Carolina Lopes Crítica quinzenal

arte filha arte mãe

eu, quando envolvida pela produção de um trabalho de arte, sinto como a mãe de um filho: na mesma medida que profundamente me encanta e espanta a força, também profundamente me irrita. sinto-me diante de uma onda, tamanho temor. é todo tudo, todo possibilidade. pareço às vezes não ter visto nada tão abarrotado de vida, algo tão indomável.

encarar aquele filho é devastador. ele me invade e também se arreganha. como pode, algo saído de mim, tornar-se tão maior que eu?

talvez seja essa a verdadeira aura do artista. talvez paire à sua volta, a marola desta onda. aquele frescor de vida que encontramos nas mulheres grávidas: o artista está sempre prenhe.

esta pessoa, capaz de trazer à luz tal existência, parece ter-se apoderado de algo. sabe-se detentor de algo ao qual não pode encerrar em si.

sabe-se poderoso.

Artista é um título cuja propriedade se toma, não se recebe. Especialmente os que não tem o privilégio de poder. É preciso apoderar-se de ser artista. Este texto é um viva para todos os que foram levados a crer durante toda a vida que este não era um título para si, e mesmo assim inventaram um jeito de ser artista.


nascida e criada em são gonçalo, carolina lopes é formanda em história da arte pela uerj, crítica de arte e cultura e artista. desenvolve suas pesquisas, acadêmica e artisticamente, principalmente através do gesto de autoproclamação, desdobrando conceitos e questões como mulher e feminismos, decolonialidades, fé e magia, e imaginação. 

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