Crítica Juliana Cunha

BRUXAS E POÇÕES MÁGICAS EM EVELYN DE MORGAN

Evelyn De Morgan
The Love Potion, 1903
Óleo sobre tela, 104,4 x 52,07 cm
Fonte: De Morgan Collection

Apesar de se aproximar dos artistas Pré-Rafaelitas na Inglaterra, Evelyn de Morgan (1855-1919) possui uma leitura dissonante do movimento quanto às mulheres, sobretudo quanto aquelas as quais eram atribuídos poderes místicos, como as bruxas. Apesar de serem personagens que cometem ações de caráter perverso ou traiçoeiro em suas histórias, Evelyn opta por representá-las como mulheres eruditas e pesquisadoras evoluídas espiritualmente.

Em The Love Potion [A poção do amor], evoca a bruxa capaz de mudar, através de experimentos, os sentimentos de um casal, como aquele que vemos pela sua janela. Além do resultado de suas pesquisas, a poção do amor, é possível encontrar na sala repleta de livros um em que lemos “Paracelso”, mestre alquimista famoso na época da artista.

Apesar de incluir um gato preto, aliado comum dessas mulheres, a bruxa de De Morgan traja, ao invés das características vestes de tons escuros, um vestido de um amarelo forte e dourado. Pesquisadores apontam que, dentro da leitura alquimista de Paracelso, tal cor, que se repete em outras figuras femininas da artista, simboliza o ouro, metal buscado nas transmutações alquímicas por representar o grau mais alto e mais puro de evolução.

A face da personagem, mais do que indicar malícia, mostra a preocupação com a dosagem correta do elemento para que a poção funcione. Ao analisar a obra percebemos que a mulher na obra de De Morgan é, enquanto bruxa, também uma alquimista e uma cientista.

Adotando temas medievais, mas com uma visualidade aproximada, pelo menos nos trabalhos iniciais, da obra de Botticelli, De Morgan explora elementos simbólicos em suas telas, como as poções mágicas. Eles comunicam o labor, o investimento espiritual e o interesse científico na busca por um conhecimento oculto na natureza, temática de interesse da artista, que era espiritualista e médium.

O interesse de Evelyn por uma visão mais espiritualizada da vida foi marcado pelo relacionamento com a médium Sophia De Morgan, através do casamento com seu filho, William De Morgan. Evelyn não só se aproximou da literatura que Sophia produziu sobre o tema, como passou a participar e comandar sessões espíritas em sua própria casa juntamente com seu marido.

Em um livro de autoria compartilhada com William, “The Result of an Experiment” (1909), publicado inicialmente de forma anônima, Evelyn afirma que ouvia direcionamento de espíritos, se comunicava de maneira telepática com o esposo e mantinha a prática da psicografia. Além disso, admite fazer parte de sessões espíritas com outros espiritualistas famosos da época, como Aleister Crowley.

O interesse espiritualista tomou não só De Morgan, mas toda Inglaterra vitoriana, que se via impactada pelas descobertas científicas de Charles Darwin com a teoria da evolução, que colocou em dúvida a literatura cristã. Além do impacto da teoria científica, a vivência em uma sociedade pós-revolução industrial, focada em questões materialistas, levou muitos a se questionarem sobre a sobrevivência e iluminação da alma. Conectando tais pensamentos à teoria científica em voga no momento, buscava-se, entre muitos indivíduos, uma evolução do espírito.

A associação entre espiritualidade e ciência, conectada pela apropriação da teoria darwinista por parte dos espiritualistas, levou muitos a buscarem a comprovação científica de suas experiências, divulgando-as em jornais ou publicando seus experimentos, como feito por De Morgan e seu marido. Contudo, sendo eles considerados ora charlatões, ora tolos, tornou-se comum a preservação de tais práticas dentro do ambiente doméstico.

Não à toa, boa parte das figuras místicas e femininas de De Morgan realizam suas bruxarias em ambiente doméstico. Além de ser o lugar em que a classe média reunia-se para realização das sessões espíritas, trata-se de um tradicional espaço vinculado ao feminino, impedido de circular livremente pelas ruas. Curiosamente, dentro do contexto espiritualista, a relação entre o feminino e o ambiente privado era lida como positiva, pois permitia às mulheres um apartamento das preocupações terrenas presentes do lado de fora. Nesse sentido, era comum, no século XIX, atribuírem às mulheres maior inclinação para as práticas da mediunidade, não só porque se acreditava que elas tinham o domínio do ambiente doméstico, mas por uma leitura de sua personalidade, mais aberta para abrir mão do controle do próprio corpo diante dos espíritos

Evelyn De Morgan
Queen Eleanor and Fair Rosamund, 1901-1902
Óleo sobre tela, 75,6 x 66,7 cm
Fonte: De Morgan Collection

Ao retratar mitos e lendas onde a trama se desenvolvia a partir dessas “bruxas”, Evelyn De Morgan, mesmo quando representava atos maléficos, valorizava a esperteza, a capacidade de pensar por conta própria e o domínio diante dos mistérios do mundo dessas mulheres. É o caso, por exemplo, da rainha Eleonor, que para matar a amante de seu marido com um veneno, ou melhor, com sua poção mágica, utiliza de uma linha vermelha mística capaz de guiá-la no labirinto que se interpõe entre ela e seu objeto de vingança.

Entre poções de amor e poções de morte, nota-se que as bruxas são capazes, devido ao seu amplo conhecimento dos mistérios da vida, de performar tanto o bem quanto o mal. Pela perspectiva dos espiritualistas, a intuição natural em razão da condição feminina era o que possibilita a essas mulheres serem figuras plenas em poder e centrais no esoterismo. Por esse motivo, desenvolveu-se uma valorização das potencialidades entendidas como femininas dentro do espiritismo, algo que destoava da situação pública da mulher.

Também era recorrente entre os espiritualistas do século XIX a compreensão de que as mulheres acusadas de bruxaria nos séculos XV e XVI eram possíveis médiuns mal interpretadas em seu tempo. Por esse motivo, houve uma aproximação de tais figuras, e mesmo na imprensa espiritualista da época era comum, por exemplo, identificarem Sophia e Evelyn De Morgan como ocultistas e bruxas.

Evelyn De Morgan
Medea, 1889
Óleo sobre tela, 148 x 88 cm
Fonte: De Morgan Collection

Para De Morgan, a diferença entre bem e mal na figura de bruxas e santos não era uma fronteira intransponível, e tratava-se, na realidade, de dois lados da mesma moeda: dos seres humanos capazes de se abrirem para a espiritualidade. As bruxas, que assim como os santos sofreram por experimentarem um contato com o sobrenatural, também se tornaram, dessa maneira, mártires.

Bruxas e santos transgrediram a expectativa sobre suas condutas no mundo, e tiveram, por conta disso, seus corpos maltratados. Mas é na submissão da carne que se ascende no mundo metafísico. E é por isso que na obra de De Morgan eles apresentam características em comum.

Sua Medeia, por exemplo, traz nas mãos uma poção, que a artista não explica se é aquela que trará morte a seus próprios filhos ou juventude ao pai de Jasão, como uma magia de cura. Seu rosto difere da imagem perversa que normalmente apresenta, e a uma delicadeza quase santa repousa em sua imagem. A face transmite a dor da traição, os pombos, símbolo de paz e esperança, estão mortos atrás dela, e a rosa vermelha, símbolo da paixão, está para ser pisoteada. Também com as poções mágicas de Evelyn de Morgan, nas mãos de mulheres inteligentes, espirituais e cientistas, a diferença do remédio e do veneno é a dose.


REFERÊNCIAS

DRAWMER, Lois Jane. The impact of science and spiritualism on the works of Evelyn De Morgan, 1870-1919. Tese (Doutorado em filosofia). High Wycombe: Universidade Nova de Buckinghamshire, 2001. 244p. Disponível em: https://bucks.repository.guildhe.ac.uk/id/eprint/9963/1/Drawmer.pdf

Evelyn De Morgan (1855 – 1919). De Morgan Collection. Disponível em: https://www.demorgan.org.uk/discover/the-de-morgans/evelyn-de-morgan/

Evelyn De Morgan’s Magical Women. De Morgan Collection. Disponível em: https://www.demorgan.org.uk/evelyn-de-morgans-magical-women/

Queen Eleanor and the Fair Rosamund. De Morgan Collection. Disponível em: https://www.demorgan.org.uk/collection/queen-eleanor-and-the-fair-rosamund/

SMITH, Elise Lawton. The De Morgans as spiritualists. In: Evelyn Pickering De Morgan and the Allegorical Body. Nova Jérsei: Fairleigh Dickinson Univ Press, 2002, P. 41 – 54. 248p.  Disponível em:

The Enchanted Interior of De Morgan’s Medea. De Morgan Collection. Disponível em: https://www.demorgan.org.uk/guildhall-exhibition-reopens-1-august-ft-de-morgans-medea/

The Love Potion. De Morgan Collection. Disponível em: https://www.demorgan.org.uk/collection/the-love-potion/


Juliana Cunha é escritora de terror, mestre em artes pelo PPGARTES / UERJ e bacharel em história da arte pela mesma universidade. Estuda arte moderna, com foco no expressionismo e nas questões da subjetividade, da morte e do maligno em distintas manifestações artísticas. É Assistente de Curadoria da Casa Museu Eva Klabin (2021) e atuou como Assistente de Coordenação do Setor Educativo da Casa Museu Eva Klabin entre 2017 e 2021.

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