Crítica Lorenza Gioppo

Double blind ou No sex last night: uma reflexão sobre o desejo

                Os trabalhos da artista francesa Sophie Calle são conhecidos por serem provocativos e gerarem dúvidas sobre os limites éticos de sua conduta com a imensa exposição da sua vida íntima e da dos outros – com consentimento ou não. Os trabalhos surgem a partir de uma estrutura rígida e pré-definida pela artista: são como jogos, nos quais quem define as regras e os resultados é ela, ainda que sua matéria-prima seja a realidade. Isso fica bastante evidente no vídeo de 1996 “Double-Blind” ou “No sex last night”, em que, em parceira com Greg Shephard, a artista documenta a viagem de carro do então casal pelos Estados Unidos.

            Cada qual com sua câmera e diário, eles registram o desenrolar de sua distante relação com uma sinceridade que é direcionada somente ao espectador. Entre eles há silêncio, conflito de interesses e a teimosia em finalizar a viagem. Em chegar ao final do jogo que Calle propôs. Toda a realização do filme acontece em função da teimosia da artista, do seu desejo de extrapolar algum tipo limite ou até de provar alguma coisa para si mesma, características presentes em vários de seus trabalhos e que são instigadas por Shephard:

“I met him in a bar in December 1989. I was in New York for a couple of days. He offered to let me stay in his apartment and I accepted. He gave me the address, handed me the keys, and disappeared. I spent the night alone in his bed. The only thing I learned about him came from a piece of paper that I found under a cigarette box. It said: “Resolutions for the New Year: no lying, no biting.” Later, I called him from Paris to thank him. We decided to meet and made a date for January 20, 1990. Orly airport at 9 a.m. He never arrived, never called, and did not answer his phone. On January 10, 1991, at 7 p.m., I received the following call: “It’s Greg Shephard. I am at Orly airport, one year late. Would you like to see me?” This man knew how to talk to me.”* (texto inicial do filme, narrado por Sophie Calle).

                É a partir do “não” que recebe dele que Sophie se instiga, propõe o projeto e estabelece suas regras. É como se tomasse essa primeira negativa como desafio, seu objetivo parece ser consumar uma relação com um homem que mais de uma vez a deixou de lado. Não por amor, nem pelo prazer da conquista, mas pela possibilidade de vencer uma tarefa que parece ser impossível: a relação, tal qual o carro de Shephard, já começa a viagem sem futuro, com impossibilidade de reparo.

            Para concluir o jogo e alcançar seu objetivo, a artista parece performar o comportamento esperado pelas mulheres no patriarcado – com o desejo de casar-se – e assim, curiosamente, age com Shephard como a sociedade age com as mulheres: pressionando e impondo até convencer. Nesse movimento, Calle ultrapassa seus limites emocionais, sociais e até familiares: aceita uma possível traição, a falta de afeto e de sinceridade, assume a solidão e a promessa de que valerá a pena poder dizer que já foi uma “nest woman”.

Print do filme

Apesar de suas obras quase sempre envolverem outras pessoas, é a si mesma que a artista investiga e é a única pessoa que corre o risco prejudicar. E é esse correr o risco de prejudicar que mais chama minha atenção nessa obra, pois para além da poética e da experimentação da linguagem, parece-se querer evidenciar a facilidade de uma mulher sair perdendo em uma relação amorosa; o risco que se corre de esquecer de si mesma e ser tomada pelo desafio de construir algo em terreno infértil.

            Como a graça dessa e de muitas obras de Sophie Calle reside em não sabermos onde começa a vida e onde começa a performance, o jogo, não temos como saber o quanto ela manipula essa situação e o quanto é levada por ela, o quanto seu desejo de estabelecer a relação com Shephard é sincero e o quanto obedece à proposta do filme. E talvez seja isso que torna esse filme tão interessante: percebemos como para nós também é difícil definir onde começam nossos desejos sinceros e onde começam as regras do jogo determinado pela sociedade, até nos deixamos levar por enredos que criamos para nos distrairmos.

*“Eu o conheci em um bar em dezembro de 1989. Fiquei alguns dias em Nova York. Ele se ofereceu para me deixar ficar em seu apartamento e eu aceitei. Ele me deu o endereço, me entregou as chaves e desapareceu. Passei a noite sozinha em sua cama. A única coisa que aprendi sobre ele veio de um pedaço de papel que encontrei debaixo de uma caixa de cigarros. Dizia: “Resoluções para o Ano Novo: sem mentir, sem morder”. Mais tarde, liguei para ele de Paris para agradecer. Decidimos nos encontrar e marcamos uma data para 20 de janeiro de 1990. Aeroporto de Orly às 9h. Ele nunca chegou, nunca ligou e não atendeu o telefone. Em 10 de janeiro de 1991, às 19h, recebi a seguinte ligação: “É Greg Shephard. Estou no aeroporto de Orly, com um ano de atraso. Você gostaria de me ver?” Este homem sabia como falar comigo.”


Entrevista de Louise Neri com Sophie Calle para Interview Magazine em 2009. Disponível em <https://www.interviewmagazine.com/art/sophie-calle> Acesso em 28 de março de 2022.

CALDEIRA, Ana Sophia. Ensaio Double Blind // No sex last night: Descontruindo a ontologia documental. Disponível em <https://www.academia.edu/7363988/Ensaio_Double_Blind_No_Sex_Last_Night_Desconstruindo_a_ontologia_documental> Acesso em 28 de março de 2022.


Lorenza Vicelli Gioppo é artista visual, bordadeira e diretora de arte. Curitibana, se mudou para São Paulo em 2016, inicialmente, para cursar a faculdade de Comunicação Social com Habilitação em Cinema pela FAAP. Durante a graduação, começou seus estudos nas áreas de patrimônio, gestão cultural e artes visuais. Em 2020, fez parte do Programa Formativo em Gestão Cultural, Patrimônio e Memória oferecido pela Casa Mário de Andrade. Em 2021, recebeu menção honrosa no Festival Durante por sua videoperformance “Todo Espaço que há pra mim”; participou da Oficina de Autorretrado com Jacqueline Hoodenfy pelo Festival Paiol de Fotografia e da exposição de autorretrato desse festival e recentemente ministrou a Oficina de Iniciação ao Processo Criativo pela casa de cultura A Pilastra, de Brasília. Mantém um blog sobre processo criativo, o estudosdeprocessocriativo.blogspot, e tem uma página do instagram dedicada ao bordado, a @casadebordadosdaenza. Atualmente, pesquisa os aspectos e alcances da autobiografia e trabalha como assistente de comunicação no Centro Cultural Marieta, em São Paulo.

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