Crítica quinzenal Lorenza Gioppo

Peça Sem Palavras, da Companhia Brasileira de Teatro

O signo nasce e se desenvolve considerados os fluxos sociais, culturais e históricos. O signo só pode ser pensado socialmente, contextualmente. Deste modo, cria-se uma relação estreita entre a formação da consciência dos sujeitos e o universo dos signos. Só podemos pensar a formação da consciência a partir desse prisma derivado do embate entre signos.”

– Adilson Citelli

                A língua é uma importante ferramenta de poder. Passa despercebida no dia a dia e justamente por isso contribui para o exercício e manutenção da ideologia dominante de uma sociedade. O título de uma obra, que se constrói a partir da língua, expressa seu conteúdo e orienta sua leitura, podendo acrescentar novas camadas de interpretação a ela. Nesse sentido, o que significa uma peça de teatro que tem o título de “Sem Palavras”?

                Com dramaturgia de Marcio Abreu e Nadja Naira, a peça da Companhia Brasileira de Teatro se constrói a partir do que o grupo chama de “crônicas de travessias”, cenas – monólogos em sua maioria – que narram situações-limite da vida das personagens, as quais estão sempre em trânsito. Essas personagens têm suas particularidades e histórias, que nos entretêm, sensibilizam e geram identificação, ao mesmo tempo em que representam grupos sociais inteiros e suas cenas expõem as violências e os absurdos que foram normalizados – ou banalizados – pela nossa sociedade. São, como diz o elenco, microcosmos individuais e específicos que “vazam” para todos os lados, refletindo, afinal, o que é viver em sociedade: constantemente ser atravessado e atravessar.

                “Sem Palavras” compreende uma grande diversidade de corpos, seja em idade, formato, gênero ou origem, afirmando o Corpo como signo e como ponto de partida. Levando em consideração a potência imersiva que a experiência presencial do Teatro tem, é impossível não refletir sobre as imagens que esses corpos imprimem e as narrativas que carregam, sobre o que significa vê-los interagir e sobre como corpos e personagens se fundem: parte além de um flerte com a auto ficção, temos a evidenciação de uma realidade ardida, da marginalização de corpos que vem sendo construída e reiterada há muito tempo.

Foto de Nana Moraes

Contudo, há ao mesmo tempo um convincente convite a empatia, a reflexão e a ação. Com exceção de duas crônicas, os atores e atrizes representam as situações enquanto as narram na segunda pessoa do discurso, “você”, e dessa forma praticamente obrigam o espectador a se colocar em outros lugares, a se sensibilizar, se imaginar naquela situação, por mais distante que ela seja da sua realidade. Há um chamado para coletividade no “simples” uso desse pronome – eis o poder da língua.

Foto de Nana Moraes

Vale destacar que uma das únicas crônicas a usar a primeira pessoa é protagonizada por Vitória Jovem Xtravaganza, travesti que compõe com Viní Ventanía Xtravaganza – também atriz da peça – a dupla Irmãs Brasil. A cena se desvia da linguagem que vinha sendo construída e, como num respiro, abraça a arte confessional num texto sincero, delicado e comovente, que defende que o direito de amar e de ser amada é de todo mundo. Enquanto as outras personagens provocam a reflexão através da exposição de realidades cruéis, a dupla de Travestis instiga o público através de exercícios de imaginação de outras possibilidades de vida, de convivência, de existência. Elas reúnem cenas irônicas, chocantes e sensíveis, protagonizam as cenas inicial e final a peça e têm a voz que norteia essa narrativa.

                Nesse sentido, é interessante notar como as ações e presenças dos diferentes corpos desenham as pautas a serem enfrentadas para construção de um mundo menos violento: Key Sawao, atriz de ascendência oriental, por exemplo, representa, entre muitas coisas, as mudanças de fases de vida e a passagem do tempo a qual estamos todos expostos. Sua presença é muitas vezes silenciosa, entretanto é constante, como quem diz que no país que mais mata pessoas trans no mundo e que tem o racismo em sua base, olhar para o preconceito amarelo também é imprescindível para alcançar futuros melhores.

                “Sem Palavras” se constrói numa espécie “pós-linguagem”, dizendo aquilo que palavras não são capazes de dizer. Faz-nos enxergar e estranhar aquilo que nossos olhos foram acostumados a ver, que nossos corpos formam acostumados – ou obrigados – a sentir. Expõe-nos a realidade e, assim, nos move, para usar o termo do texto final de Viní Ventanía Xtravaganza. Uma peça ardida, desconfortável, urgente. Uma obra de arte e de cultura, que nos convida a entrar, assim como as personagem, em trânsito, em um constante movimento em busca por mudança, pela reconstrução das possibilidades de futuro.

“Sem Palavras” terminou em fevereiro sua temporada no Sesc Pompeia, em São Paulo.


TRAVESSIAS. Clara Cavour e Marcio Abreu. Youtube, 2021. Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=BW8Tbsf6FUA> Acesso em 16 de fevereiro de 2022.

CITELLI, Adilson. Linguagem e Persuasão. 16 ed. – São Paulo: Ática, 2004.


Lorenza Vicelli Gioppo é artista visual, bordadeira e diretora de arte. Curitibana, se mudou para São Paulo em 2016, inicialmente, para cursar a faculdade de Comunicação Social com Habilitação em Cinema pela FAAP. Durante a graduação, começou seus estudos nas áreas de patrimônio, gestão cultural e artes visuais. Em 2020, fez parte do Programa Formativo em Gestão Cultural, Patrimônio e Memória oferecido pela Casa Mário de Andrade. Em 2021, recebeu menção honrosa no Festival Durante por sua videoperformance “Todo Espaço que há pra mim”; participou da Oficina de Autorretrado com Jacqueline Hoodenfy pelo Festival Paiol de Fotografia e da exposição de autorretrato desse festival e recentemente ministrou a Oficina de Iniciação ao Processo Criativo pela casa de cultura A Pilastra, de Brasília. Mantém um blog sobre processo criativo, o estudosdeprocessocriativo.blogspot, e tem uma página do instagram dedicada ao bordado, a @casadebordadosdaenza. Atualmente, pesquisa os aspectos e alcances da autobiografia e trabalha como assistente de comunicação no Centro Cultural Marieta, em São Paulo.

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