veio o óbvio, colar os cubos uns aos outros de modo a fazer paredes, e, assim, então, uma casa. Mas ainda não era o que eu queria. Então, em um dos dias da imersão no Lab Clube, levei alguns cubos de açúcar, era o dia de fazer van dyke, então emulsionei quatro deles com a química, do mesmo modo que faria com o papel, e os coloquei na mesa de luz com o negativo de uma foto 3×4 da minha avó jovem. Há alguns meses que eu já estava diante do açúcar, vendo aqueles cubos como os tijolos que construiriam a minha casa, mas com dificuldade de conseguir chegar a essa forma da casa. Voilà! A foto saiu sobre os cubos de açúcar! Foi impressionante.

O marrom van dyke possibilita a produção de uma imagem que, se não passa pelos banhos, não é fixada, ficando impregnada sobre a superfície do papel e reagindo à luz e escurecendo com o tempo, “queimando”, até o seu desaparecimento. Por esse motivo foi possível reproduzir a imagem efêmera sobre o açúcar. Acho que isso era o que eu precisava naquele momento pra conseguir colocar essa casa de açúcar de pé, pois logo depois, continuando a trabalhar com o material, cheguei à forma da casa. Uma construção não literal, onírica, um pequeno amuleto que cabe na palma da mão.

Após O menor abrigo #1 (2015), continuei trabalhando com a ideia da casa com outros materiais, – vidro, porcelana, madeira e carvão -, que ditavam por esse dado, a escala, a forma e a quantidade de esculturas de cada uma das cinco casas da série.

_ Trabalhando a ideia da casa, hoje, de que maneira você percebe esses afetos nos seus trabalhos mais atuais?

Hoje eu sinto que já trabalhei com essa questão, também muito ligada à memória, por algumas diferentes perspectivas. No início, pelo viés da imagem, por meio do uso da fotografia e dos álbuns de família, que ainda me deixavam um pouco fora desse espaço da casa em si, mas de certo modo, já apresentavam os seus habitantes, o que dá vida às casas. Nelas, fui adentrando aos poucos, quando surgem os trabalhos objetuais e escultóricos que lidam mais com a questão do abrigo, do habitar, desse espaço da casa como o das primeiras experiências, das nossas vivências mais íntimas… Já agora, me vejo pensando a casa não só por entre as quatro paredes, mas como um organismo que existe por se localizar em uma determinada região e estar inserido em um repertório específico da nossa cidade. Então, o trabalho passa a ganhar mais escala, a sair de “dentro da casa” para falar desse repertório todo, e, assim comecei a desenvolver alguns trabalhos que são pipas, trapos pendurados em varais, esculturas de caquinhos cerâmicos (muito usados para revestimento de pisos em regiões periféricas e subúrbios), também utilizo o capacho e os sacos de lixo que se tornam bandeiras hasteadas em cabos de vassouras velhas.  

_ Em Coragem/Fôlego, você apresenta uma série de palavras utilizando um capacho enquanto suporte. Conta mais sobre esse trabalho?

O uso da palavra começou a surgir pra mim há pouco tempo, acredito muito que pelas tensões sociais e políticas que temos vivido nesses últimos anos aqui no Brasil. Crise financeira, sanitária, desmonte da cultura, uma enorme ignorância vil por parte dos governantes… Acho que a palavra acaba por começar a ganhar cada vez mais força, sabe? Ela vira um lema, o nosso mote. É necessário falar, ser direto. Assim, me vem o primeiro capacho, Coragem (2020), que produzi no início da pandemia e coloquei logo na porta de entrada da minha casa. Era a força diária necessária para conseguir viver isso tudo, passar por isso. O desafio de sair para trabalhar ou fazer algo básico como ir ao mercado em um momento de confinamento super difícil e incerto. Era preciso coragem.

Logo depois, começaram a me vir inúmeras palavras, que vão sendo matéria tanto para os capachos quanto para as séries de bandeiras, birutas e flâmulas que vou realizando meio que simultaneamente com sacos plásticos de lixo. Mas voltando aos capachos, tenho alguns trabalhos e imagino que outros virão em breve. Futuro/Coragem (2021) é um deles, em que dois capachos são apresentados posicionados lado a lado com essas duas palavras escritas em sentidos opostos. Além, é claro, de Coragem/Fôlego (2021), que você mencionou, uma série de seis capachos em que pinto as palavras coragem, impermanência, saudade, resiliência, futuro e fôlego. Antes, eles eram emborrachados, mais “industriais”, eu mandava fazer os capachos, talvez pela urgência do momento, não havia tempo a se perder… Agora, nessa série maior, eu começo a pensá-los como um suporte onde eu posso intervir diretamente, então, começo a desenhar e pintar sobre eles, o que leva tempo, tornando esse processo mais demorado, porém, necessário. É um trabalho que vem se desenvolvendo e se desdobrando no meio disso tudo que estamos vivendo.

Coragem, série_ Brasil país de todos, 2021, saco branco e cabo de vassoura, 90 x 150 cm, foto_ Jessy Gonçalves.

 _ Além da casa, também é notável a presença das bandeiras brasileiras em sua produção. Trabalhos com cobertores populares, pedra de sal, a série “Brasil país de todos” que utiliza sacos de lixo. Gostaria de saber mais sobre o processo envolto nesses trabalhos, como se dá a escolha do suporte, as nuances e questionamentos que os envolvem…

As bandeiras do Brasil feitas de sal e cobertores populares são anteriores às de sacos de lixo, feitas entre 2018 e 2019. Pensando panoramicamente em todas elas e nesse caminho onde as palavras vão surgindo, eu posso ver e dizer hoje que por serem reconhecivelmente bandeiras, trazem, por um lado, o questionamento político. Mas, por outro, como são feitas cada uma à sua maneira, e, com um material diverso, apresentam problematizações diferentes, que passam pelo âmbito da casa por conta dos seus materiais constituintes (sal, cobertor, saco de lixo e cabo de vassoura), resvalando em algo maior que nossa individualidade, dizendo respeito ao todo.

Já a série Brasil país de todos surge em 2020 com trabalhos que são bandeiras, birutas e flâmulas que carregam palavras como coragem, futuro e resiliência, feitas de sacos plásticos de lixo e hasteadas com cabos de vassouras. Na verdade, um pouco antes, ainda em 2019 eu fiz a primeira bandeira do Brasil em saco de lixo preto e hasteada com um cabo de vassoura verde e amarelo bem velho e usado, que encontrei na casa da minha avó. A série nasce daí, porque o ano virou, a pandemia chegou e com ela vieram as palavras, como disse há pouco sobre o seu uso nos capachos. Só que aqui elas surgem sendo trabalhadas com sacos de lixo, em que escrevo as palavras com o seu próprio material, que aquecido, gruda nesse “corpo” da bandeira. Você precisa ver esses trabalhos de perto, eu acho que faz muita diferença poder ver os pequenos detalhes, porque o plástico quando aquecido, às vezes rasga, queima, deixa as marcas na bandeira, cria uma textura, certas “cicatrizes” na sua superfície, e, acaba que é isso que o trabalho coloca, é disso que ele está falando com a sua materialidade, o preço que pagamos pela nossa coragem, resiliência e o desejo de construir um futuro melhor.

O pequeno manual das sensações.

_ Da minha perspectiva, os trabalhos da série Guardar Silêncio, tocam questões ligadas ao corpo feminino, observando-os em conjunto, sinto que todos estão conectados contando histórias delicadas e carregadas de força simbólica. Ao realizar a série, quais diálogos são canalizados nas peças?

Guardar Silêncio traz duas séries de trabalho, Vaginas (2018) e Camas (2019-2020). A primeira é feita com abridores de garrafa em forma de vaginas que são produzidos no interior do país e comumente encontrados em feiras populares. Então, o que eu faço é  mergulhar cada um deles na parafina. É um trabalho que fala sobre o corpo da mulher, com certeza. Corpo de mulher e não corpo feminino, entende? Acredito que o termo feminino joga para uma idealização de gênero onde entram outros sentidos estereotipados, que colocam o corpo num lugar da fragilidade, da delicadeza, de uma necessidade de proteção. Eu não acredito nisso, o corpo da mulher é forte, autônomo, legítimo. Neste trabalho, a parafina vem evocar o gozo, que pode ser lido tanto como prazer, quanto como um ato de violência.

Já o segundo, Camas, me é um trabalho muito caro e simbólico, porque enquanto estou esculpindo as barras de sabão de coco com as minhas próprias mãos, em um ato plástico e artístico, ao mesmo tempo reproduzo um trabalho doméstico, historicamente delegado às mulheres, expondo sua desvalorização, falta de autonomia. Me sinto ao longo do processo impregnada pelo sabão, e, com a sua presença, textura, odor e sensação ao toque, novamente o trabalho se coloca, no seu fazer, no seu material. A série vem, com  uso do sabão, que além de se apresentar com relação ao trabalho doméstico delegado à mulher, traz para a discussão a sua característica alva, limpa, pura, apresentando camas com lençóis revirados, que evidenciam o uso, ou aparentemente recobrindo corpos que se colocam sob esses lençóis… Há um tom enigmático ao passo que também elucidativo, assim como na série Vaginas.

Ambas acabam por omitir algo que os materiais evidenciam, que nos coloca o questionamento sobre esse corpo da mulher, seu papel, a violência social a que está e sempre esteve exposto.

Quando eu podia ser todos, 2014, fotografia e superfície espelhada 29x21cm.

_ Ana, foram muitos projetos, trabalhos e  exposições ao decorrer dos anos, de todas as exposições das quais você participou, alguma delas teve impacto na maneira como você percebia seus trabalhos?

Nossa, demais! Ver o trabalho montado no espaço expositivo e em relação com outros, tanto meus quanto de outros artistas, acaba fazendo a gente refletir muito. Dedicamos muita energia e tempo quando o trabalho está em processo e às vezes é impossível ter dimensão dele finalizado, montado e apresentado. Agora estou participando da mostra REBU na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, com curadoria de Clarissa Diniz e Ulisses Carrilho. Na montagem, eu me senti exatamente assim, porque trouxe para essa exposição uma série de trabalhos que conversam muito entre si, mas que eu nunca tinha conseguido parar para olhar como cada trabalho se relaciona ou se apresenta frente ao outro. São pinturas e esculturas onde reproduzo os pisos das casas de subúrbio, como o vermelhão, o cimento queimado e o chão de caquinhos cerâmicos. Quando todos estavam posicionados e foram sendo montados, eu pensei, nossa, é isso! Eureka! Tá feito o trabalho.

Estudo para mãe 2, 2016, banha de porco, 11 x 9 x 5 cm.

Exposições e participações

2021 Rebu, Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro (RJ).

2021 36º Salão de Artes Plásticas de Jacarezinho, Paraná (PR).

2021 Acervo Rotativo, Oficina Cultural Oswald de Andrade, São Paulo (SP).

2021 Ve-rão, Espaço Cultural Oásis (RJ).

2021 Salão de Artes Plásticas de Praia Grande (SP).

2021 Elogio das Superfícies, Fasam Galeria de Arte, Belo Horizonte (MG).

2021 Brasil: A margem – Litorais, Sertões e Capitais, Centro de Artes da
Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ).

2021 VER, OUVIR, DANÇAR, Espaço Cultural Oásis (RJ).

2021-2020 Casa Carioca, Museu de Arte do Rio (RJ).

2020 Ao Ar Livre, Projeto de arte pública, Chile, Brasil e México.

2020 Após o terceiro dia, Caixa Preta (RJ).

2020 Arte Londrina 8, Universidade Estadual de Londrina (PR).

2020 Meia Luz, Projeto 75m², Curitiba (PR).

2020 1º Salão Artes para Adiar o Fim do Mundo, Casa Visual Galeria, Tocantins.

2020 Fotos Pró Rio, Atelier Oriente e Galeria Aymoré (RJ).

2019 18º Salão Nacional de Arte de Jataí, Museu de Arte Contemporânea, Goiás.

2019 1º Salão Vermelho de Artes Degeneradas, Ateliê Sanitário (RJ).

2019 Passeata, Galeria Simone Cadinelli (RJ).

2019 1º Salão de Arte em Pequenos Formatos do MABRI, Museu de Arte de Britânia,
Goiás.

2019 Impávido Colosso, A Mesa (RJ).

2018 Impressões do improvável, Galeria Reserva Cultural, Niterói (RJ).

2018 Junho de 2013: cinco anos depois, Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica (RJ).

2018 Pouso de Emergência, Caixa Preta (RJ).

2018 Poro Concreto, Canto da Carambola (RJ).

2018 46º Salão de Arte Contemporânea Luiz Sacilotto, Casa do Olhar Luiz Sacilotto,
Santo André (SP).

2018 VIDEOARTE AGORA VIDEOARTE, Galeria A Gentil Carioca (RJ).

2018 De Sangue e ossos, Galeria Matias Brotas, Vitória (ES).

2018 FLUTUANTES, Paço Imperial (RJ).

2018 9+1, Centro de Artes da Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ).

2017 Molde: Conversas em torno da escultura e do corpo feminino, Galeria Anita
Schwartz (RJ).

2017 Experiência 9+1, Centro Cultural da Justiça Federal (RJ).

2017 Escola em transe, Escola de Artes Visuais do Parque Lage (RJ).

2017 Abraço coletivo, Espaço Saracura (RJ).

2017 Carpintaria para todos, Carpintaria – Fortes D’Aloia & Gabriel (RJ).

2017 Insistência, Centro de Artes Calouste Gulbenkian (RJ).

2017 Há algo aqui, Galeria Recorte (SP).

2017 Do habitar estruturas, Galeria Sankovsky (SP).

2016 2ª Exposição do Programa de Exposições, Museu de Arte de Ribeirão Preto
(SP).

2016 Experiência 9+1, A Mesa (RJ).

2016 9+1 Laboratório aberto, Projeto 9+1 (RJ).

2016 Novas Poéticas, Museu do Futuro, Curitiba (PR).

2016 Casa de infância, Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica (RJ).
Mostra individual. [One-woman show].

2015 Refletidos, Centro de Artes da Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ).

2015 Desescritos Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, Niterói (RJ).

2015-2014 5ª Mostra, Escola de Artes Visuais do Parque Lage (RJ).

2014 Novas Poéticas, Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de
Janeiro.

2014 Todas as histórias do mundo, Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, Niterói
(RJ).

2014 2ª Coletiva, Escola de Artes Visuais do Parque Lage (RJ).

2014 Projeto Peixe Vivo, Centro de Artes da Universidade Federal Fluminense,
Niterói (RJ).

2014 E se não tivesse o amor?, Escola de Belas Artes da Universidade Federal do
Rio de Janeiro.

2013 Luz do Ordinário, Instituto de Artes, Programa de Pós-Graduação em Estudos
Contemporâneos das Artes e Solar do Jambeiro, Niterói (RJ).

2013 Profundidade de Campo, Centro Cultural Paschoal Carlos Magno, Niterói (RJ). Mostra individual. [One-woman show].

2013 Exposición de Fotografía Estenopeica, Pinhole Alrededor del Mundo, Museo
Presley Norton, Guayaquil/Equador.

2013 Mostra Carioca de Artes Visuais, Escola de Belas Artes da Universidade
Federal do Rio de Janeiro.

2013 Projeto Peixe Vivo, Galeria Solar do Jambeiro, Niterói (RJ).

2013 Projeto Interfaces, Instituto de Artes da Universidade Federal Fluminense, Niterói (RJ).

2013 E se não tivesse o amor?, SESC São João de Meriti (RJ).

2013 1º Salão de Artes Visuais do Centro Cultural França-Alemanha, Espaço Cultural da Galeria do Instituto Germânico (RJ).


Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte em andamento na UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro. Bolsista do projeto “Mapeando Arte e Cultura Visual Periférica”.

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